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    A metamorfose do PCC em conglomerado empresarial (por Roberto Uchoa)

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    A operação “Carbono Oculto”, deflagrada em 28 de agosto de 2025, transcendeu o escopo de uma ação policial tradicional contra o crime organizado. Com a mobilização de 1.400 agentes e alvos que iam de postos de gasolina na periferia aos escritórios climatizados da Avenida Faria Lima, o centro financeiro do país, a operação expôs uma verdade sistêmica e profundamente alarmante: o Primeiro Comando da Capital (PCC) completou sua metamorfose de uma organização de narcotráfico para um sofisticado e multifacetado conglomerado criminoso-empresarial. A investigação, que desvelou um esquema de US$ 9,6 bilhões no setor de combustíveis, serve como o estudo de caso definitivo de uma evolução que ameaça não apenas a segurança pública, mas a própria integridade dos mercados e a estabilidade do sistema financeiro do Brasil.[1] Mais do que um problema doméstico, a “Carbono Oculto” é um alerta vermelho para a comunidade internacional, especialmente para a Europa, onde o PCC, notadamente em Portugal, já estabeleceu bases operacionais e começa a replicar seu manual de infiltração econômica. [2]

    A mudança de paradigma estratégico: de “siga o dinheiro” para “siga os produtos”

    Para decifrar a complexidade da operação “Carbono Oculto”, é preciso primeiro entender a mudança de paradigma na lógica econômica do crime organizado, um fenômeno brilhantemente diagnosticado pelo estudo Follow the Products, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A pesquisa postula que a estratégia clássica das forças de segurança de “seguir o dinheiro” (follow the money), embora ainda relevante, tornou-se insuficiente para conter as ameaças contemporâneas. O novo imperativo estratégico, argumenta o FBSP, é “seguir os produtos” (follow the products), reconhecendo que as cadeias de suprimentos de bens lícitos, como combustíveis, bebidas, ouro e tabaco, tornaram-se o principal motor de lucro e o mais eficaz mecanismo de lavagem de dinheiro para facções como o PCC. [3]

    A lógica por trás dessa migração baseia-se em um cálculo puramente econômico de risco-recompensa. O estudo do FBSP estima que a receita ilícita gerada pela infiltração em apenas quatro mercados legais atinge a monumental cifra de US$ 27 bilhões anuais. Esse montante ofusca o lucro estimado com o tráfico transnacional de cocaína, que orbita em torno de US$ 2,8 bilhões por ano. O setor de combustíveis, isoladamente, emerge como o mais lucrativo, com uma receita ilícita estimada “conservadoramente” em US$ 11,3 bilhões anuais. [4] Esses números não apenas justificam, mas tornam inevitável a incursão do PCC na economia formal. Para essa organização criminosa, não se trata de uma mera diversificação de portfólio, mas de uma evolução fundamental de seu modelo de negócios para um campo com maior potencial de lucro, fluxos de receita mais estáveis e, paradoxalmente, uma menor percepção de risco. Crimes como fraude fiscal, adulteração de produtos e formação de cartel, embora graves, demandam um aparato investigativo mais complexo e muitas vezes resultam em penalidades distintas daquelas associadas ao tráfico de drogas.

    Anatomia de um império corporativo-criminoso: a operação “Carbono Oculto”

    A operação “Carbono Oculto” é a materialização empírica da tese Follow the Products. A investigação, resultado de uma cooperação interinstitucional sem precedentes, revelou como o PCC aplicou uma estratégia de integração vertical para dominar metodicamente toda a cadeia de valor dos combustíveis, desde a importação de matérias-primas até a venda final ao consumidor na bomba. O modus operandi espelha o de um conglomerado monopolista, mas com as “vantagens competitivas” da violência, da intimidação e do total desrespeito ao arcabouço legal. [5]

    O esquema começava com a importação fraudulenta de matérias-primas, como metanol, nafta e diesel, usando uma rede de empresas de fachada para ocultar os verdadeiros beneficiários. A partir daí, a facção exercia controle sobre a produção e a adulteração, possuindo ou financiando ativos estratégicos, como quatro usinas produtoras de álcool. A etapa logística era assegurada por sua própria frota de 1.600 caminhões de transporte, garantindo a distribuição capilarizada do produto adulterado. O elo final da cadeia era uma vasta rede de mais de 1.000 postos de gasolina, espalhados por dez estados brasileiros.

    Esses postos de varejo serviam a um duplo propósito estratégico: primeiro, gerar lucro direto com a venda de combustível adulterado, lesando o consumidor e criando uma concorrência desleal que expulsava os operadores legítimos do mercado; segundo, funcionar como uma gigantesca “lavanderia” para o dinheiro oriundo de todas as atividades ilícitas do grupo, incluindo o tráfico de drogas. Entre 2020 e 2024, essa rede movimentou a impressionante soma de US$ 10 bilhões, resultando em uma sonegação fiscal estimada entre US$ 1,4 bilhão e US$ 1,6 bilhão. A sofisticação do esquema era tamanha que incluía o uso de postos “fantasmas” que, embora não operacionais, receberam US$ 400 milhões em notas fiscais simuladas, provavelmente para justificar transferências de capital de grande porte para as distribuidoras controladas pela organização. [6]

    O motor financeiro: fintechs, fundos de investimento e a conexão Faria Lima

    O mecanismo que permitiu a movimentação de cifras tão astronômicas foi o sistema financeiro, explorado em suas vulnerabilidades mais recentes e sofisticadas. A investigação expôs que o PCC utilizava fintechs como “bancos paralelos” ou “clandestinos”, aproveitando-se de um ambiente regulatório que historicamente tem sido menos rigoroso em comparação aos bancos tradicionais. Uma única instituição de pagamento, funcionando como uma câmara de compensação privada para o crime, movimentou US$ 8,5 bilhões. Para burlar a fiscalização, a fintech utilizava “contas de bolso”, contas abertas em nome da própria instituição em um banco comercial, que não identificavam os clientes finais, e recebeu mais de 10.900 depósitos em espécie, prática flagrantemente incompatível com a natureza de uma empresa de pagamentos digitais. [7]

    O dinheiro lavado não era simplesmente ocultado; era ativamente reinvestido e legitimado no coração do capitalismo brasileiro, a Avenida Faria Lima. A operação identificou 42 alvos no centro financeiro de São Paulo, revelando que o PCC controlava uma rede de pelo menos 40 fundos de investimento com um patrimônio somado de US$ 5,5 bilhões. Esses fundos, muitas vezes estruturados em um modelo de cascata (“fundo de fundos”) para máxima opacidade, foram o veículo para a aquisição dos ativos físicos do conglomerado: usinas, um terminal portuário, a frota de caminhões e mais de 100 imóveis de luxo. A investigação alcançou grandes nomes do mercado financeiro, incluindo a Reag Investimentos (listada na bolsa B3), o Banco Genial, a Trustee e o BK Bank, sinalizando a profundidade da penetração do esquema no sistema convencional.

    Em uma resposta direta e imediata, o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que as fintechs passariam a ter as mesmas obrigações rigorosas de prestação de informações que os bancos, sendo compulsoriamente incluídas no sistema “e-Financeira” da Receita Federal. [8] A medida, embora essencial, é uma ação reativa a uma vulnerabilidade sistêmica que o crime organizado já havia explorado em escala industrial.

    A contraofensiva do Estado e o desafio dos facilitadores de colarinho branco

    A operação “Carbono Oculto” é aclamada como um marco na cooperação interinstitucional, uma força-tarefa que uniu a expertise da Receita Federal, dos Ministérios Públicos Federal e Estaduais, da Polícia Federal, das polícias estaduais e de agências reguladoras como a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). Essa abordagem integrada, que combina inteligência fiscal, investigação criminal e persecução penal, é o único modelo viável para confrontar um adversário que atua simultaneamente nos campos da fraude tributária, do crime comum e da alta finança.

    Contudo, o verdadeiro desafio estratégico começa agora. O sucesso a longo prazo da contraofensiva do Estado não será medido apenas pelo desmantelamento da rede operacional, mas por sua capacidade de responsabilizar a “classe de facilitadores”, os gestores de fundos, advogados e contadores de colarinho branco que forneceram a expertise técnica e a legitimidade aparente para o esquema funcionar. As investigações apontam para a cumplicidade consciente de administradores de fundos que colaboraram ativamente para ocultar os verdadeiros beneficiários dos recursos. A persecução penal desses atores, amparada pela Lei de Lavagem de Dinheiro e pelas rigorosas normas de due diligence da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), é o próximo e mais complexo passo. Condenar os operadores da Faria Lima que viabilizaram o esquema de US$ 10 bilhões é tão importante, se não mais, do que prender os membros da facção, pois ataca a infraestrutura intelectual que permite a existência de tal conglomerado.

    Contágio global: o Brasil como laboratório e a Europa como próxima fronteira

    O fenômeno descrito não está contido nas fronteiras brasileiras. A presença do PCC já é uma realidade confirmada em pelo menos 28 países, com Portugal servindo como principal porta de entrada e base operacional na Europa. [9] Relatórios de inteligência indicam a presença de membros no país, que não se limitam a gerenciar a logística do tráfico de cocaína através dos portos de Lisboa, Sines e Leixões. [10]

    O grande e urgente alerta para as autoridades europeias é que o PCC não está apenas exportando um produto ilícito; está exportando seu sofisticado modelo de negócio. A facção não é mais apenas um fornecedor de narcóticos. [11] Ela se apresenta como uma “multinacional do crime”, buscando ativamente infiltrar-se em setores da economia legal europeia, como construção civil, restaurantes, setor imobiliário e empresas de importação/exportação, para lavar seu capital e estabelecer uma fachada empresarial duradoura. As autoridades europeias, ao focarem excessivamente no vetor do tráfico, arriscam-se a diagnosticar erroneamente a natureza da ameaça, subestimando a capacidade do PCC de corromper instituições, distorcer mercados locais e minar a credibilidade do sistema financeiro, replicando em solo europeu a mesma estratégia devastadora revelada pela operação “Carbono Oculto”.

    A cooperação entre Brasil e Portugal, recentemente reforçada por novos acordos de segurança, é um passo vital, mas precisa evoluir. A troca de informações deve transcender a esfera estritamente policial e engajar profundamente as unidades de inteligência financeira e as autoridades fiscais de toda a União Europeia. O adversário não é mais um simples cartel de drogas, mas um ator econômico hostil com ambições e capacidades transnacionais.

    A operação “Carbono Oculto” é mais do que a crônica de um esquema criminoso de proporções inéditas. É um retrato da evolução do crime para uma forma híbrida, corporativa e globalizada que desafia as fronteiras entre o lícito e o ilícito. A resposta, tanto no Brasil quanto no exterior, deve ser igualmente sofisticada, integrada e, acima de tudo, ciente de que a batalha contra o crime organizado moderno não é mais travada apenas nas ruas, mas também nas planilhas de Excel, nos contratos de investimento e nos pregões da bolsa de valores.

     

    Roberto Uchôa de Oliveira Santos é doutorando no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, é policial federal licenciado no Brasil e integra o Conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.   Artigo transcrito do Le Monde Diplomatique-Brasil – https://diplomatique.org.br/)