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    O grande teste (por André Gustavo Stumpf)

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    A eleição para o governo do país é o momento de crise do regime presidencialista. O sistema coloca nas mãos de uma única pessoa todo o poder do país, ressalvados os pesos e contrapesos que protegem o cidadão e as instituições. É muita pressão sobre uma só pessoa que é obrigada a viajar de norte a sul, leste a oeste, no país de dimensões continentais, fazendo promessas e ouvindo queixas. O candidato fala sobre todos os assuntos, debate todas as questões e se envolve em questões pessoais, paroquiais e transcendentais. É um massacre que no final revela um vencedor. Aquele que resistir por mais tempo à cerveja quente, café frio e maionese vencida.

    É uma crise anunciada. Acontece de quatro em quatro anos no Brasil, quando além da eleição é permitida a recondução do governante por uma vez. Na realidade, o candidato faz aquele esforço monumental, gasta rios de dinheiro, porque pretende comprometer oito anos de sua vida e garantir o futuro de seus amigos mais próximos. É o que ocorre agora com o presidente Lula, veterano de três mandatos presidenciais. Ele terá mais de 80 anos no momento da eleição, se decidir concorrer ao quarto mandato, como parece que vai acontecer. O pessoal que cresceu na política ao redor dele não possui alternativas. O PT não se preparou para a eventualidade de ser obrigado a escolher outro nome. Assim, por razões políticas, partidárias e pessoais só há a alternativa Lula para o Partido dos Trabalhadores. Sem alternativas, está decidido. Ele será candidato apesar da idade e das ideias ainda fixadas no sindicalismo dos anos setenta. Não há escolha.

    Lula é um homem de sorte. Surgiu no horizonte dele o destemperado Donald Trump, presidente dos Estados Unidos que decidiu ouvir sugestões e conselhos do filho de Jair Bolsonaro. Recorreu a medidas extremamente violentas contra o estado brasileiro, puniu ministros do Supremo Tribunal Federal com a cassação de vistos, impôs a draconiana lei magnitsky contra magistrados, além de sancionar o país com o tarifaço de 50%. Ou seja, por causa de fofocas, intrigas e meias verdades, o presidente dos Estados Unidos fez renascer dentro do Brasil sentimentos nativistas, a defesa do país e reabilitou o forte sentimento antiamericano. Lula, que estava em situação eleitoral difícil, reabilitou-se e voltou a liderar as pesquisas de opinião para Presidência da República.

    Os tempos estão tão estranhos que The Economist, revista inglesa de cunho liberal, diz que Brasil e Estados Unidos mudaram de posição. O Brasil seria o líder da defesa da democracia no continente, enquanto os Estados Unidos, de Donald Trump, tornaram-se um país corrupto que anda pelo lado ruim da força política. O presidente dos Estados Unidos, que reúne a fauna exótica da extrema direita, persegue funcionários, decidiu demitir uma diretora do Federal Reserve (o banco central deles), decisão que vai provocar longa discussão judicial. O Federal Reserve é autônomo. O presidente vive delimitando prazos para que a Rússia faça acordo ou pelo menos um cessar fogo com a Ucrânia. Todos os prazos são vencidos e nada acontece. O mesmo ocorre com Israel, que não para de matar palestinos, crianças, mulheres e jornalistas, sem qualquer razão. Trump faz adversários novos a cada dia dentro e fora de seu país. Não é boa política atacar várias frentes ao mesmo tempo.

    Surpreende a docilidade do americano médio diante da agressão contra as tradicionais e seculares instituições norte-americanas. Nada ali foi construído ao acaso. Os migrantes, europeus e asiáticos, trabalharam muito para construir o país das liberdades individuais e da democracia liberal. Substituíram a figura do Rei por um presidente eleito por período definido. Tudo isso para evitar o totalitarismo que existia na Europa. Os fundadores do país decidiram criar uma sociedade fundamentada nas leis. Mas não há como prevenir a ascensão de um desequilibrado à presidência do país.

    Estas novidades levaram o brasileiro a sair de sua zona de conforto. O vice-presidente Geraldo Alckmin, designado como negociador do governo, foi ao México, onde conseguiu compromissos de elevação de compras de vários itens da pauta nacional de exportações. O governo do Japão também se movimentou, a China apareceu e os vizinhos estão começando a perceber que o comércio dentro do continente possui enorme espaço para crescer. A Ministra do Planejamento, Simone Tebet, elaborou minucioso projeto de integração com os países na margem do Pacífico. O Brasil, por força das circunstâncias, precisou se levantar de seu berço esplêndido para manter o nível de crescimento econômico.

    O grande teste vai ocorrer a partir da próxima semana, quando o grupo de militares e civis que tentaram implantar uma ditadura no Brasil começará a ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal. Os marines vão invadir o Brasil?