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    PCC na Faria Lima: “Tinha um vácuo para o crime”, diz Receita Federal

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    O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas (foto de destaque), afirma que o esquema bilionário de fraudes no setor de combustíveis envolvendo o Primeiro Comando da Capital (PCC) e empresas do mercado financeiro está relacionado à ausência de regulação nas transações financeiras das fintechs.

    Em entrevista à GloboNews na manhã desta sexta-feira (29/8), Barreirinhas disse que a Receita e o governo federal já tinham informações sobre o uso dessas instituições de pagamento pelo crime organizado: “Nós já sabíamos que, por conta desse vácuo, desse limbo regulatório, há um espaço que foi encontrado pelo crime organizado para utilizar essas instituições”, defendeu Barreirinhas.

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    A Operação Carbono Oculto, deflagrada nessa quinta-feira (28), revelou que pelo menos duas fintechs eram usadas nas operações de adulteração de combustíveis e na lavagem do dinheiro envolvido no esquema.

    11 imagensOperação Carbono OcultoMegaoperação cumpre mandados contra esquema em postos de combustíveis e fintechs controlados pelo PCCMegaoperação cumpre mandados contra esquema em postos de combustíveis e fintechs controlados pelo PCCCerca de 1 mil postos movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024A megaoperação descobriu que pelo menos 40 fundos de investimentos foram utilizados como estruturas para ocultação de patrimônioFechar modal.1 de 11

    Operação Carbono Oculto

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    Operação Carbono Oculto

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    Megaoperação cumpre mandados contra esquema em postos de combustíveis e fintechs controlados pelo PCC

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    Megaoperação cumpre mandados contra esquema em postos de combustíveis e fintechs controlados pelo PCC

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    Cerca de 1 mil postos movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024

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    A megaoperação descobriu que pelo menos 40 fundos de investimentos foram utilizados como estruturas para ocultação de patrimônio

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    São cumpridos cerca de 350 mandados de busca e apreensão a pessoas físicas e jurídicas em oito estados pelo país

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    Operações financeiras por meio de fintechs dificultavam o rastreamento dos valores que eram transacionados

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    Foram sonegados mais de R$ 7,6 bilhões em impostos, segundo a megaoperação

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    Proprietários dos postos de combustíveis venderam seus estabelecimentos ao grupo criminoso e eram ameaçados de morte caso fizessem alguma cobrança

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    Há indícios de que lojas de conveniência e padarias também parcipavam do esquema

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    “O que foi revelado ontem [28/8], [é que] determinadas pessoas vão com milhões de reais em dinheiro e depositam em uma conta-bolsão, que é uma conta bancária da fintech em um instituição financeira comum. Aquela conta não está no nome do real beneficiário, só quem sabe o real beneficiário é a fintech e ela não revela para ninguém”, disse Robinson Barreirinhas.

    Barreirinhas explica que essa opacidade retarda investigações contra esquemas criminosos. Depois da operação, o Ministério da Fazenda anunciou a publicação de uma normativa que enquadra esse tipo de empresa como instituições de pagamento.

    Na prática, isso significa que elas terão que prestar contas de suas transações à Receita Federal. Isso deve automatizar a fiscalização e possibilitar a detecção automática de fraudes.

    “Ontem, estávamos falando só de duas fintechs. Se nós tivéssemos mais informações nós poderíamos estar falando de 20, de 30. Nós falamos de R$ 50 bilhões movimentados na Operação Carbono oculto e mais de R$ 20 bilhões na outra. Se nós tivéssemos essa informação, poderíamos ter centenas de bilhões ”, completou o secretário.

    Crise do Pix

    A nova normativa do Ministério da Fazenda obedece a padrões internacionais de controle sobre transações financeiras e já era discutida pela gestão Lula. No início deste ano, a Receita já havia publicado a mesma norma pelo monitoramento sobre movimentações financeiras, mas precisou voltar atrás após uma crise de comunicação envolvendo o tema.

    À época, começou a circular uma série de informações falsas que acusavam o governo de taxar o Pix e que as transações individuais seriam monitoradas. “Nós precisamos dar um passo atrás para evitar um problema financeiro. Mas essa decisão [da normativa] estava tomada porque nós não podemos ser reféns do crime organizado, nós temos acordos internacionais que obrigam o Brasil a prestar informações sobre transações suspeitas”, afirmou o secretário.

    A repercussão da operação de quinta-feira possibilitou que a medida fosse finalmente implementada. “Esse é o momento de nós voltarmos a esse debate e exigir das fintechs nada além do sempre se exigiu de todas as instituições financeiras do Brasil”.

    Devedores contumazes

    Durante a entrevista foi mencionado um outro gargalo na legislação envolvendo os devedores contumazes, que são empresas ou pessoas físicas que deixam de pagar impostos de forma reiterada e sem justificativa.

    O secretário da Receita explicou que a forma como a legislação hoje funciona faz com que pessoas que estão na cadeia da lavagem de dinheiro consigam fechar e abrir empresas antes que o MPSP consiga avançar em suas investigações.

    “A grande maioria dos devedores contumazes estão em setores dominados pelo crime organizado. Há dois anos estamos falando de setores que o empresário não consegue entrar, porque ele não pode evidentemente concorrer”, disse o secretário.

    Barreirinhas defendeu a aprovação do projeto de lei PLP 125, que instituiu um código de defesa para contribuintes, daria agilidade para o fechamento de empresas que estejam deixando de recolher tributos. Isso seria uma forma indireta de atingir o crime organizado e separaria o “mau contribuinte” do “bom contribuinte”.