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    As razões confessáveis (e inconfessáveis) para Alcolumbre ir à guerra

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    Das muitas frases cunhadas pelo deputado Ulysses Guimarães, líder da oposição à ditadura militar de 64 e depois o condestável da chamada Nova República, segue uma que nunca perderá a validade: “Na política, até raiva é uma coisa ensaiada”.

    Lembro-me de outra, que data de meados dos anos 1980, perfeitamente aplicável desde então. A quem se queixava da baixa qualidade do Congresso daquela época, Ulysses respondia: “É porque você ainda não viu o próximo”. Bingo!

    De fato, a qualidade do Congresso só tem piorado, e curiosamente à medida em que ele aumenta seus poderes. Mais poderes e menos ônus, essa tem sido a receita. E poderes que ele subtrai ou tenta subtrair às demais instituições do Estado.

    O Congresso aproveitou a fraqueza de um presidente eleito acidentalmente para se apropriar de uma gigantesca parcela do Orçamento que administra a seu gosto. Agora, enfrenta um presidente que resiste a ser abatido, daí os choques frequentes.

    No momento, está em discussão o preenchimento da vaga aberta no Supremo Tribunal Federal com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso. A Constituição diz que a escolha do próximo ministro cabe ao presidente da República.

    Ao Senado, cabe sabatiná-lo na Comissão de Constituição e Justiça e cumprir a formalidade de aprovar por maioria dos votos em plenário o parecer que receber da Comissão. Em 134 anos, apenas cinco nomes escolhidos pelo presidente foram rejeitados.

    David Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, ameaça tudo fazer para que seja rejeitado em sessão marcada para o dia 10 de dezembro o nome de Jorge Messias, Advogado-Geral da União, indicado por Lula. A que pretexto? A nenhum pretexto decente.

    Alega Alcolumbre que Rodrigo Pacheco (PSD-MG), ex-presidente do Senado, seria um melhor nome. Alega que Lula não o consultou quando deveria tê-lo feito. Alega que Lula foi descortês por não ter lhe comunicado até aqui a escolha de Messias. E por aí vai.

    Esses são os pretextos confessáveis de Alcolumbre. Os inconfessáveis: Alcolumbre está irritado com o atraso do governo na liberação do pagamento de emendas ao Orçamento; e quer mais cargos no governo além dos que já tem, e não são poucos.

    Não é uma raiva, digamos, sincera. É uma raiva ensaiada para extrair vantagens da situação. É um sinal de que deseja negociar em uma posição de força. Nada que Lula não saiba. Nada que ele não possa administrar, e o fará na hora que achar a mais certa.

    Flores do recesso são assuntos que costumam ganhar grande espaço na imprensa quando o Congresso entra de férias. Passado o recesso, eles somem como por encanto. Este ano, as flores do recesso parecem brotar antes do tempo.

     

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