Portal Estado do Acre Notícias

“Bomba-relógio”: SP vê triplicar atendimento de viciados em bets

“bomba-relogio”:-sp-ve-triplicar-atendimento-de-viciados-em-bets

“Bomba-relógio”: SP vê triplicar atendimento de viciados em bets

O bilionário mercado de casas de apostas online se popularizou no Brasil. Como consequência, o número das buscas por atendimento médico contra o vício em jogos de azar foi triplicado nos últimos três anos em São Paulo, segundo a Secretaria Municipal da Saúde (SMS). A disponibilidade de tratamento para dependentes, no entanto, não acompanha a explosiva demanda.

De acordo com dados da SMS, a capital registrou 114 atendimentos relacionados ao transtorno do jogo entre janeiro e setembro de 2025 em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Em 2024, foram 67 atendimentos contra 35 em 2023, representando um aumento de 91%.

A procura também cresceu no Programa Ambulatorial do Jogo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP). O centro de referência iniciou o tratamento de 66 pacientes em 2023. No ano seguinte, as triagens foram suspensas em razão da alta procura, e o número de inscritos passou para 191. As triagens continuam hoje suspensas e a fila de espera tem 285 pessoas.

“A gente tem uma fila de espera grande. Estamos fazendo uma força-tarefa, mas é complicadíssimo porque a demanda é muito alta […] Estamos sentados em uma bomba-relógio e ela vai explodir. O SUS não vai dar conta, não tem profissionais para isso e vai ficar ainda mais complicado”, alertou o psicólogo Edilson Braga, pesquisador pelo Ambulatório do Transtorno do Jogo, do IPq-HCFMUSP.

As apostas esportivas e cassinos online foram legalizados no Brasil em 2018, passaram por um boom entre 2021 e abril de 2024 com crescimento de mercado na faixa de 730%, mas só foram regulamentadas por lei em 2023.

No último ano, 40 milhões de brasileiros fizeram pelo menos uma aposta ou jogo online, segundo levantamento (detalhes abaixo) da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). O Banco Central calcula que R$ 240 bilhões tenham sido destinados a casas de apostas em 2024 e, apenas no primeiro trimestre deste ano, R$ 90 bilhões irrigaram esse cofre.

Enquanto o front financeiro desse setor anda com folga em guarnição, a trincheira dos portadores de compulsão por jogos de azar, em sua versão digital neste século 21, pede socorro aos agentes de saúde mental do país antes que seja abatida.

Diarista torra rescisão

Como explica Braga, o vício em apostas está associado a comorbidades, como ansiedade, depressão e até ideações suicidas. Os dependentes perdem o controle do tempo e dinheiro gastos nas apostas e, como consequência, padecem com o coquetel de endividamento, conflitos familiares e desemprego.

Essa é a rotina da diarista Wanessa Silva, que começou a apostar no “tigrinho” há cerca de dois anos, em São Paulo. Ao Metrópoles, ela disse que perdeu um emprego estável por causa do vício e gastou os R$ 6 mil da rescisão em apostas. Wanessa não fez as contas do quanto perdeu desde que começou a jogar, mas afirma que chegou a depositar R$ 8 mil em uma única plataforma.

A “situação financeira afundada” de Wanessa, claro, criou problemas em sua vida conjugal.

“No começo meu marido me ajudava bastante. Mas muitas vezes chegou o dia de pagar as contas e eu já tinha gastado tudo. Ou então a gente precisava fazer uma compra no supermercado e eu só olhava para ele e falava: ‘não tenho como ajudar esse mês’. Ele já sabia o que era. Minhas irmãs, meu pai e meu marido acham que eu já parei de apostar. Ele avisou que se souber que eu continuo jogando, vai pedir separação.”

Para evitar o pior, ela hoje transfere qualquer dinheiro de trabalho que recebe para a conta da filha de 13 anos. Caso contrário, tudo iria para esse mercado bilionário. A menina é a única testemunha do sofrimento da mãe.

Bolsa Família

O descontrole financeiro de Wanessa em razão do vício em jogos eletrônicos não é um caso isolado. O levantamento da  CNDL/SPC Brasil indica que 19% dos apostadores comprometeram a renda com jogos de azar; 17% deixaram de pagar alguma conta e 29% já tiveram o nome negativado por causa de gastos com jogo online.

Para piorar, 27% do R$ 13,7 bilhões distribuídos pelo Bolsa Família encheram o caixa das empresas de aposta em janeiro de 2025, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU). Esse uso de benefícios sociais em jogos de azar acendeu recentemente um alerta no Ministério da Fazenda, lembrando que o boom febril entre dependentes ecoa desde 2021. A pasta determinou que, até o final de novembro, as plataformas impeçam apostas feitas por contas utilizadas por beneficiários do programa e também do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Leia também

A popularização das casas de aposta também mobilizou a polícia. O delegado da Polícia Federal (PF), Marcelo Maceira, apontou que algumas plataformas foram regularizadas com dinheiro ilícito. Em outubro, a PF deflagrou a Operação Narco Bet para desarticular um esquema de lavagem de dinheiro com envolvimento das bets. No entanto, a operação de saúde mental contra a artilharia dos jogos online segue longe das ruas.

Saga de 30 km

Ainda que São Paulo tenha se tornado o primeiro estado do país com um programa para capacitação profissional e tratamento em centros apropriados, especialmente no Caps, a experiência do Metrópoles em busca de orientação sobre atendimento na capital foi uma verdadeira saga. Além dos generalizados despreparo e desinformação verificados nos equipamentos públicos de saúde, foram 30 km percorridos nessa batalha. Até piada com rótulo de “viciado no tigrinho”, aos risos, a reportagem ouviu na abordagem de agente público.

O percurso incluiu sete unidades de saúde durante dois dias de semana, composto por quatro Caps, uma UBS e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Após uma sequência de direcionamentos sem sucesso, informações concretas e a possibilidade de iniciar o tratamento foram fornecidas apenas no sétimo endereço.

8 imagensFechar modal.1 de 8

O Metrópoles visitou sete unidades de saúde pública em busca de informações sobre tratamento para vício em jogos. Apenas na última a reportagem conseguiu orientações concretas e possibilidade de tratamento

Gabriel Lucas/Metrópoles2 de 8

Caps AD Pinheiros

Reprodução/Google Street View3 de 8

Caps Adulto Butantã

Reprodução/Google Street View4 de 8

Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental Vila Mariana

Acervo Pessoal5 de 8

UPA Vergueiro

Acervo Pessoal6 de 8

UBS Humaitá

Acervo Pessoal7 de 8

Caps Itapeva

Acervo Pessoal8 de 8

Caps Vila Monumento

Acervo Pessoal

“Infelizmente, não há especialistas sobre o transtorno do jogo no Brasil. Um programa especializado como o do Ambulatório do Jogo Patológico só existe no HC (Hospital das Clínicas)”, aponta Braga.

“Os profissionais não estão preparados, tanto do ponto de vista da conduta medicamentosa, quanto do ponto de vista psicoterapêutico. É bem complicado para a atenção do SUS, faltam profissionais. Muitas vezes, eles não sabem o que fazer e encaminham para nós”, diz o psicólogo do IPq.

Tratamento por etapas

No Ambulatório, a primeira etapa de atendimento tem como objetivo fornecer informações e acolhimento para quem fica na fila de espera. A etapa consiste em quatro encontros online.

Em seguida, os pacientes passam por um protocolo com psicodiagnóstico até serem admitidos para tratamento efetivo.

“Ele vai passar com um psiquiatra, que vai prescrever o melhor tratamento, principalmente para as comorbidades. Vamos tratar a impulsividade, a ansiedade e a depressão. Concomitantemente, o paciente vai para a psicoterapia em grupo ou individual, o que dura em torno de seis meses. Depois, continua com os médicos e vai para outros tipos de grupo, como qualidade de vida e educação física, para continuar o suporte”, explicou o pesquisador.

Em caso de recaída, os pacientes vão para o grupo de reincidentes, podendo voltar para a psicoterapia, a depender da necessidade.

Para o profisisonal do IPq, a solução efetiva do problema dependeria de um mínimo de restrição das propagandas de casas de aposta, apontadas como gatilhos para recaídas dos pacientes. Algumas delas atiçam, exatamente, a fraqueza dos compulsivos, com voz marota a perguntar se já bateu hoje aquela vontade de jogar. Outras medidas seriam maior investimento em tratamento e campanhas de prevenção que enfatizem o risco de dependência e demais prejuízos embutidos.

O que dizem os envolvidos

O Metrópoles procurou a Secretaria Municipal da Saúde sobre o tratamento para transtorno do jogo na rede pública. A pasta informou que promove a qualificação contínua das equipes da Atenção Primária e dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) por meio de ações de educação permanente, que incluem discussões de casos, acompanhamentos conjuntos e capacitações, conforme as diretrizes do Ministério da Saúde.

“Em São Paulo, as 479 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) funcionam como portas de entrada para acolhimento, avaliação da equipe multiprofissional e encaminhamento dos pacientes, quando necessário, para um projeto terapêutico. A Rede de Atenção Psicossocial (Raps) conta com 103 Caps, que fazem o atendimento inicial sem necessidade de agendamento ou encaminhamento prévio.”

Sobre as dificuldades constatadas pela reportagem, a SMS afirmou que “os profissionais do Caps Butantã serão reorientados” e que a UBS Humaitá “encaminhou o paciente ao CAPS de referência.”

Já a Secretaria de Estado da Saúde (SES) afirmou que “apoia a implementação da política voltada à abordagem terapêutica da dependência em jogos de azar, oferecendo capacitação e suporte às equipes de saúde mental da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e da Atenção Básica em todo o estado de São Paulo”. Segundo a pasta, “nos próximos meses serão promovidas ações voltadas à formação de profissionais e ao fortalecimento de parcerias”.

Acrescenta que “em relação ao Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (Caism) Vila Mariana, a Pasta esclarece que a unidade atende os pacientes com quadro de vício em jogos. Os pacientes que necessitam deste tipo de atendimento são encaminhados pela rede básica de saúde, sob gestão dos municípios”.

Sair da versão mobile