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Lucy Montoro: referência em reabilitação vê pacientes virarem funcionários

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Lucy Montoro: referência em reabilitação vê pacientes virarem funcionários

O embrião da Rede Lucy Montoro completa 50 anos e, ao longo de cinco décadas, o instituto que promove a reabilitação de pessoas que sofreram algum tipo de restrição à mobilidade ajudou inclusive a transformar pacientes em funcionários. Só neste ano, 260 mil atendidos foram realizados pelas cinco unidades da rede na capital paulista.



Tudo começou há meio século com a antiga divisão do Hospital das Clínicas, transformada posteriormente em Instituto de Medicina Física e Reabilitação (Imrea), que serviu de padrão em atendimento para a criação da Rede Lucy Montoro. Ficava ao lado da antiga favela da Vergueiro, na zona sul de São Paulo, um lugar que, com o passar dos anos, se tornou um bairro de classe média alta no meio da Vila Mariana.

“Tive colegas que me disseram: ‘Mas você não vai ficar lá?’. Porque era loucura ficar longe, porque a ideia era sempre que tudo de bom acontecia lá na Dr. Arnaldo (sede do Hospital das Clínicas e Faculdade de Medicina da USP). E eu entendi que era interessante sair daquele núcleo e olhar para uma outra dimensão do cuidado”, diz a idealizadora da Rede Lucy Montoro, a médica e professora Linamara Rizzo Battistella. A especialista diz que colegas chegaram a pensar que ela estava “de castigo” na unidade da Vergueiro.

As cinco décadas seguintes mostraram que dedicar esse cuidado às pessoas que tinham deficiências físicas, promovendo inclusão, é algo que surte efeito e traz retorno direto para a sociedade. As provas mais evidentes disso são ex-pacientes que, no decorrer da vida, se tornaram funcionários da própria Rede Lucy Montoro.

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Imrea, da Rede Lucy Montoro

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Danilo Nascimento, ex-paciente e funcionário da Rede Lucy Motoro

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Cortador de unha para amputados

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Imrea, da Rede Lucy Montoro

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Imrea, da Rede Lucy Montoro

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Daniel Tamashiro, da Rede Lucy Montoro

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Imrea, da Rede Lucy Montoro

William Cardoso/Metrópoles

Danilo Nascimento de Almeida, de 36 anos, chegou aos 2 anos de idade no instituto que, posteriormente, serviu de referência para a criação da rede. À época, era um menino que tinha como amigos os próprios profissionais que cuidavam das complicações decorrentes de hemofilia.

As articulações e, consequentemente, a parte motora ficavam prejudicadas pela doença, que provoca sangramentos prolongados. Cotovelos, joelhos e tornozelos eram bastante afetados, o que dificultava inclusive as brincadeiras com outras crianças.

Para diminuir as hemorragias, o então garoto precisava ganhar massa muscular. Ganhou muito mais do que isso, com apoio psicológico e além. “Eles dão todo um amparo, uma estrutura pra você poder seguir com a sua vida”, afirma. “Eles fizeram órtese para mim, para ajudar a diminuir o sangramento e poder usar no meu dia a dia”, disse.

O envolvimento de Danilo com o instituto nunca cessou, mas a vida o levou a outros caminhos na idade adulta e ele passou a trabalhar em uma montadora de caminhões. Quando o contrato se encerrou, surgiu uma vaga no setor administrativo da Rede Lucy Montoro. Ele se candidatou e conseguiu entrar.

“Hoje consigo retribuir um pouco do muito que essa casa já fez por mim. Porque quem vê os meus raios-x… Os médicos brincam, falam que estaria numa cadeira de rodas ou de bengala. Mas, não. Eu ando, faço minhas coisas”, diz.

Em meio ao tratamento, Danilo ganhou um amigo que seguiu roteiro semelhante. Um então jovem médico residente, também hemofílico, que passou a se dedicar a outras pessoas com a mesma condição.

Fisiatra responsável pelo Ambulatório de Hemofilia do instituto, Rodrigo Yamamoto diz que a sensação de atender em um local onde se tratou é muito gratificante. “Poder ajudar, tratar as pessoas da mesma forma que eu fui tratado. Retribuir de alguma forma o que recebi no passado”, afirma.

Rodrigo diz que ter sido paciente ajuda a compreender melhor quem hoje está nessa condição. “Já ter passado pelo que o paciente está passando neste momento ajuda a proporcionar o melhor tratamento para o paciente. Também sinto que os pacientes têm mais confiança por eu já ter recebido o mesmo diagnóstico que eles.”

Referência

Os ex-pacientes integram um quadro profissional que reúne 802 pessoas nas cinco unidades da capital.

São pessoas capazes de produzir também as tecnologias assistidas, como são chamadas órteses, próteses, cadeiras de roda e de banho, além de utensílios variados que ajudam pacientes a ganhar autonomia. Um exemplo é o cortador de unha para amputados, que pode parecer algo simples, mas faz diferença na vida de quem necessita. Foi produzido com impressora 3D.

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A professora Linamara explica que o Imrea sempre foi, ao longo dos anos, um vetor de transformação na forma como o poder público lida com o tema. “Nossa instituição teve protagonismo na mudança da política de saúde, na inclusão real das pessoas com deficiência, na mudança das estratégias do estado, porque hoje falar em acessibilidade é lugar comum. Quando a gente falava em acessibilidade, as pessoas perguntavam: ‘Como assim, é o elevador?’ Não, é muito mais do que isso.”

O exemplo também serve para fora, segundo a especialista. “Acredito que o Sistema Único de Saúde é o paradigma para o sistema privado, para o sistema suplementar. O que nós fazemos é o mínimo que eles têm que oferecer. E na nossa área eles não conseguem, né? Nós fazemos muito mais do que o sistema suplementar.”

Para Linamara, o Imrea é parte de uma mudança ocorrida ao longo desse meio século. “É um outro desenho de mundo, muito melhor, porque você junta pessoas diferentes, mas que vão conviver no mesmo espaço, produzir em conjunto, ajudar a construir uma lógica de respeito, de valorização. Isso é muito interessante.”

“Acho que nós construímos uma história de sucesso, porque não para aqui dentro e não acaba no paciente.”

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