Em 2006, Cristiana Vilas Boas, na época com 42 anos, quebrou o silêncio de 30 anos para denunciar a exploração da memória da mãe, Ângela Diniz, que é personagem principal de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, disponível na HBO. O motivo era o lançamento do livro Mea Culpa, escrito por Doca Street, assassino da socialite, que reacendeu a dor.
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“Esse homem é um canalha. Ele está querendo ganhar dinheiro à custa da minha mãe. Meu Deus, quando é que ele se cansará de assassiná-la e a reputação dela?”, desabafou Cristiana.
Em 30 de dezembro de 1976, Ângela Diniz foi morta com cinco tiros na cabeça pelo namorado paulista. Desde então, sua filha enfrentou julgamentos e preconceito:
“Fui chamada nas ruas de Belo Horizonte de filha ‘daquela drogada’, ‘daquela prostituta’. Foi assim que algumas famílias tradicionais de Minas passaram a falar da minha mãe”.
A lembrança da injustiça ecoa nas palavras de Carlos Drummond de Andrade em 1979: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”. O poeta criticava a defesa de Doca Street, que transformou Ângela em uma “femme fatale”, culpando-a pelo próprio assassinato.
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A socialite Ângela Diniz foi assassinada pelo namorado em 1976
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Ângela e Doca namoraram por quatro meses, mas a relação foi marcada por ciúmes e violência doméstica
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Marjorie Estiano e Ângela Diniz
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Marjorie Estiano e Ângela Diniz
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Andrucha Waddington é diretor de série sobre Ângela Diniz
Raquel Cunha/TV Globo e Divulgação
Segundo Doca, as últimas palavras de Ângela teriam sido: “Se quiser me dividir com homens e mulheres, pode ficar, seu corno.” Esse argumento de “legítima defesa da honra” o absolveu no primeiro julgamento. Em 1981, foi condenado a 15 anos, mas cumpriu apenas três anos em regime fechado, dois semiaberto e os demais em liberdade condicional.
Cristiana também condenou o cinismo do ex-namorado da mãe: “É aterrorizante. Ele foi à televisão dizendo que pede perdão à nossa família. Tinha, sim, que pedir perdão por todas as mentiras que contou”.
Ela relembrou os dias que antecederam a tragédia, quando Ângela e Doca foram passar o Natal em Minas:
“Ele era um homem bonito, famoso, mas havia algo errado. Não largava minha mãe. Ela não podia conversar sozinha com minha avó, minha tia ou meus irmãos. Até ao banheiro ele ia junto. Ele escreve no livro que minha mãe usava drogas o dia inteiro. Se usava, era ele quem incentivava. Em Minas, ela nem bebia.”
Raul Fernando do Amaral Street, mais conhecido como Doca Street, no julgamento do crime contra Ângela Diniz
O impacto do assassinato marcou profundamente a família. “Para nós, a morte de mamãe foi avassaladora”, disse Cristiana.
Entre acidentes e perdas, a vida seguiu marcada: o filho mais velho de Ângela, Milton Vilas, sofreu traumatismo craniano em acidente de moto e passou a se locomover com dificuldade; o caçula, Luiz Felipe, morreu aos 21 em um acidente de carro; e o primeiro marido de Ângela faleceu em um acidente de avião. A avó Maria Diniz, costureira do high society mineiro, tornou-se amargurada e morreu em 2006, depois de anos dedicada ao cuidado da família.
“É incrível que minha mãe continue a ser condenada até hoje”, afirmou Cristiana. “Ela era uma mulher de vanguarda. Fazia o que bem entendia. Apesar de toda a dor, tenho orgulho de ser filha de Ângela Diniz.”
