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    Quando não faltou lucidez ao general que se diz esquecido

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    Conta José Múcio Monteiro, ministro da Defesa, que um dia, ao encontrar no agreste de Pernambuco um dos seus antigos cabos eleitorais, abraçou-o e foi logo perguntando como estava o estado de saúde da sogra dele, uma mulher de mais de 90 anos de idade. Os dois travaram então o seguinte diálogo:

    “Ela vai muito bem, muito bem mesmo”.

    “E de cabeça, de memória?” – insistiu Múcio.

    “Ela está nítida, nítida, nítida” – respondeu o cabo.

    “Nítida, nítida? Não será lúcida, lúcida?”

    “É que eu nunca me lembro de dizer essa palavra”.

    A defesa do general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional do governo Bolsonaro, condenado a 21 anos de prisão por golpe de Estado e recolhido ao Comando Militar do Planalto, diz que ele sofre do mal de Alzheimer desde 2018 e por isso pede para que cumpra a sua pena em casa.

    O general, porém, enquanto permaneceu no cargo, e mesmo durante seu julgamento, deu repetidas demonstrações de que parecia nítido, nítido, nítido – ou melhor, lúcido, lúcido, lúcido.  Não lhe faltou lucidez, por exemplo, ao participar da reunião de 5 de julho de 2022 quando Bolsonaro antecipou que seria derrotado.

    Naquela ocasião, Bolsonaro quis saber dos seus ministros o que ainda poderia ser feito para evitar que Lula se elegesse. Heleno respondeu sem titubear:

    “Não vai ter revisão do VAR. Então, o que tiver que ser feito tem que ser feito antes das eleições. Se tiver que dar soco na mesa é antes das eleições. Se tiver que virar a mesa é antes das eleições”.

    Estava certo. Como se viu, Bolsonaro tentou virar a mesa entre novembro e dezembro daquele ano e fracassou. Parte dos chefes militares recusou-se a aderir ao golpe por falta de apoio externo e interno. Restou a Bolsonaro surrupiar presentes que pertenciam ao Estado brasileiro e escafeder-se do país sem dar posse a Lula.

    Dos Estados Unidos, onde se refugiou, assistiu pela televisão em 8 de janeiro de 2023 a invasão da Praça dos Três Poderes pela turba enfurecida dos acampados à porta do Quartel-General do Exército. Condenado a 27 anos e três meses de prisão, cumpre pena em uma sala da Polícia Federal e igualmente quer ir para casa.

    O destino de Bolsonaro e de Heleno está nas mãos do ministro Alexandre de Moraes. Bolsonaro ainda poderá ser transferido para a Papudinha antes de cumprir o resto da pena em prisão domiciliar. Quanto ao general, Moraes requereu a série de exames que ele fez de 2018 para cá como provas de sua insanidade.

    Era só o que faltava: condenado por golpe, descobre-se que Heleno tentou aplicar outro, e unicamente a seu favor.

    Boa sorte, general. Passe bem.

     

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