Em mais uma semana de impasses, as negociações por um plano de paz para a Ucrânia seguem incertas. Enquanto Vladimir Putin condiciona qualquer cessar-fogo à retirada das tropas ucranianas das regiões reivindicadas por Moscou, Volodymyr Zelensky tenta alinhar Europa e Estados Unidos para alterar um roteiro que, segundo Kiev, vem favorecendo interesses russos.
O presidente dos EUA, Donald Trump, recuou do prazo que ele mesmo havia estabelecido — um acordo no Dia de Ação de Graças —, enfraquecendo expectativas de um desfecho rápido. O gesto acabou reforçando que a reunião em Moscou entre seu enviado Steve Witkoff e o Kremlin dificilmente resultará em um avanço imediato.
Mesmo após meses de pressão, o abismo entre Moscou e Kiev continua amplo. Putin resiste a qualquer proposta que não lhe garanta controle total sobre Donetsk, ponto que permanece como linha vermelha. Já a última versão do plano norte-americano apresentada ao Kremlin retirou essa concessão territorial, reacendendo atritos e dúvidas sobre o real comprometimento russo.
Planos divergentes
As tratativas de paz entraram oficialmente em uma nova fase na última semana, com a circulação de duas versões distintas de um possível acordo: o plano de 28 pontos apresentado pelos Estados Unidos e a contraproposta elaborada pela Europa.
O plano norte-americano prevê o reconhecimento, de fato, do controle russo sobre Crimeia, Donetsk e Luhansk, o congelamento das posições em Kherson e Zaporíjia, a proibição constitucional da entrada da Ucrânia na Otan e a alteração dos estatutos da própria aliança para impedir uma futura adesão.
Por outro lado, a proposta europeia segue caminho quase oposto: não reconhece como russos os territórios ucranianos, prevê negociações futuras sobre fronteiras a partir da linha de contato, não impõe proibição formal de entrada na Otan, remove prazos fixos para eleições, oferece garantias multilaterais com critérios menos rígidos e não prevê compensações financeiras aos Estados Unidos.
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Zelensky busca apoio europeu
Zelensky tenta parecer “otimista” com o novo rascunho negociado em Genebra, afirmando que é “mais viável”, embora ainda incompleto. Ele prometeu discutir “questões sensíveis” diretamente com Trump e intensificou conversas com líderes europeus.
O presidente ucraniano também alertou para tentativas russas de interferir no processo diplomático por meio de desinformação e ataques ampliados.
Na sexta-feira (28/11), após Putin alegar que não havia o rascunho de um documento de paz, o porta-voz do Kremlin anunciou o recebimento de um “plano inicial”.
Crise interna em Kiev e avanço russo no front
- Investigadores anticorrupção fizeram buscas na casa de Andriy Yermak, chefe de gabinete e principal negociador, reacendendo pressões internas.
- As forças armadas sofrem com falta de soldados em meio ao avanço russo em Zaporíjia, Pokrovsk e Kupiansk.
- A região de Kramatorsk, ainda sob controle ucraniano, está sob ataques contínuos de drones, e a retomada de território pela Ucrânia é improvável nos próximos meses.
- Do ponto de vista militar, o desafio não é quando Kiev poderá reverter a guerra, mas se conseguirá forçar Moscou a ceder primeiro.
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Vladimir Putin
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O presidente russo, Vladimir Putin, discursou durante uma reunião no Tajiquistão
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O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky fala com a imprensa antes da cúpula da União Europeia, na Bélgica
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Pronunciamento de Volodymyr Zelensky
Gabinete Presidencial da Ucrânia
Telefonema vazado
A divulgação de uma ligação entre Steve Witkoff e Yuri Ushakov, assessor de Putin, gerou desconforto em Washington — e na Ucrânia. O enviado especial de Donald Trump teria orientado Moscou sobre como se posicionar diante de Trump, sugerindo inclusive elogios ao cessar-fogo em Gaza.
A chamada antecedeu um telefonema entre Trump e Putin descrito como “franco e produtivo” pelo Kremlin — e uma reunião tensa com Zelensky, quando Trump insistiu em concessões territoriais.
Republicanos criticaram Witkoff, acusando-o de estar “sob influência russa”, enquanto Trump minimizou a polêmica e confirmou que seu enviado viajará a Moscou nos próximos dias.
Temas sensíveis seguem sem respostas claras
- Uma possível reintegração da Rússia ao G8 parece improvável diante da rejeição europeia;
- o financiamento da reconstrução da Ucrânia continua complexo, opaco e sem consenso;
- o tamanho futuro das forças ucranianas levanta dúvidas, já que um exército de 600 mil homens seria inviável em tempos de paz;
- e a entrada na Otan permanece em debate, com os EUA defendendo um veto definitivo e os europeus preferindo deixar a decisão em aberto.
Expectativas para os próximos capítulos
Na terça-feira (25/11), o secretário de segurança ucraniano Rustem Umerov afirmou que as delegações de EUA e Ucrânia “chegaram a um entendimento comum sobre os termos principais”.
Enquanto isso, negociações paralelas entre Washington e Moscou ocorreram em Abu Dhabi, descritas como “produtivas”, mas ainda repletas de temas sensíveis.
Durante pronunciamento na última sexta-feira (28/11), o presidente da Ucrânia afirmou que o país se prepara para uma nova rodada de negociações com a delegação norte-americana, visando avançar na construção de uma paz “digna”.
