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Vício em jogos: saga de 30 km e 7 endereços marca busca por informação

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Vício em jogos: saga de 30 km e 7 endereços marca busca por informação

Após constatar multiplicação na procura por tratamento para vício em jogos de azar, o Metrópoles foi atrás de informações sobre os locais onde o atendimento é fornecido em São Paulo. Ainda que o estado tenha se tornado o primeiro do país com um programa para capacitação profissional e tratamento em centros apropriados, a experiência da reportagem em busca de informações foi uma verdadeira saga.

Além dos generalizados despreparo e desinformação verificados em seis dos sete equipamentos públicos de saúde visitados, foram 30 km percorridos nessa batalha. Até piada com rótulo de “viciado no tigrinho”, aos risos, a reportagem ouviu na abordagem de agente público.

A equipe obteve orientações concretas apenas no sétimo endereço visitado. Antes disso, foi necessário enfrentar uma sequência de direcionamentos, sem sucesso, em Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e outras instituições de saúde pública.

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O Metrópoles visitou sete unidades de saúde pública em busca de informações sobre tratamento para vício em jogos. Apenas na última a reportagem conseguiu orientações concretas e possibilidade de tratamento

Gabriel Lucas/Metrópoles2 de 8

Caps AD Pinheiros

Reprodução/Google Street View3 de 8

Caps Adulto Butantã

Reprodução/Google Street View4 de 8

Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental Vila Mariana

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UPA Vergueiro

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UBS Humaitá

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Caps Itapeva

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Caps Vila Monumento

Acervo Pessoal

A procura começou no Caps Ad Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Logo na entrada, a reportagem informou ao atendente que estava em busca de informações sobre o tratamento para vício em jogos. A mulher informou que o serviço não era oferecido no local e, após perguntar o bairro de residência, indicou o Caps Adulto Butantã, também na zona oeste.

Depois de um deslocamento de aproximadamente 5 km, a reportagem foi recebida no Caps Adulto Butantã por um segurança. Ele afirmou que os interessados deveriam procurar o Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (Caism), do governo estadual, na Vila Mariana, zona sul da cidade, e passou o contato do local. A equipe mandou uma mensagem para o número — que não aceita ligações –, mas foi respondida apenas quatro dias depois.

Mais obstáculos

O trajeto entre o Caps Butantã e o Caism Vila Mariana tem cerca de 12 km. De transporte público, a viagem leva mais de uma hora. O Metrópoles também não conseguiu informações concretas no local. Novamente na entrada, a reportagem foi informada que o Caism oferece o tratamento para transtorno do jogo, mas somente com encaminhamento de outras unidades de saúde. A orientação foi procurar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Vergueiro, a 2 km de distância.

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No local, o Metrópoles foi informado que, por tratar-se de uma UPA, o atendimento poderia ser feito apenas em caso de “surto”, e foi orientado a procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS).

Após um trajeto de cerca de 2,5 km, a reportagem chegou à UBS Humaitá, na região central da cidade, onde a orientação foi procurar outra unidade do Caps, a terceira desse percurso, com recomendação pelo Caps Itapeva. O caminho foi de outros 2,5 km e a equipe foi recebida por uma atendente, que não soube dar informações.

A sétima e última tentativa foi num quarto Caps, da Vila Monumento, na zona sul de São Paulo, escolhido após uma indicação pessoal. Foi apenas nessa unidade que a reportagem conseguiu informações concretas sobre o tratamento.

Os funcionários informaram que a demanda nunca tinha sido registrada no local, mas, após consulta, encaminharam a reportagem para uma triagem que determinaria se o atendimento seria iniciado no local ou encaminhado para outra instituição.

“Bomba-relógio”

Segundo a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), o número de atendimentos relacionados ao transtorno do jogo triplicou nos últimos três anos.

A capital registrou 114 atendimentos relacionados ao transtorno do jogo entre janeiro e setembro de 2025 em UBSs e  Caps. Em 2024, foram 67 atendimentos contra 35 em 2023, representando um aumento de 91%.

A procura também cresceu no Programa Ambulatorial do Jogo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP).

O centro de referência da USP iniciou o tratamento de 66 pacientes em 2023. No ano seguinte, as triagens foram suspensas em razão da alta procura, e o número de inscritos passou para 191. As triagens continuam hoje suspensas e a fila de espera tem 285 pessoas.

“A gente tem uma fila de espera grande. Estamos fazendo uma força-tarefa, mas é complicadíssimo porque a demanda é muito alta […] Estamos sentados em uma bomba-relógio e ela vai explodir. O SUS não vai dar conta, não tem profissionais para isso e vai ficar ainda mais complicado”, alertou o psicólogo Edilson Braga, pesquisador do Ambulatório do Transtorno do Jogo, do IPq.

As apostas esportivas e cassinos online foram legalizados no Brasil em 2018, passaram por um boom entre 2021 e abril de 2024 com crescimento de mercado na faixa de 730%, mas só foram regulamentadas por lei em 2023.

No último ano, 40 milhões de brasileiros fizeram pelo menos uma aposta ou jogo online, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil).

O Banco Central calcula que R$ 240 bilhões tenham sido destinados a casas de apostas em 2024 e, apenas no primeiro trimestre deste ano, R$ 90 bilhões irrigaram esse cofre.

Vício em jogos de azar

O Ambulatório do Transtorno do Jogo do Hospital das Clínicas elaborou 12 questões sobre a dependência em jogos de azar. Caso a resposta seja afirmativa em cinco ou mais questões, é recomendável procurar ajuda.

O que dizem os envolvidos

O Metrópoles procurou a Secretaria Municipal da Saúde sobre o tratamento para transtorno do jogo na rede pública. A pasta informou que promove a qualificação contínua das equipes da Atenção Primária e dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) por meio de ações de educação permanente, que incluem discussões de casos, acompanhamentos conjuntos e capacitações, conforme as diretrizes do Ministério da Saúde.

“Em São Paulo, as 479 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) funcionam como portas de entrada para acolhimento, avaliação da equipe multiprofissional e encaminhamento dos pacientes, quando necessário, para um projeto terapêutico. A Rede de Atenção Psicossocial (Raps) conta com 103 Caps, que fazem o atendimento inicial sem necessidade de agendamento ou encaminhamento prévio.”

Sobre as dificuldades constatadas pela reportagem, a SMS afirmou que “os profissionais do Caps Butantã serão reorientados” e que a UBS Humaitá “encaminhou o paciente ao CAPS de referência.”

Já a Secretaria de Estado da Saúde (SES) afirmou que “apoia a implementação da política voltada à abordagem terapêutica da dependência em jogos de azar, oferecendo capacitação e suporte às equipes de saúde mental da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e da Atenção Básica em todo o estado de São Paulo”. Segundo a pasta, “nos próximos meses serão promovidas ações voltadas à formação de profissionais e ao fortalecimento de parcerias”.

Acrescenta que “em relação ao Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (Caism) Vila Mariana, a Pasta esclarece que a unidade atende os pacientes com quadro de vício em jogos. Os pacientes que necessitam deste tipo de atendimento são encaminhados pela rede básica de saúde, sob gestão dos municípios”.

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