O Brasil está envelhecendo: hoje, 15,6% da população tem 60 anos ou mais, e o grupo 65+ cresceu 57,4% em apenas 12 anos, segundo o Censo 2022. Mas junto com os números, cresce também um novo modo de viver essa etapa — idosos ativos, curiosos, sem espaço para o “ficar parado”.
Leia também
-
População do DF envelhece, mas idosos estão mais ativos, revela pesquisa
-
Idosos que fazem refeições sozinhos têm alimentação pior, diz estudo
-
Força! Entenda a importância do treino de pernas para idosos
-
Suplementação para idosos: whey e creatina são opções seguras? Veja
Nesta reportagem, o Metrópoles apresenta três histórias de aposentados que mostram como essa fase pode ser recomeço, aventura e descoberta.
Clique aqui para seguir o canal do Metrópoles Vida&Estilo no WhatsApp
Jonas, 66 — O vento no rosto e o kite na mão
Em Barra Grande, no litoral do Piauí, Jonas Fontenele descobriu uma segunda juventude. Advogado criminalista, professor e aposentado que não parou de trabalhar, ele se apaixonou pelo KiteSurf aos 60 e poucos anos de vida.
“De tanto ver a galera velejando, resolvi tentar. No começo o pessoal estranhava: ‘Um ‘velho’ fazendo kite?’ Hoje, já é normal. O kite só melhorou minha vida, física e mentalmente. Me obriga a estar bem”, diz.



Jonas Fontenele de Carvalho – advogado e professor
Arquivo pessoal 
Jonas Fontenele de Carvalho – advogado e professor
Arquivo pessoal 
Jonas Fontenele de Carvalho – advogado e professor
Arquivo pessoal 
Jonas Fontenele de Carvalho – advogado e professor
Arquivo pessoal
A cena que ele conta, rindo, virou memória favorita:
“Um dia, indo para a praia, um sujeito perguntou se eu alugava o equipamento. Disse que era para mim. Ele me olhou e mandou: ‘um ‘velho’ como você veleja?’ Respondi: ‘você sabe velejar?’ ‘Não.’ ‘Então acho que ‘velho’ é você.’”
Jonas não tem vocação para ficar parado. Além do kite, anda de monociclo em grupos de Brasília e ainda sonha em terminar o curso de piloto de avião. “A vida não se acabou, não. É agora. O kite trouxe amigos jovens, novos desafios, outro ânimo. Nada melhor.”
Lúcia, 66 — A estrada como casa
Dois terços do ano, Lúcia Mello, 66 anos, e o marido, 70 anos, não têm CEP fixo. Têm rodas. O casal, que vive entre Rio das Ostras e longas viagens de motorhome, transformou um sonho em estilo de vida. “Não é viagem, é vida. Ficamos 7 a 8 meses por ano rodando”, conta.
A decisão surgiu após doenças, limitações e a pandemia. O trailer, comprado on-line em meio ao isolamento, virou liberdade. “Na primeira noite, já sabíamos: era isso.”
Depois de trailer e micro-ônibus, eles estão no segundo motorhome. Comodidade, segurança e rotina organizada — mas em movimento. “Tenho minha cama, faço minha comida, faço consultas médicas online. É conforto e saúde.”
A tecnologia dá suporte essencial, especialmente em lugares remotos. E a conexão virou ponte com os seis filhos. “A saudade é grande, porém, agora eles nos seguem 24 horas. Sempre mandamos mensagem quando estacionamos. É cuidado dos dois lados.”



Lúcia e Adaílton
Arquivo pessoal 
Lúcia e Adaílton
Arquivo pessoal 
Motorhome do casal de aposentados
Arquivo pessoal 
Lúcia e Adaílton
Arquivo pessoal 
Lúcia e Adaílton
Arquivo pessoal
No Brasil, falta desbravar apenas parte das regiões Norte e Centro-Oeste. No final de 2024, eles foram mais longe e conheceram, durante dois meses, a Argentina de Norte a Sul. As viagens são registradas no perfil do Instagram “Bora Realizar Sonho”, que já conta com mais de 7 mil seguidores.
Lúcia lembra dos perrengues — noite de chuva na estrada, pane mecânica, ajudar amigos perdidos no nada. “Tem disso. Mas também tem dormir pé na areia no Nordeste ou ao lado de um lago com neve na Argentina. Cada amanhecer compensa.”
Para quem sonha, ela deixa o conselho:
“Sonho que se sonha junto vira realidade. Mas tem que gostar do estilo. Não é hotel com rodas. É liberdade. É vida sem hora marcada.”
Laura — De volta à sala de aula para sonhar mais longe
Aos 55 anos, Laura Regina Azevedo Matos decidiu voltar a estudar. Entrou no programa UniSER, da Universidade de Brasília, criado para apoiar o envelhecimento ativo e abrir as portas da educação para pessoas idosas.
“Voltar a estudar foi maravilhoso. Aprendi a ouvir, a desacelerar, a entender o outro. Mudei meu comportamento, cuidei mais das emoções”, conta.
O impacto foi tamanho que ela reviveu um sonho antigo: ser engenheira. Hoje cursa Engenharia Ambiental e Sanitária, faz estágio e não aceita limitações impostas pelo etarismo. “O tempo somos nós que fazemos. Nunca é tarde.”
Laura concluiu o programa no primeiro semestre de 2025 e hoje, além de cursar engenharia, ela atua como tutora da unidade do Gama da UniSER. Confira abaixo a apresentação do TCC de Laura:
O program, explica ela, virou espaço de acolhimento, troca e reencontro consigo mesma. “Nas imersões de memórias afetivas, aprendi a lembrar do passado de forma leve e a projetar o futuro sem culpa. Isso me deu coragem.”
A mensagem que deixa ecoa:
“Permita-se viver o novo. Não cobre a idade. Experimente. A vitalidade vem quando a gente se movimenta.”
Uma fase de renovação e movimento
A imagem da aposentadoria como fase parada já não cabe no Brasil que envelhece. Jonas voa com o kite. Lúcia coleciona estradas. Laura reinventa sonhos na universidade.
Cada um à sua maneira, mostram que a vida depois da aposentadoria não diminui — expande. Basta coragem para dar o primeiro passo, ou para pegar a prancha, virar a chave do motorhome ou abrir um caderno novo.





