Esta semana eu fui correr atrás de uma pessoa para trabalhar na minha casa. Quantas dificuldades! Vamos ter que abrir as portas para os chineses virem ajudar na força de trabalho. Os chineses virão, de qualquer jeito, e os seus dirigentes já sabem que jamais voltarão, e também sabem a razão: comunista detesta comunismo.
Ninguém mais quer trabalhar por aqui, e quem chega pro batente, na maior má vontade, vai logo dizendo: eu não posso assinar carteira porque recebo “bolsas”. Elas é que me salvam. Estou plagiando o diretor da Petrobras, que ao ser preso, fazendo danação, só lhe restou uma interrogação: Que país é esse?
O Brasil acorda toda segunda-feira com a mesma pergunta existencial: quem vai pagar essa conta? Porque, veja bem, somos a única nação, desse mundo de meu Deus, que transformou auxílio emergencial em programa permanente, programa temporário em benefício vitalício, e benefício vitalício em estratégia eleitoral. O país virou um grande “só falta assinar”: falta emprego, falta produtividade, falta investimento, vai faltar empresários — mas bolsa tem, meu filho. E como!
Nos últimos meses, o governo federal anunciou mais camadas de benefícios sociais do que bolo em festa de criança rica e mimada. Tem complemento, subcomplemento, pix de incentivo, abono cultural, bônus de gás, auxílio de quase-tudo, bolsa din-din para artistas. O problema? Cada bolsa criada é mais um tijolo colocado na parede da dependência eterna. A economia tenta andar, mas carrega tanta gente nas costas que fissurou a coluna. A nossa cantora maior, para ler os versos do remediado Fernando Pessoa, recebe “um capilé” de doze milhões de bolsa-versos. Pra que cantar se temos o Pessoa para “bolsar”?
Roberto Campos, se vivo fosse, escreveria um bilhete curto: “Bolsa nunca será política social quando se transforma em vício.” E Simonsen arremataria: “E vício público é sempre financiado com dívida privada, alheia.”
Agora imagine esse sistema generoso (para não dizer populista) convivendo com o que está acontecendo silenciosamente nas nossas cidades: o Brasil está envelhecendo igual banana esquecida na fruteira — rápido, rasteiro, agradecido e sem aviso prévio.
Temos mais idosos, menos jovens e uma força de trabalho que diminui antes mesmo de ter aumentado. É o clássico caso de “ficamos velhos sem ficar ricos”, uma categoria que nem o FMI consegue explicar sem pirar.
E o que isso poderá significar no momento que os meus netos trabalharem?
Significa que a conta da saúde explode. O SUS, coitado, virou uma Kombi tentando transportar a população inteira: fumaça, barulho, aperto e um cartaz escrito “estou fazendo o meu melhor”. Gastos com doenças crônicas, internações e medicamentos já crescem muito mais rápido do que o PIB-INHO. E aí vem o governo com a promessa de “cuidar de todos os idosos”. Bonito, emocionante… mas sem dinheiro e tendo uma única saída: Vamos taxar! O povo aguenta! E o Paraguai, Uruguai e Argentina agradecem as chegadas das nossas empresas!
Chegamos, então, ao capítulo da aposentadoria impossível, também conhecida como “o mistério da fé”. Até o Frei está apreensivo com o fim dos seus parcos recursos, conseguidos com tamanho sacrifício.
O INSS hoje é uma espécie de aplicativo de corrida: muita gente chamando, pouca gente aceitando a viagem. A reforma de 2019 segurou o barco, mas a população envelhece mais rápido do que o Congresso cria gasto. A previdência brasileira é um sistema onde quem está trabalhando paga quem já não trabalha mais — e agora o número de pagadores diminui. É o famoso “não fecha”. Nem com reza brava, nem com Excel.
Se você tem menos de 40 anos, seu futuro previdenciário lembra aquele amigo que sempre promete pagar o que deve e você sabe que não adianta cobrar, porque você também sabe que daquela mata não sairá coelho. A aposentadoria pública do futuro tem o mesmo status da mula sem cabeça: todo mundo já ouviu falar, ninguém viu.
Enquanto isso, o governo insiste no caminho mais confortável politicamente e mais destrutivo economicamente: ampliar benefícios sem ampliar produtividade e destruindo os postos de trabalho existentes.
Porque trabalhar mais, abrir mercado, cortar burocracia, incentivar inovação — tudo isso dá trabalho. Já criar uma nova bolsa dá manchete, muito voto e crescimento do bolo fecal bem estatal.
O resultado é um país que parece novela: muitos capítulos, muitas reviravoltas, e no fim todo mundo continua no mesmo lugar.
Produtividade estagnada. Crescimento mentirosamente baixo.
E o esperançoso brasileiro, preso num triângulo amoroso fiscal:
o governo que sabe gastar muito e confortar, como poucos, as suas vítimas, a imensa população que depende cada vez mais das invenções, e o pobre contribuinte, que sofre até o fim.
Mas ainda pode existir saída — e não é mágica. É matemática.
O Brasil precisa de gente produzindo, e não apenas recebendo. Precisa de políticas públicas que libertem, não que amarrem. Precisa de um Estado que cuide dos vulneráveis, mas que não transforme pessoas em dependentes permanentes e avisados de que a idade vai chegar e pesar. E, sobretudo, precisa de coragem política para dizer o óbvio: não existe Bolsa do Futuro. Existe trabalho.
Encerramos com Roberto Campos, patrono espiritual desta coluna: “Estado grande é doença crônica: você convive, mas nunca melhora.”
E se não resolvermos isso agora, meus queridos conterrâneos, a próxima geração, a dos meus netos, vai herdar, não um país — mas um carnê.
Roberto Caminha Filho, economista, aprendeu a lavar copos, talheres, panelas e pede uma robusta chegada de chineses para ajudar.
