Havia um vento diferente soprando sobre o Acre no início da década de 1980. Em 1983, enquanto o Brasil ainda vivia sob os escombros do regime militar e ensaiava passos cautelosos rumo à abertura política, esse vento atravessava o campus da Universidade Federal do Acre, em Rio Branco. Não era apenas o calor amazônico ou a poeira da estrada mal pavimentada que levava à universidade. Era outro vento — invisível, inquieto, teimoso — o vento da mudança.
O medo ainda existia. Apenas aprendera a falar mais baixo. Mas entre corredores estreitos, salas superlotadas e mesas gastas do Restaurante Universitário, estudantes começavam a descobrir algo profundamente subversivo para qualquer ordem autoritária: a palavra. E, com ela, a coragem.
Foi nesse contexto que, no mês de novembro de 1983, se desenhou uma das disputas mais emblemáticas da história do movimento estudantil acreano: a eleição para o Diretório Central dos Estudantes da UFAC, gestão 1983–1984. A disputa não era trivial. De um lado e de outro estavam figuras já muito conhecidas dentro da universidade, símbolos de duas formas distintas — e por vezes conflitantes — de pensar a política e a organização estudantil.
De um lado estava Marcos Afonso Pontes de Souza, estudante de Direito, professor, orador intenso, dono de uma retórica cortante e de uma eterna pinta de filósofo. Marcos falava de democracia, crise econômica, Fundo Monetário Internacional e autonomia universitária como quem misturava teoria e indignação. Para muitos estudantes, ele encarnava a face mais combativa do movimento estudantil, ligada às grandes bandeiras nacionais da UNE e à politização aberta da juventude.
Do outro lado estava Maria Osmarina da Silva — Marina Silva — estudante de História, mãe, militante forjada nas lutas populares e na experiência dura do Acre profundo. Sua candidatura representava algo novo e, ao mesmo tempo, profundamente enraizado: a tentativa de construir uma chapa a partir das bases, por meio de convenções abertas, debates coletivos e confronto político direto. Marina não carregava apenas um discurso; carregava uma trajetória que ligava a universidade às lutas sociais mais amplas do estado.
Ao redor dessas duas figuras centrais gravitavam outros personagens fundamentais daquele momento histórico. Naluh Gouveia, estudante e militante ativa, participava da organização política e dos debates que cruzavam os centros acadêmicos. Antônio Manoel Camelo Rodrigues surgia como uma das vozes mais duras da crítica política, fazendo intervenções incisivas nos debates públicos, denunciando o regime militar, os acordos econômicos e o que chamava de traição das elites nacionais.
Também estavam presentes Rosângela, da Pedagogia, firme na articulação política; Josenilson Rocha Lima, do Direito, presença constante nas discussões; Sônia Amélia, da Biologia; João Batista e Wanderley Soares, responsáveis pela sustentação organizativa; José Progênio Ribeiro, das Letras, para quem a palavra era instrumento de luta. Nos centros acadêmicos, nomes como Natal Chaves, Lázaro Almeida Nogueira, Afonso, estudantes de Economia, Ciências, Agronomia, Heveicultura, Matemática e História davam corpo a um movimento plural, intenso e, muitas vezes, tensionado por divergências ideológicas profundas.
A campanha eleitoral, concentrada entre os dias 1º e 10 de novembro de 1983, foi marcada por uma intensa mobilização. Houve pichação de muros, visitas a salas de aula, arrecadação de recursos, panfletos mimeografados e debates acalorados. O ponto culminante ocorreu no dia 8 de novembro de 1983, durante um debate público realizado no Restaurante Universitário da UFAC. Ali, diante de dezenas de estudantes, ideias colidiram, acusações foram lançadas, e o confronto precisou ser mediado para não se transformar em ruptura aberta.
No dia 10 de novembro de 1983, os estudantes foram às urnas. O resultado foi apertado, revelando o grau de divisão — mas também de maturidade — do movimento estudantil. Mais do que uma vitória eleitoral, o processo representou um marco: o movimento estudantil da UFAC deixava definitivamente de ser um espaço periférico e passava a ocupar lugar central nas disputas políticas do Acre.
Para os órgãos de repressão e informação do regime, aqueles jovens passaram a ser observados com atenção. Para a universidade, já não era possível fingir neutralidade. E para os próprios estudantes, ficava claro que pensar, organizar-se e discordar eram atos irreversíveis.
Hoje, mais de quatro décadas depois, os nomes daquele novembro de 1983 ecoam como sinais de um tempo em que a política era vivida com risco, paixão e urgência. Marcos Afonso, Marina Silva, Naluh Gouveia, Antônio Manoel, Rosângela, Josenilson, Sônia, Natal, José Progênio — todos, à sua maneira, ajudaram a provar que a história não nasce pronta.
O vento que soprava naquele campus não se dissipou. Ele virou. E, ao virar, ajudou a empurrar o Acre — e o Brasil — um pouco mais perto da democracia que ainda hoje seguimos tentando construir.
