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ALUÍSIO BEZERRA DE OLIVEIRA: INTELIGÊNCIA, VIGILÂNCIA E RESISTÊNCIA NO ACRE DA DITADURA

A partir de uma leitura exaustiva de relatórios de inteligência, prontuários e informes produzidos pelos órgãos de repressão, é possível reconstruir a trajetória de Aluísio Bezerra de Oliveira sob uma perspectiva histórica reveladora. Sua biografia expõe, com nitidez, as tensões entre o Estado autoritário e os movimentos sociais no Acre durante a ditadura militar.

Nascido em abril de 1939, em Cruzeiro do Sul, Aluísio construiu uma formação acadêmica sólida e uma carreira profissional singular. Atuava no núcleo da administração federal, em Brasília, como técnico legislativo da Câmara dos Deputados, ao mesmo tempo em que era rigidamente monitorado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI).

Sua passagem pela Sorbonne, em Paris, onde se doutorou em Direito Internacional, elevou seu perfil intelectual aos olhos do aparato repressivo. Informes do Centro de Informações do Exército o descrevem como dirigente trotskista, supostamente identificado pelo codinome “Castro”, atribuindo-lhe papel central na articulação ideológica da esquerda organizada.

Para o regime, Aluísio era percebido como o estrategista por trás de movimentos estudantis e populares. Os documentos o apontam como elo entre setores progressistas da Igreja Católica, especialmente a Prelazia Acre-Purus, e veículos de imprensa combativos, como o jornal Varadouro, visto pelos militares como foco permanente de contestação.

Sua atuação partidária ganhou densidade com a criação da Tendência Popular no PMDB. Essa corrente era classificada pelos órgãos de segurança como herdeira direta do radicalismo do antigo MDB, voltada à mobilização das periferias urbanas e dos trabalhadores rurais, em especial nos seringais.

Os relatórios demonstram especial inquietação com suas conexões internacionais. Viagens a Cuba e à Nicarágua, no início da década de 1980, são descritas como evidências de alinhamento com o bloco socialista. Há registros de encontros com Fidel Castro e menções à sua defesa da união latino-americana para o não pagamento da dívida externa.

Essa projeção ultrapassava as fronteiras nacionais. Documentos citam a repercussão de suas declarações pela Rádio Paz e Progresso, de Moscou, especialmente sobre desarmamento nuclear, reforçando, na ótica da repressão, a imagem de Aluísio como porta-voz de interesses soviéticos no Brasil.

No plano regional, sua principal frente de atuação era o conflito fundiário. Aluísio se destacou como defensor dos seringueiros diante da expansão de latifundiários oriundos do sul do país. Denunciava um modelo econômico imposto por Brasília que ignorava as especificidades sociais e ambientais da Amazônia.

Tentativas de desqualificar sua liderança foram recorrentes. Investigações sobre uma certa fundação assistencial em Sena Madureira buscavam indícios de irregularidades financeiras com fins políticos. No entanto, os próprios arquivos revelam que tais esforços acabaram registrando o contrário: o crescimento contínuo de sua capilaridade social e influência popular.

Com o fim do regime autoritário, Aluísio Bezerra emergiu como uma das vozes mais contundentes contra o que chamava de “regime entreguista”. Em discursos e cartas abertas ao povo acreano, celebrou a resistência popular e o encerramento de duas décadas de governos impostos pelo sistema.

A leitura desses documentos hoje revela mais do que a vigilância a que foi submetido. Expõe a trajetória de um intelectual técnico que se transformou em líder das causas populares, transitando entre a sofisticação da teoria jurídica europeia e a dura realidade dos seringais acreanos.

🎓 DADOS DE FORMAÇÃO, MANDATOS E MORTE 🎓

📚 FORMAÇÃO ACADÊMICA

· Bacharel em Direito pela Universidade de Brasília (1969), com especialização em 1973.

· Bacharel em Administração pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (1973).

· Doutor em Direito Internacional e Relações Políticas Internacionais pela Sorbonne – Universidade de Paris (1978).

⭐ MANDATOS POLÍTICOS

· Primeiro suplente de deputado federal (1974).

· Deputado federal pelo MDB do Acre (1978).

· Reeleito deputado federal (1982).

· Senador da República pelo Acre (1987 a 1995).

🕯️ MORTE

· Faleceu em Brasília, em 25 de dezembro de 2019, aos 80 anos.

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