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    NABOR JÚNIOR: A DUALIDADE DO LIBERAL INTRANSIGENTE NOS ARQUIVOS DO SNI

    Por Edinei Muniz

    Os documentos do Serviço Nacional de Informações desenham um retrato detalhado e contraditório de Nabor Teles da Rocha Júnior, uma das figuras políticas mais vigiadas do Acre durante o regime militar. Natural de Tarauacá, comerciante e seringalista, ele é descrito simultaneamente como um político sóbrio, inteligente e de linha moderada, mas também como um liberal intransigente em relação ao governo revolucionário.

    Ex-governador Nabor Júnior

    Essa etiqueta condensava, aos olhos do Estado, sua postura de oposição firme, porém institucional.
    Sua carreira acompanhou as transformações partidárias do país, iniciando na UDN entre 1947 e 1950, passando pelo PTB de 1962 a 1964, até encontrar no MDB, a partir de 1966, o espaço para consolidar sua liderança.

    O SNI registrou com minúcia sua ascensão como deputado estadual eleito em 1966 e reeleito em 1970, seguida pela chegada ao Congresso Nacional como deputado federal em 1974, com recondução em 1978.

    Nabor exerceu a liderança do partido na Assembleia Legislativa do Acre por mais de quatro anos, sendo reconhecido nos informes por sua larga experiência e grande prestígio, especialmente em Rio Branco, Sena Madureira e em sua cidade natal, onde mantinha bases familiares e econômicas sólidas.

    A avaliação do SNI sobre Nabor Júnior era marcada por uma tensão entre reconhecer seu perfil negociador e alertar para seus gestos de resistência. Se, por um lado, era classificado como democrata, sem registros de atividades subversivas e com avaliação positiva em proficiência profissional e conduta civil, por outro, sua atitude frente à Revolução de 1964 era explicitamente anotada como contrária.

    Alguns momentos de enfrentamento foram especialmente registrados, como sua participação em atos em Rio Branco em 1979, destacada por abordar temas de cunho contestatório ao governo federal e estadual.

    No mesmo ano, ao ser eleito Presidente da Comissão Executiva Regional do MDB, rejeitou por razões ideológicas a chapa encabeçada pelo ex-deputado anistiado Mário Maia, visto pelo próprio SNI como um comunista notório.

    Esse movimento reforçava perante os agentes sua inserção na ala moderada do partido, ainda que não alinhada ao regime.
    Apesar do perfil considerado equilibrado, o SNI mantinha uma anotação de probidade administrativa negativa vinculada a um episódio de 1976.

    De acordo com os documentos, Nabor Júnior teria recebido verbas de subvenções sociais e permitido que fossem utilizadas pelo MDB em propaganda eleitoral, prática então enquadrada como desvio de finalidade.

    Com a abertura política e a aproximação das eleições de 1982, o monitoramento se intensificou. Em outubro de 1980, informes da Agência de Manaus já descreviam que Mário Maia, em viagem pelos vales do Juruá e Purus, indicava Nabor como candidato do PMDB ao governo do Acre.

    Para os órgãos de informação, ele personificava a face respeitável e socialmente enraizada de uma oposição que, mesmo moderada em suas táticas, mantinha uma crítica estruturada ao que chamava de casuísmos do governo revolucionário.

    A trajetória de Nabor Júnior revela as nuances da política durante o regime militar. Longe de ser um revolucionário, ele era o exemplo do opositor legalista, cujo prestígio local e discurso democrático o tornavam, ao mesmo tempo, um interlocutor possível e um alvo de vigilância constante. Seu dossiê ilustra como o regime buscava catalogar e interpretar as figuras públicas que, mesmo dentro das regras do jogo, desafiavam sua narrativa e seu projeto de poder.