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    O martírio de Bolsonaro na eleição em que Deus pode ser decisivo

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    O ano da eleição presidencial começa com a seguinte fotografia, e estamos apenas no segundo dia de 2026: Jair Bolsonaro de volta à cela improvisada na PF de Brasília, sem direito a prisão domiciliar, apesar de ter passado por cirurgias delicadas.

    Como imagem adicional, tem-se o seu ex-assessor Filipe Martins colocado em prisão preventiva, porque teria feito uma pesquisa no Linkedin, em desobediência à ordem de não acessar rede social. A defesa do rapaz nega.

    Ambas as decisões são, naturalmente, do ministro Alexandre de Moraes, que as emitiu de Dubai.

    O contraste não poderia mais proveitoso aos bolsonaristas. Enquanto Jair padece enjaulado, o ministro inclemente aproveita os feriados no conhecido destino de democratas do mundo inteiro, ao lado da mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, que aumentou enormemente a sua fortuna pessoal por causa do contrato assombroso firmado com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, cujo escopo permanece um mistério.

    O álbum do martírio de Jair Bolsonaro vai ganhando, assim, mais recheio. O martírio não é da minha lavra, entenda bem, é da campanha bolsonarista.

    A martirização de Jair é trunfo de Flávio Bolsonaro, que começou sequestrando a pré-candidatura da direita em prol de uma anistia para o seu pai e que, agora, parece mesmo que vai concorrer com Lula.

    É trunfo porque o efeito que essa martirização terá sobre o eleitor pode ser maior do que o mensurado pelas pesquisas. A maioria dos brasileiros costuma responder que Jair Bolsonaro mereceu ser preso, mas é provável que boa parte deles não seja inabalável na convicção que afirma ter.

    Afinal de contas, no segredo da cabine eleitoral, Deus te vê; Alexandre de Moraes não.

    Explico: há forte apelo religioso na martirização do ex-presidente, e acredito que, mais do que em qualquer outra eleição ocorrida no Brasil, o Altíssimo terá papel importante na deste ano.

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    Afora algumas ovelhas desgarradas, os evangélicos deverão continuar fechados com o bolsonarismo. A novidade relativa, porém, é o trabalho que vem sendo feito pela direita junto aos católicos, em geral mais propensos a votar no PT.

    Os padres de esquerda, que rezam pela surrada Teologia da Libertação, como Júlio Lancellotti, o preferido dos jornalistas que foi sancionado pelo arcebispo de São Paulo, vêm perdendo espaço dentro da Igreja Católica, e não é de hoje. Eles não têm como entender que os fiéis ainda resistentes aos pastores evangélicos não querem revolução, muito menos a de valores e de costumes, mas diploma, carreira, consumo.

    Já as vertentes à direita, com os seus jovens padres midiáticos e organizadas em associações ultraconservadoras, compreenderam bem as aspirações e os medos desse público. Eles intensificaram o seu trabalho de catequese nos últimos anos, tomando espaço das pastorais esquerdistas.

    Talvez o resultado desse esforço seja colhido em outubro com uma maior adesão de católicos aos candidatos da direita, o suficiente para fazer diferença no cômputo geral.

    A operação ideológica em curso é a de identificar o martírio de Jair Bolsonaro com o do próprio Cristo. Soa herético, mas está valendo tudo desde 2018, quando a facada no candidato da direita reforçou o seu discurso de predestinado divino.

    O exemplo mais evidente da operação ideológica é o filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, intitulado Dark Horse (O Azarão), a ser lançado antes do início da campanha oficial. O atentado em Juiz de Fora é, obviamente, bastante explorado no roteiro.

    Ele será estrelado pelo ator americano Jim Caviezel, que interpretou Jesus no filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Caviezel é tido como perseguido pelo establishment de Hollywood por causa das suas posições conservadoras e religiosas. Para se ter ideia, o sujeito reza em aramaico na vida real. O bolsonarismo não poderia ter ator mais perfeito.

    O filme, do qual se lançou recentemente um teaser, conta com forte apoio promocional da Brasil Paralelo, cada vez mais alinhada com o conservadorismo católico.

    A produtora gaúcha, que nasceu para se contrapor ao proselitismo da esquerda nas universidades e na mídia, tornou-se poderoso instrumento de doutrinação da direita brasileira. Se você não vive em universo paralelo, sabe que ela realiza vídeos, documentários e cursos online sobre história, política e religião. A sua página no Instagram conta com 4,1 milhões de seguidores.

    Alvo do TSE em 2022, por “desordem informacional”, outra jabuticaba brasileira, a Brasil Paralelo entra neste 2026 vendendo assinaturas a 10 reais. Quer ir aonde o povo está.

    Em todos os segmentos da sociedade, a disputa eleitoral passa pela guerra cultural — e religiosa. A direita parece levar vantagem nesse aspecto, e não apenas pela verdade da sua fé. Ela pode vender um mártir, enquanto a esquerda se associa ao carrasco. Bem-vindo a 2026.