“Contar é possível. Descrever, talvez. Mas viver… Viver é algo extraordinário, mágico e eterno para quem ousa chegar até lá”!
Localizado nos extremos do município de Marechal Thaumaturgo, nas proximidades da divisa com Jordão e o território do Peru, o Santuário de Nova Olinda se ergue como um refúgio de fé no coração mais profundo da Amazônia. Dedicado a São Francisco de Assis, é um lugar que acolhe peregrinos de todos os municípios do Vale do Juruá, de diversas cidades acreanas e de toda a Região Norte.

Chegar ao santuário sagrado não é para qualquer um. É para quem carrega coragem no peito, disposição no corpo, vigor nas pernas, força de vontade na alma — e, acima de tudo, fé inabalável no coração.
Os caminhos que conduzem a Nova Olinda são desafiadores e exigem entrega total. São horas subindo o Rio Juruá — mais de três horas de viagem — até alcançar um de seus afluentes mais temidos e respeitados: o Rio Caipora.
Ali começa a verdadeira prova. Águas que, dependendo da época do ano, mal alcançam alguns centímetros de profundidade — ou sobem metros, invadindo a floresta — obrigam a arrastar a canoa sobre pedras e troncos. Salões de pedra desafiam o equilíbrio.
Cachoeiras de até três metros exigem esforço coletivo para erguer embarcações contra a força da natureza. Machado e terçado abrem passagem onde o caminho ainda não existe.
À noite, o acampamento no meio da floresta é abrigo e reflexão. É tempo de descansar o corpo, alimentar-se, ouvir o cantar dos pássaros e o som dos animais silvestres. É quando o silêncio da mata fala mais alto, e cada peregrino percebe que não está apenas atravessando rios e trilhas — está atravessando a si mesmo.
Porque os caminhos que levam a Nova Olinda não transformam apenas o trajeto. Transformam o coração.
A Trilha – 06 a 08 Horas de Caminhada
Passados os desafios da viagem de canoa pelos Rios Juruá e Caipora, é hora de colocar os pés na terra e o coração na prova.
Após subir o Rio Juruá e vencer as dificuldades do Caipora, deixamos as embarcações para trás. Mesmo exaustos da travessia, vestimos a coragem, apertamos os calçados e seguimos pela trilha — cerca de seis e oito horas de caminhada, ida e volta, sob o calor, a umidade e o silêncio profundo da floresta.
A trilha não concede facilidades. Pontes rústicas sobre igarapés. Ladeiras íngremes que testam o fôlego. Animais silvestres que observam à distância. Troncos caídos que interrompem o caminho. Cada obstáculo é um chamado à perseverança. Cada passo é um exercício de fé. Mas a floresta, ainda quase intocada pelo homem, também revela cenários que parecem pintados pelo próprio Criador. Entre eles, um lugar que nos marcou para sempre: “Terra Rica”.
Ali, o fôlego se perde duas vezes — pelo esforço de subir metros de altura e pela beleza extraordinária que se revela diante dos olhos. Um leito de terra com cerca de duzentos metros de extensão forma um corredor natural composto por dezenas gigantescos Aguanos, árvores nobres que se erguem como colunas sagradas sustentando o céu amazônico.
É um lugar que transpira paz. Silêncio que abraça. Vento que renova. Energia que restaura. Naquele corredor de gigantes, o cansaço se transforma em contemplação. O suor vira gratidão. A caminhada ganha novo sentido. E é dessa força que renascemos para dar os últimos passos até o místico Santuário das Almas de Nova Olinda, dedicado a São Francisco de Assis, nos extremos de Marechal Thaumaturgo.
Ali, depois de rios vencidos e trilhas superadas, o coração entende: a jornada nunca foi apenas física. Foi espiritual. Porque chegar a Nova Olinda é atravessar limites, enfrentar a natureza e, no final, encontrar-se com Deus no silêncio sagrado da floresta.
O Santuário – A Casa dos Milagres, o Tumulo, as Cruzes, o Silencio e a Conexão Com o Sagrado.
Chegando ao Santuário das Almas de Nova Olinda, dedicado a São Francisco de Assis, nos confins de Marechal Thaumaturgo, a paisagem muda — e a alma também.
Avista-se duas casas – uma de hospedagem e outra, a casa dos milagres, aonde os peregrinos deixam suas oferendas. Três cruzes fincadas no chão. E, às margens do rio, uma sepultura solitária.
Um silêncio estarrecedor paira no ar. Não é um silêncio vazio — é presença. É como se o próprio tempo ali caminhasse mais devagar. A conexão acontece de forma automática. Já não é a razão que conduz as palavras, mas o coração. Os pensamentos se transformam em oração antes mesmo de serem pronunciados.
Primeiro, visita-se a “Casa dos Milagres”. Um espaço sagrado onde a fé ganha forma concreta. Ali, os devotos deixam suas oferendas em gratidão pelas graças alcançadas: roupas, cordões e anéis de ouro, dinheiro, terços, artesanatos, fotografias, caixas de fogos, membros de madeira representando braços, pernas e troncos curados — sinais visíveis de promessas cumpridas e milagres testemunhados. Cada objeto carrega uma história. Cada oferta, uma lágrima derramada. Cada gesto, um agradecimento silencioso.
Ao lado da casa, à beira do rio, encontra-se o túmulo — a sepultura de dois irmãos. Lugar santo. Solo de reverência. É ali que velas são acesas, que roupas, cabelos, cordões e outras ofertas são depositadas. A chama tremula das velas parece conversar com o vento, como se levasse aos céus as súplicas e gratidões.
Nesse momento, as palavras cessam. O silêncio se aprofunda. As únicas vozes que se ouvem são as do terço sendo rezado, cadenciado, respeitoso. O lugar não permite conversas altas. Não permite distrações. A conversa acontece no íntimo — no pensamento, no coração, em diálogo com Deus Pai e com as Almas de Nova Olinda.
Ali, entende-se que a peregrinação não termina na chegada. Ela culmina no encontro. Um encontro com o sagrado, com a fé ancestral do povo amazônico e com a presença divina que se manifesta na simplicidade, no silêncio e na força invisível que toca cada peregrino que ousa chegar até ali.
O Banho – Lavar o Corpo e a Alma.
A despedida do Santuário das Almas de Nova Olinda é tão profunda quanto a chegada. Ela acontece às margens do rio conhecido como São Luiz ou Machadim — um curso d’água simples aos olhos, mas sagrado ao coração. Ali, nas águas frias e correntes da floresta, chega o momento do último gesto da peregrinação: o banho. É hora de lavar o corpo… E também a alma.
A água escorre como se levasse embora o cansaço da trilha, o peso das ladeiras, as dores guardadas e os fardos invisíveis que cada um carrega na vida. É tempo de agradecer pelas graças recebidas, de renovar a fé e de buscar forças para enfrentar os desafios que aguardam além da mata.
A sensação é de leveza. Como se ali, naquele lugar sagrado, algo tivesse sido deixado para trás — o peso, o medo, as inquietações. O espírito fica leve, em paz, profundamente grato. É como se o coração aprendesse um novo ritmo, mais sereno, mais verdadeiro. Como se cada batida dissesse: valeu a pena.
O corpo, antes cansado pela caminhada, pelas os inúmeros desafios do rio Caipora agora parece flutuar. A exaustão se transforma em plenitude. Já não há pressa, ruído, peso… O espírito é somente paz. Uma paz que não se explica — se sente. Uma paz que não se leva apenas na memória — se carrega na alma para sempre. Se acontece com todos, não sei. Mas para quem sente, é real. É transformação. É renascimento.
As roupas usadas no banho ficam ali, depositadas no túmulo como oferenda — um gesto simples, mas carregado de significado. É como um batismo simbólico. Uma entrega. Um sinal de que algo antigo ficou nas águas e uma nova vida começa a partir dali.
Sai-se diferente de como se entrou. Com fé renovada. Com forças restauradas. Com o coração mais próximo de Deus.
E assim, entre o silêncio da floresta e o som suave das águas, encerra-se a peregrinação — não como fim, mas como recomeço.
A História do Santuário
Segundo relatos dos moradores mais antigos do Rio Caipora e comunidades vizinhas, o Santuário de Nova Olinda carrega uma história marcada por dor, fé e milagre.
Conta-se que três irmãos vindos do Ceará chegaram à região para abrir estrada e cortar seringa. Durante o trabalho na mata, foram surpreendidos por indígenas não civilizados. O ataque foi repentino e violento: dois irmãos foram mortos e o terceiro ficou gravemente ferido.
Ferido e perseguido, o sobrevivente encontrou forças para se esconder “enterrando-se” na areia de uma praia às margens de um igarapé. Ali, entre o medo e a esperança, fez uma promessa a São Francisco de Assis, pedindo proteção. Segundo a tradição oral, os perseguidores passaram pelo local, mas não conseguiram encontrá-lo.
Após desistirem da busca, o irmão sobrevivente saiu debilitado pela mata até alcançar o seringal Restauração — hoje uma vila — onde pediu ajuda para sepultar os dois irmãos. O patrão mobilizou os seringueiros, e mais de uma semana depois retornaram ao local do ataque.
Ao chegarem, depararam-se com algo que marcou para sempre a memória da região: os corpos estavam em perfeita conservação, como se a morte tivesse ocorrido naquele mesmo instante. Para muitos, ali estava o sinal do milagre.
Os dois irmãos foram sepultados juntos, em um único túmulo às margens do igarapé São Luís (Machadim), nos extremos do município de Marechal Thaumaturgo. A partir desse acontecimento, o lugar passou a ser considerado sagrado pelos fiéis.
Desde então, o Santuário de Nova Olinda tornou-se um espaço de devoção e peregrinação. Até hoje, junto à sepultura, pessoas rezam terços, acendem velas e deixam oferendas como forma de agradecimento pelas graças alcançadas em suas próprias vidas.
Para os que creem, as águas do Rio São Luís são também milagrosas. O banho no rio simboliza um batismo — um gesto de purificação e renovação espiritual. Ali, segundo a fé popular, deixam-se as dores, os males e os fardos invisíveis que pesam sobre o corpo e a alma.
Assim, entre floresta, rio e memória, o Santuário de Nova Olinda permanece vivo na tradição do povo amazônico — um lugar onde história e fé se entrelaçam, e onde o milagre continua sendo anunciado na simplicidade da oração.
Uma Experiência Para a Vida
A viagem ao Santuário de Nova Olinda, nos confins de Marechal Thaumaturgo, é daquelas experiências que não cabem apenas na memória — elas se instalam na alma.
É vivência para a vida inteira. Daquelas que um dia serão contadas aos filhos, aos netos, aos bisnetos, com os olhos brilhando e a voz embargada. Há algo de profundamente humano e sagrado em cada detalhe da jornada: a comida farta preparada às margens dos rios, temperada com fumaça de fogueira e gratidão; os acampamentos erguidos no meio da floresta, sob um céu recortado pelas copas das árvores; as pescarias ao entardecer; as conversas antes de dormir, cheias de histórias, risos e reflexões; o café quente na madrugada fria ou no fim da tarde, quando o acampamento finalmente estava pronto.
Há os igarapés cristalinos, os desafios do caminho, as pedras, as praias de areia fina, os troncos atravessados, os obstáculos que exigem união. Há lágrimas silenciosas. Há gargalhadas espontâneas. Há cansaço e superação caminhando lado a lado. São momentos únicos. Especiais. Inesquecíveis.
Trilhar os desafiadores caminhos que levam ao Santuário de Nova Olinda — por águas, terra, areia, pedras e troncos — é mais que uma peregrinação física. É uma travessia interior. É vencer limites do corpo para fortalecer o espírito.
E, ao final, percebe-se que a experiência é quase impossível de ser traduzida em palavras. Talvez porque o encanto desse lugar sagrado — marcado pela fé em São Francisco de Assis — não se explique: se sente.
Contar é possível. Descrever, talvez. Mas viver… Viver é algo extraordinário, mágico e eterno para quem ousa chegar até lá.
**Cleudon França – é secretário municipal de cultura de Marechal Thaumaturgo
Photos: Antônio Savio Batista e Cleudon França.
Para ver mais fotos e conhecer mais sobre o local, acesse o link https://thaumaturgonews.blogspot.com/2026/02/os-caminhos-que-levam-ao-santuario-de.html?m=1

