Botafogo, Cruzeiro, Goiás e Operário-PR comunicaram oficialmente aos investidores do Futebol Forte União (FFU) que pretendem deixar o bloco econômico. As notificações foram encaminhadas poucas horas depois de o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) conceder uma medida preventiva que impede a Sports Media Participações S.A. de dificultar a saída de clubes que desejem se desligar do FFU.
A decisão do Cade teve como base um pedido apresentado pelo CSA, de Alagoas, que contestou as cláusulas estabelecidas pela Sports Media para a saída de integrantes do condomínio do FFU.
Segundo o site Máquina do Esporte, que teve acesso às notificações enviadas pelos clubes à Sports Media, ao Condomínio Forte União e ao FFU. Embora os documentos tenham conteúdo semelhante, há diferenças pontuais entre eles.
Botafogo, Cruzeiro e Goiás estabeleceram prazo de 10 dias para a efetivação do desligamento do Condomínio Forte União. Os três, porém, condicionam uma eventual permanência ao cumprimento de três exigências por parte do FFU e dos investidores.
A primeira delas é a revisão das cláusulas que disciplinam a saída dos clubes do condomínio. Também cobram esclarecimentos sobre a forma como o FFU pretende atender às determinações impostas pelo Cade na decisão que autorizou o CSA a deixar o bloco. Por fim, exigem garantias de que os clubes poderão se desligar livremente da estrutura no futuro.
Operário quer recomprar direitos
Primeiro clube a formalizar a notificação após a decisão do Cade, o Operário adotou uma postura mais firme ao informar que pretende recomprar os direitos de mídia anteriormente transferidos à Sports Media.
Para isso, o clube solicita que a empresa apresente “o valor de recompra apurado na forma do Contrato, acompanhado das respectivas memórias de cálculo, bem como a relação dos contratos de comercialização vigentes que incluam direitos do Clube, com indicação de partes, objeto, prazo, valores e parcela atribuível ao Clube”.
Na notificação, o Operário também questiona a participação da LiveMode, proprietária da CazéTV, na comercialização dos direitos de mídia dos clubes vinculados ao FFU.
Segundo o documento, existe “conflito de interesse na escolha pelo Investidor da agência Livemode para comercialização dos direitos, que hoje atua como sócia dos direitos de transmissão da LFU, comercializadora e transmissora, via CazéTV”.
O clube paranaense ainda critica o nível de controle exercido pela Sports Media Participações sobre o bloco econômico. Conforme a notificação, a empresa concentra poder de forma excessiva e mantém controle “sobre os fluxos financeiros do bloco”, situação que, na avaliação do Operário, “retira dos clubes a previsibilidade e a autonomia indispensáveis à sua gestão, fazendo do repasse dos recursos um instrumento de subordinação dos clubes”.
Investidora contesta entendimento do Cade
Antes mesmo de receber as notificações dos clubes, a Sports Media havia divulgado uma nota em que questiona a decisão do Cade. A empresa classificou a medida como “sem efeitos práticos relevantes, fruto de entendimento incorreto sobre os fatos”.
No comunicado, a Sports Media Entertainment afirma ter recebido com surpresa o despacho da Superintendência-Geral do Cade no Procedimento nº 08700.003201/2026-21, ressaltando que a decisão foi tomada antes do encerramento do prazo concedido para apresentação de informações e em fase ainda preparatória do processo.
A empresa acrescenta que sequer havia sido formalmente intimada da decisão e sustenta que a medida não produz efeitos práticos relevantes.
A nota destaca ainda que o próprio Cade reconhece que os direitos patrimoniais e as obrigações financeiras previstos nos contratos permanecem válidos e plenamente exigíveis, preservando os direitos adquiridos pela companhia no acordo de investimento.
Por fim, a Sports Media Entertainment afirma confiar na atuação do Cade e diz acreditar que, após a apresentação de esclarecimentos e a análise completa dos fatos, a autarquia revisará a decisão para refletir, segundo a empresa, os aspectos jurídicos e concorrenciais envolvidos.
Divisão fortalece debate sobre liga única
O novo rompimento entre clubes e um dos blocos econômicos do futebol brasileiro amplia as discussões sobre a criação de uma liga única, com participação relevante da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
O movimento ocorre em meio a um processo iniciado no começo deste ano, quando a CBF fechou acordo diretamente com Náutico e São Bernardo para os direitos de transmissão da Série B do Campeonato Brasileiro, aumentando o distanciamento entre os clubes e seus respectivos blocos econômicos.
Em janeiro, dirigentes viajaram à Europa para conhecer os modelos de gestão da Bundesliga, LaLiga e Premier League. Em abril, a CBF promoveu, no Rio de Janeiro, um encontro para discutir a formação de uma liga unificada, seguido de uma nova reunião realizada no mês passado.
Durante a Copa do Mundo, dirigentes de clubes também estiveram em Orlando, nos Estados Unidos, onde conheceram a estrutura da Major League Soccer (MLS) e de outras ligas esportivas norte-americanas.

