O brasileirinho anda se esbofeteando por qualquer coisa. Briga por política, por imposto, por Supremo, por Congresso, por vacina, por churrasco, por técnico de futebol e até por quem bota jambu no arroz. Mas aí começou a Copa do Mundo. E, por alguns minutos, o Brasil volta a ser Brasil.
Não aquele Brasil de relatórios, planilhas, déficits, juros altos, CPI, Vorcaro, delação, canetada e discursos inflamados por políticos que um dia nos representaram. Falo do Brasil de camisa amarela no varal, bandeirinha no boteco, televisão berrando na sala, vizinho invadindo a casa sem pedir licença e cachorro desmaiando com o grito de gol para não ouvir o foguetão.
A Copa talvez seja o último lugar “adonde” os brasileirinhos ainda se encontram e se unem.
Na Copa, o entregador de pizza é recebido e torce com o banqueiro. O motorista de aplicativo comenta escalação com o advogado. A manicure vira comentarista tática. O aposentado lembra de Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldos e Rivaldo. O menino de 16 anos quer saber se Vinicius Jr. vai decidir. O senhor de 75 quer entender por que ninguém mais treina para cruzar como o Garrincha fazia antigamente. O drible do Mané, era a sua fantasia de Chaplin. O seu forte era o passe milimétrico para Vavá e Pelé nos encherem de alegria.
E o Brasil chega com essa novidade histórica: um treinador estrangeiro no comando, Carlo Ancelotti, italiano de currículo respeitado e cara de quem já viu todas as tempestades possíveis no futebol. Para um país que sempre se achou dono da bola, aceitar um “Gringo” no banco é quase terapia coletiva. É como admitir que até o samba precisa, de vez em quando, ouvir um Maestro Zubin Mehta usando a sua batuta para dar ritmo para a ala de tamborins da Mangueira.
Mas a Seleção não carrega apenas tática. Carrega uma imensa saudade.
Saudade de um Brasil mais leve. De um país que sabia festejar sem pedir certidão ideológica. Sem falar em PT ou PL. De uma tarde em que o comércio fechava, a rua parava e o povo se juntava sem perguntar em quem o outro votou. A Copa opera esse milagre: suspende a guerra “chinfrin” por noventa minutos.
Enquanto Brasília ferve, a bola rola. Enquanto o Congresso inventa capítulos novos, o brasileiro calcula a tabela. Enquanto os poderosos discutem poder, o povo discute os laterais. E talvez essa seja a beleza mais profunda da Copa: ela devolve ao brasileiro comum o direito de sentir alegria pública.
Não é pouca coisa.
Porque Copa também é economia. É bar cheio, som ruim, garçom correndo, churrasquinhos “degatto” vendendo, juntamente com tambaquis e bodós na mesma brasa, motoboy entregando, loja de camisa faturando, ambulante sorrindo, telão montado, cerveja gelada, refrigerante, pastel, bandeira, a terrível Vuvuzela gritando e muita esperança no ar. Para muita gente, cada jogo da Seleção é também um dia de muito trabalho e hora extra. E quando o Brasil vai longe, o país inteiro trabalha e ganha, um pouco mais feliz.
Neymar, gostem ou não, continua sendo o brasileiro mais reconhecido do futebol mundial. É personagem, símbolo, novela e manchete. Pode dividir opiniões, mas ainda atrai os olhos do planeta. E Copa do Mundo vive disso: talento, drama, redenção e aquele instante em que um toque de bola muda o humor de uma nação inteira.
O Brasil precisa da Seleção não apenas para ganhar. Precisa para lembrar que ainda sabe torcer junto.
A política separa. A economia aperta. A internet envenena. O noticiário cansa. Mas a chicosa Copa do Mundo, ainda consegue fazer o país respirar no mesmo compasso. Quando a bola bate nas redes, ninguém pergunta se o gol é de direita, de esquerda ou de cabeça. Gol é gol. E os brasileirinhos, quando gritam gol, voltam a ter infância.
Talvez seja por isso que a Copa incomode os pessimistas profissionais. Ela prova que o Brasil ainda possui reserva emocional. Ainda existe um povo capaz de rir, abraçar, sofrer, cantar e acreditar. Mesmo quebrado, desconfiado e cansado, o brasileiro ainda olha para a camisa da Seleção, pensa e grita:
– Vai que dá, KARÁ…!
Seguiremos entre o boleto e o bandeirão. Entre a terrível Brasília e o boteco. Entre o inescrupuloso Congresso fervente e a gorduchinha rolando. Entre a crise de hoje e o pacificador jogo de amanhã.
A Copa é o último lugar onde os brasileirinhos ainda se unem. Estivemos unidos na quarta-feira, jogando contra os escoceses e torcendo pelo Menino Neymar. Estaremos irmanados, amanhã, contra os espetaculares samurais.
A volta do Neymar é o tira-sono daqueles que serão as nossas próximas vítimas…os japoneses. Coitados! Adoro os nossos samurais mas a hora deles chegou e serão degustados, no Tucupi, como se deliciaram conosco, recentemente, nos seus melhores sashimis.
E, com aquele Deus brasileiro ajudando, que tudo dure até a final dos sonhos.
Roberto Caminha Filho, economista, brasileiro e craque, é o próprio Neymar até a Taça chegar ao Brasil.

