Todo torcedor tem um jogo ou um gol histórico que parece ter ficado congelado na memória. Não importa se foi assistindo à seleção, ao clube do coração ou uma final única. Muitos conseguem lembrar exatamente onde estavam, quem estava ao lado e até o que sentiram naquele instante. Mas o que faz essas lembranças permanecerem tão vivas por tantos anos?
Segundo o psicólogo Leandro Freitas Oliveira, professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), a emoção é um dos fatores mais importantes para que uma lembrança seja consolidada.
“Eventos de grande carga emocional acabam tendo prioridade no cérebro. Assim, com quem a pessoa estava, onde estava e o que aconteceu naquele momento passam a ser registrados de forma muito mais intensa do que acontecimentos rotineiros”, explica.
O neurocientista Tiago Bortolini, pesquisador apoiado pelo IDOR Ciência Pioneira, afirma que essas lembranças costumam surgir quando três elementos aparecem ao mesmo tempo: surpresa, emoção intensa e significado pessoal.
“Para um torcedor, um gol histórico não é apenas um evento esportivo. Ele está ligado à identidade, ao pertencimento, à história familiar, à cidade e às rivalidades. Por isso, a lembrança costuma vir acompanhada de detalhes como ‘estava na sala com meu pai’ ou ‘assisti ao jogo em um bar com amigos’”, diz o especialista.
O cérebro entra em estado de alerta
Além da emoção, o próprio organismo ajuda a fortalecer esse tipo de lembrança. Oliveira explica que momentos marcantes estimulam a liberação de substâncias como adrenalina e noradrenalina, que aumentam o estado de alerta e favorecem a comunicação entre áreas do cérebro responsáveis pelas emoções e pela memória, como a amígdala e o hipocampo.
“Esse mecanismo fortalece a consolidação da lembrança e faz com que ela permaneça por muito mais tempo”, aponta.
De acordo com Bortolini, durante um lance decisivo, o torcedor acompanha cada movimento com muita expectativa. Essa atenção intensa faz com que diferentes sistemas do cérebro trabalhem ao mesmo tempo.
“Um gol decisivo envolve percepção visual, sons, emoções, respostas do corpo, linguagem, narrativa e identidade social. Quanto mais sistemas participam da experiência, mais rica tende a ser a memória”, diz.
Por que lembramos do jogo e esquecemos dias comuns?
Enquanto um gol histórico costuma permanecer vivo por décadas, muitos acontecimentos do cotidiano desaparecem da memória poucos dias depois. Isso ocorre porque experiências repetitivas apresentam pouca novidade e baixa carga emocional.
“Um almoço em um dia comum ou um caminho rotineiro dificilmente recebem prioridade do cérebro. Já um gol decisivo reúne surpresa, emoção, relevância social e expectativa. Ele acaba se transformando em um marco na história daquele torcedor”, explica Bortolini.
Outro fator ajuda essas lembranças a permanecerem vivas. Depois da partida, o lance costuma ser revisto inúmeras vezes, comentado entre amigos, compartilhado nas redes sociais e relembrado em conversas familiares.
“Cada vez que essa memória é reativada, alguns elementos podem até ser reconstruídos, mas ela também se fortalece”, afirma o pesquisador.
Segundo Bortolini, o futebol tem uma característica que potencializa esse processo. “O torcedor não sente apenas que comemorou um gol. Ele sente que ‘nós comemoramos’. Esse sentimento de pertencimento faz com que a memória deixe de ser apenas individual e passe a integrar uma história compartilhada por uma comunidade inteira”, ensina.

