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Humanos como não-animais (por Eduardo Fernandez Silva)

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Humanos como não-animais (por Eduardo Fernandez Silva)

Plenamente cientes de sermos mamíferos, nós humanos a toda hora nos diferenciamos dos outros animais. Esse viés, cuja origem se encontra principalmente em algumas religiões, é a cada dia mais perigoso.

Veja-se a primeira frase de artigo publicado na excelente revista “Knowable”: “O calor excessivo afeta os humanos e os animais”. Se somos animais, não seria suficiente e mais correto dizer que muito calor afeta todos os animais? Apesar dessa falha, as informações relatadas são de enorme atualidade e importância.

São inúmeras pesquisas demonstrando como o elevado calor afeta animais. Já no início do século XIX o estatístico belga Adolphe Quetelet notou que havia um pico de crimes violentos na França durante o verão. Pesquisas posteriores mostraram relação entre forte calor e aumento de violência armada, de hospitalizações por problemas mentais, suicídios e jogos de azar. Notou-se também que os cães tendem a morder humanos com mais frequência em dias mais quentes, mesmo descontando o fato de os humanos saírem mais às ruas com seus bichinhos em dias mais aquecidos. A dúvida persistiu sobre se os cães atacavam mais por estarem desequilibrados, ou se os humanos, também fora do prumo em razão da quentura, irritavam mais seus melhores amigos!

Na canícula, os animais humanos têm maior dificuldade de tomar decisões e sua memória se degrada. Em escolas sem climatização, o desempenho dos alunos cai. Diversas espécies, inclusive peixes e o orgulhoso autodenominado sapiens, se tornam mais agressivas em ondas de calor. Um estudo chinês de 2025 mostrou que até serpentes e gatos tornaram-se agressivos em condições de canícula. Apesar de conviver com o general inverno, terá o Putin atacado a Ucrânia em razão de um desequilíbrio mental decorrente do aquecimento? E o genocida Netanyahu, promove a matança por motivos semelhantes? E Trump, que suponho viver 95% do tempo em ambientes com temperatura controlada, ataca por problemas mentais de igual origem?

Afora esses potentados, também abelhas e outros insetos, aparentemente tão frágeis, são afetados e acabam por revelarem-se poderosos. Sem mecanismos de ajuste da temperatura do corpo, as produtoras de mel ficam desorientadas sob forte calor, seus cérebros superaquecem e, para resfriá-los, borrifam água em suas cabeças. Mesmo assim, perdem o rumo e desconhecem as flores certas para colher o pólen. O poder das abelhas se revela porque, sem elas, sabemos que não haverá humanos, em razão da queda na polinização das culturas. E o Brasil, grande produtor agrícola, como ficará, com sua população mais agressiva e carente de comida?

Amanda Ridley, pesquisadora do tema, aponta que com ondas de calor mais fortes e longas, a capacidade mental das espécies – sem separar a humana – será reduzida e diz que “a capacidade de adaptar seu comportamento é ainda mais essencial num clima que muda”.

Humanos com menor capacidade mental, mais agressivos, resistentes a mudar comportamentos e sofrendo a concorrência da inteligência artificial.

Qual futuro legaremos a nossos filhos e netos?

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