O uso de paracetamol durante a gravidez voltou ao centro do debate nos últimos anos após estudos sugerirem uma possível relação entre o princípio ativo do medicamento e um maior risco de autismo ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) nas crianças.
Agora, uma das maiores pesquisas já realizadas sobre o tema traz um resultado tranquilizador. Publicado na última segunda-feira (29/6) na revista científica JAMA Internal Medicine, o estudo analisou registros de saúde de Hong Kong entre 2001 e 2023 e não encontrou evidências de que o uso de paracetamol durante a gestação aumente o risco de autismo ou TDAH quando são levados em conta fatores familiares e genéticos que poderiam influenciar os resultados.
Mais de 20 anos de análise
A equipe de cientistas avaliou inicialmente 708.020 pares de mães e filhos, dos quais 43,3% haviam sido expostos ao paracetamol durante a gestação. O grande diferencial da pesquisa foi comparar irmãos da mesma família.
Em uma gravidez, a mãe havia utilizado paracetamol; em outra, não. Como irmãos compartilham boa parte da carga genética e ambiente familiar, a estratégia reduz a influência de fatores que podem distorcer os resultados em estudos tradicionais.
Após aplicar os critérios do estudo, os pesquisadores analisaram 124.333 crianças para investigar autismo e 97.285 para TDAH. O acompanhamento foi de, no mínimo, dois anos para autismo e cinco anos para TDAH.
Resultados permaneceram os mesmos em todas as análises
Quando compararam irmãos, os cientistas não encontraram aumento no risco de autismo nem de TDAH associado ao uso de paracetamol durante a gravidez.
A conclusão também permaneceu igual quando a equipe avaliou o trimestre da gestação em que o medicamento foi usado, a dose acumulada e a frequência de utilização, classificada como esporádica, intermitente ou persistente.
Segundo os autores, a análise reforça que associações observadas em pesquisas anteriores provavelmente foram influenciadas por características familiares compartilhadas, e não pelo medicamento em si.
Os pesquisadores destacam que os resultados não significam que medicamentos possam ser usados sem orientação médica. A recomendação continua sendo utilizar paracetamol apenas quando houver indicação clínica e na menor dose eficaz pelo menor tempo necessário.
Ao mesmo tempo, o trabalho ajuda a reduzir uma preocupação frequente entre gestantes. Dor e febre também precisam ser tratadas durante a gravidez, e deixar esses sintomas sem controle pode trazer riscos para a mãe e para o bebê.

