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A China dragou 65 milhões de metros cúbicos de areia para fazer nascer do mar uma cidade de 269 hectares, o equivalente a 600 campos de futebol, na costa do Sri Lanka

A China dragou 65 milhões de metros cúbicos de areia para fazer nascer do mar uma cidade de 269 hectares, o equivalente a 600 campos de futebol, na costa do Sri Lanka

11 min de leitura

A China dragou 65 milhões de metros cúbicos de areia para fazer nascer do mar uma cidade de 269 hectares, o equivalente a 600 campos de futebol, na costa do Sri Lanka

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 23/07/2026 às 21:36

Atualizado em 23/07/2026 às 21:44

Construção

Areia dragada do Oceano Índico virou uma cidade de 269 hectares no Sri Lanka. Veja de onde saíram os 65 milhões de m³ e o que já foi construído ali.

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A areia veio de dois sítios de dragagem que somam 100 quilômetros quadrados de mar, entre Wattala e Negombo, e foi retirada por quatro dragas capazes de mover 250 mil metros cúbicos por dia. O aterro terminou em janeiro de 2019 e o terreno virou zona econômica especial em 2021.

A cidade se chama Port City Colombo e ela não existia. O chão em que está sendo construída foi fabricado com 65 milhões de metros cúbicos de areia retirados do fundo do Oceano Índico, formando 269 hectares de terra nova coladinhos ao centro financeiro da capital do Sri Lanka. A comparação usada na divulgação do projeto é de 600 campos de futebol.

Quem executou o aterro foi a China Harbour Engineering Company, subsidiária da estatal chinesa China Communications Construction Company. A obra foi lançada em setembro de 2014, em cerimônia com o então presidente cingalês Mahinda Rajapaksa e o presidente chinês Xi Jinping, e a etapa de recuperação de terras foi concluída em janeiro de 2019.

De onde saiu toda essa areia

Areia dragada do Oceano Índico virou uma cidade de 269 hectares no Sri Lanka. Veja de onde saíram os 65 milhões de m³ e o que já foi construído ali.

A primeira pergunta que uma obra dessas levanta é de onde vem o material, e ela tem resposta documentada. O estudo de impacto ambiental do projeto indica extração em dois sítios localizados no mar, na faixa que vai de Dambagamawatta, em Wattala, até Basiyawatta, em Negombo, ao norte de Colombo.

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Os números da área de dragagem impressionam tanto quanto os da cidade. Os dois sítios somam cerca de 100 quilômetros quadrados de fundo marinho, sendo 46 quilômetros quadrados no primeiro e 54 no segundo. É uma área de mar maior que muitos municípios brasileiros, revirada para produzir o chão de uma cidade.

A escolha desses pontos não foi aleatória. Segundo o levantamento ambiental, as áreas selecionadas têm fundo geralmente plano e arenoso, com habitat de fundo duro, e não apresentavam bancos de gramas marinhas nem recifes de coral, ecossistemas que atraem peixes. É o tipo de critério que reduz o dano, ainda que não o elimine.

Quatro dragas movendo 250 mil metros cúbicos por dia

A escala do equipamento explica como se move tanta areia em tão pouco tempo. A empresa responsável mobilizou quatro grandes dragas de última geração para a obra, máquinas totalmente automáticas capazes de escavar até 250 mil metros cúbicos por dia.

Existe uma comparação divulgada que dá dimensão a esse ritmo. Duzentos e cinquenta mil metros cúbicos por dia é volume suficiente para enterrar um campo de futebol padrão sob 35 metros de areia. Todos os dias, enquanto a obra durou.

Fazendo a conta com os números divulgados, os 65 milhões de metros cúbicos totais equivalem a cerca de 260 dias de operação naquele ritmo máximo. Na prática, obras marítimas não operam no pico o tempo todo, porque dependem de clima, manutenção e logística, e o aterro se estendeu por vários anos, entre 2014 e o início de 2019.

O quebra-mar que impede a areia de voltar para o mar

Fabricar terra é apenas metade do problema. A outra metade é impedir que o oceano leve tudo de volta, e para isso foi construída uma estrutura de proteção ao longo do perímetro.

Os trabalhadores ergueram um quebra-mar de 3.245 metros de extensão para proteger a cidade nova. Sem essa barreira, a ação das ondas e das correntes desfaria em poucos anos o que as dragas levaram anos para acumular, porque areia solta é justamente o material mais fácil de o mar recuperar.

Que esse risco é real, a própria obra provou. Durante a construção, uma tempestade levou dezenas de milhares de metros cúbicos de areia das bordas do canteiro de volta para o mar, atrasando o cronograma. Foi um lembrete prático de que aterro inacabado é terreno emprestado, não terreno conquistado.

O que os 269 hectares viraram no papel

Areia dragada do Oceano Índico virou uma cidade de 269 hectares no Sri Lanka. Veja de onde saíram os 65 milhões de m³ e o que já foi construído ali.

Terminado o aterro, o terreno foi loteado, e a divisão mostra o desenho urbano pretendido. Os 269 hectares foram repartidos em 74 lotes de terra desenvolvível, somando 179 hectares, com os 91 hectares restantes destinados a espaços públicos.

Esse último número corresponde a cerca de um terço da área total recuperada, e inclui uma praia de 2 quilômetros, 27 hectares de parques, além de ruas e vias. É uma proporção alta de área pública para um empreendimento privado, e faz parte do argumento de venda do projeto.

O plano diretor divide a cidade em cinco distritos: Distrito Financeiro, Central Park Living, Island Living, Marina e Ilha Internacional. A previsão é de mais de 6,4 milhões de metros quadrados de área construída quando tudo estiver pronto, distribuídos entre residências, saúde, educação, entretenimento, hotéis, restaurantes, varejo e complexos comerciais.

Vale reparar na proporção. Serão mais de 6,4 milhões de metros quadrados construídos sobre 2,69 milhões de metros quadrados de areia depositada, o que só é possível verticalizando pesado. É a lógica de qualquer terreno caro: quanto mais custou fabricar o chão, mais alto é preciso subir para a conta fechar.

Como a terra fabricada foi dividida entre as partes

Este é o ponto que gerou mais discussão política no Sri Lanka e que a divulgação técnica costuma tratar de forma protocolar. O empreendimento é uma parceria público-privada, e a terra criada não ficou toda com o país.

Pelo arranjo firmado, a empresa chinesa responsável pela obra ficou com 116 hectares, cerca de 43% da área recuperada, com o restante permanecendo com o lado cingalês. O investimento inicial declarado da empresa no aterro e na infraestrutura de base é de aproximadamente US$ 1,4 bilhão.

A lógica do negócio é essa: em vez de o governo pagar pela obra, o construtor recebe parte da terra que ele mesmo fabricou e a explora comercialmente. Quem dragou a areia fica com uma fatia do resultado. É modelo usado em vários lugares do mundo, e é também a razão pela qual críticos passaram a chamar o projeto de enclave estrangeiro dentro da capital.

A lei de 2021 que criou uma zona econômica especial

Em maio de 2021, o Parlamento cingalês aprovou a legislação que mudou o estatuto jurídico daquele pedaço de terra fabricada. A norma criou a Zona Econômica Especial de Port City Colombo e a comissão econômica encarregada de administrá-la.

O regime é agressivamente favorável ao investidor. Pela lei aprovada, empresas instaladas na área podem ficar isentas de todos os tributos, pessoais, corporativos, de importação e demais impostos, por prazo de até quarenta anos. O objetivo declarado é atrair capital estrangeiro para setores como finanças, tecnologia da informação, logística e turismo.

Foi justamente esse ponto que concentrou a oposição interna. Isenção tributária de quatro décadas significa décadas sem arrecadação em um país que passou por grave crise fiscal, e a criação de uma comissão própria para reger a área alimentou o debate sobre soberania regulatória dentro do próprio território nacional. Terreno fabricado com areia nacional passou a operar sob regras diferentes das do resto do país, e essa é a crítica que mais ecoou.

O que já existe hoje, sete anos depois do aterro

Aqui é preciso atualizar o cenário, porque muita informação sobre o projeto circula congelada em 2019. O aterro terminou, mas a cidade não ficou pronta com ele. Construir sobre a areia consolidada é uma etapa inteiramente separada e bem mais longa.

A primeira entrega ao público aconteceu em março de 2022, quando foi aberta a área do píer de iates, com avenidas de pedestres à beira-mar, praias artificiais, canais e parques verdes. Ou seja, o que existe hoje é sobretudo espaço público e infraestrutura, com a ocupação comercial e residencial ainda em construção.

O horizonte anunciado é longo. A conclusão total do empreendimento é projetada para algo em torno de 2040, com estimativa de população residente na casa dos 273 mil habitantes e criação prevista de mais de 140 mil empregos. São projeções do próprio projeto, e devem ser lidas como tal.

Do investimento no aterro ao investimento total esperado

Os valores envolvidos ajudam a entender por que o projeto virou assunto geopolítico. O aterro em si, com a areia, o quebra-mar e a infraestrutura de base, consumiu cerca de US$ 1,4 bilhão aportados pela empresa chinesa.

Esse é apenas o começo da conta. A expectativa divulgada é de investimento total entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões ao longo das décadas de construção, valor que colocaria o empreendimento entre os maiores projetos urbanos privados da Ásia.

Para dimensionar o que isso significa para o Sri Lanka, vale lembrar o tamanho do país: uma ilha com pouco mais de 20 milhões de habitantes, que enfrentou uma crise econômica severa nos anos recentes. Um projeto dessa escala tem peso desproporcional sobre a economia nacional, para o bem e para o mal.

A pausa de 2015 e a disputa política que veio junto

A obra não correu em linha reta, e esse capítulo é essencial para entender o caso. Durante a corrida presidencial que antecedeu a eleição de 2015, o projeto virou alvo de críticas pesadas, e o novo governo eleito suspendeu os trabalhos logo após assumir.

A paralisação levou à elaboração de um estudo de impacto ambiental suplementar, colocado em consulta pública, que passou a cobrir a totalidade dos 269 hectares. Foi esse processo que produziu boa parte da documentação técnica hoje disponível sobre a origem da areia e sobre os impactos previstos.

Depois de revisões, renegociações e mudanças nos termos, a obra foi retomada e seguiu até a conclusão do aterro. O episódio deixou uma lição que se repete em megaprojetos: obra com prazo de décadas atravessa vários governos, e cada troca de governo é um ponto de risco contratual.

O debate sobre dívida e influência que acompanha o projeto

Nenhum retrato honesto do empreendimento ignora o contexto internacional em que ele se insere. O projeto é frequentemente associado à Iniciativa do Cinturão e Rota, o programa chinês de investimento em infraestrutura ao redor do mundo.

A discussão ganhou temperatura no Sri Lanka por causa de um precedente doméstico. O país já havia entregue a concessão de longo prazo de um porto no sul, em Hambantota, a uma empresa chinesa, em operação ligada à renegociação de dívida, episódio que se tornou o exemplo mais citado no debate internacional sobre dependência financeira em projetos de infraestrutura.

Vale separar o que é fato do que é interpretação. É fato que a empresa executora é estatal chinesa, que ela dragou a areia, recebeu parte da terra fabricada e que o regime tributário da zona é excepcional. As conclusões sobre o que isso significa em termos de soberania e influência variam bastante conforme quem analisa, e essa disputa segue aberta.

O custo ambiental de tirar 65 milhões de metros cúbicos do mar

Retirar esse volume de areia do fundo do oceano não é operação neutra, e a literatura científica sobre a costa oeste cingalesa registra preocupação com o tema. Trechos daquele litoral já eram classificados como sujeitos a erosão severa antes do projeto.

O mecanismo é conhecido por quem estuda dinâmica costeira. Praia não é um estoque parado de areia, é um sistema em movimento contínuo, alimentado por sedimento que chega dos rios e que circula ao longo da costa empurrado por ondas e correntes. Retirar material do sistema, ou construir estruturas que interrompem esse fluxo, altera o equilíbrio a quilômetros de distância do ponto da intervenção.

Some-se a isso o efeito imediato da dragagem: sedimento em suspensão, água turva, redução temporária de luz para organismos do fundo e deslocamento da fauna. O estudo ambiental apontou que as áreas escolhidas não continham coral nem gramas marinhas, o que reduz o impacto, mas a pesca artesanal e a estabilidade da linha de costa seguem sendo pontos de atenção permanente.

Os números que não batem entre as fontes

Encerro com um alerta útil para quem for aprofundar o assunto, porque este projeto acumula divergências numéricas. A comparação com 600 campos de futebol aparece na divulgação oficial do aterro, mas há material igualmente ligado ao projeto que compara os mesmos 269 hectares a cerca de 350 campos.

A diferença vem do tamanho do campo adotado como referência, que varia bastante entre 0,45 e 0,75 hectare conforme a norma usada. Nenhuma das duas comparações é falsa, elas só usam réguas diferentes, e por isso mantive no texto a referência que consta do material da obra.

Há divergência também nas datas. Algumas fontes registram a assinatura do acordo em 16 de setembro de 2014, com inauguração cerimonial no mesmo dia, enquanto outras apontam o lançamento em 17 de setembro. E o custo total do projeto aparece ora como US$ 15 bilhões, ora como US$ 20 bilhões, dependendo do ano da estimativa. São detalhes pequenos, mas fazem diferença em uma pauta onde cada número vira manchete.

O volume de areia, esse sim, é dos poucos dados que aparecem idênticos em todas as fontes consultadas, do estudo ambiental à literatura acadêmica sobre erosão costeira: 65 milhões de metros cúbicos. Quando um número resiste a fontes tão diferentes, ele costuma ser confiável, e é por isso que ele ancora o título desta matéria.

O retrato final é o de uma cidade que começou como carga de draga. Foram 65 milhões de metros cúbicos de areia arrancados de 100 quilômetros quadrados de fundo marinho por quatro máquinas capazes de mover 250 mil metros cúbicos por dia, protegidos depois por um quebra-mar de 3.245 metros, para formar 269 hectares onde antes havia apenas oceano. O aterro terminou em janeiro de 2019, a área virou zona econômica especial com isenção tributária de até quarenta anos em 2021, a primeira entrega ao público aconteceu em 2022 e a conclusão está projetada para perto de 2040. Do outro lado da conta ficam a discussão sobre soberania, o precedente do porto de Hambantota, a erosão costeira e o fato de que quase metade da terra criada pertence à empresa que a fabricou.

E você, acha que fabricar cidade sobre o mar é engenharia admirável ou negócio arriscado demais para um país pequeno? Se um projeto assim fosse proposto no litoral brasileiro, com dinheiro estrangeiro e isenção de imposto por décadas, você apoiaria? Conta nos comentários o que pesaria mais para você: os empregos prometidos ou o preço cobrado em terra e em regras próprias.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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