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Adeus ao “sem sinal”: celular que faz e recebe ligações de voz sem depender de antena de operadora já é vendido, e a rede de satélites por trás dele nasceu após um terremoto deixar um país inteiro incomunicável

Adeus ao “sem sinal”: celular que faz e recebe ligações de voz sem depender de antena de operadora já é vendido, e a rede de satélites por trás dele nasceu após um terremoto deixar um país inteiro incomunicável

8 min de leitura

Adeus ao “sem sinal”: celular que faz e recebe ligações de voz sem depender de antena de operadora já é vendido, e a rede de satélites por trás dele nasceu após um terremoto deixar um país inteiro incomunicável

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 22/07/2026 às 23:42

Ciência e Tecnologia

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Foto: Reprodução/Youtube

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Tiantong, BeiDou, Huawei e celulares com chamadas por satélite revelam como a China transformou a tragédia do terremoto de Wenchuan em uma corrida tecnológica para manter pessoas conectadas mesmo quando torres, cabos e redes terrestres deixam de funcionar.

Em 2008, o terremoto de Wenchuan, na província de Sichuan, expôs uma fragilidade crítica da infraestrutura chinesa: quando redes terrestres caíram, a comunicação em áreas atingidas ficou comprometida. Segundo o portal do governo chinês, a criação do sistema Tiantong-1 entrou na agenda nacional depois daquele desastre, com a missão de garantir comunicação de emergência em grandes catástrofes e preencher a lacuna de um serviço autônomo de comunicação móvel por satélite.

O resultado dessa decisão aparece hoje em uma das frentes mais avançadas da telefonia chinesa. Celulares comuns de fabricantes como Huawei passaram a usar conectividade via satélite para enviar mensagens e, em modelos mais recentes, realizar chamadas de voz em áreas abertas sem cobertura de rede terrestre. A tecnologia não substitui internet móvel comum, mas muda o alcance de um smartphone em regiões isoladas, montanhas, áreas rurais, desertos, mar aberto e zonas afetadas por desastre.

Terremoto de Wenchuan levou a China a acelerar sua própria rede de comunicação por satélite

A ideia de uma rede chinesa de comunicação móvel por satélite já era discutida antes de 2008, mas o terremoto de Wenchuan transformou a proposta em prioridade estratégica.

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Segundo o portal do governo chinês, o desenvolvimento do Tiantong-1 foi colocado em pauta depois do desastre de 12 de maio de 2008, justamente para assegurar comunicação em emergências graves.

O problema era direto. Quando torres, cabos, energia elétrica e redes convencionais falham, celulares comuns perdem utilidade. Em uma tragédia de grandes proporções, isso dificulta resgate, coordenação, envio de informações e contato entre áreas isoladas e centros de comando.

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A resposta chinesa foi construir uma infraestrutura própria. O objetivo não era apenas oferecer um produto de mercado, mas garantir autonomia tecnológica em comunicação móvel via satélite, reduzindo a dependência de serviços externos em momentos críticos.

Tiantong-1 foi lançado em 2016 para cobrir a lacuna da comunicação móvel autônoma

O primeiro satélite do sistema Tiantong-1 foi lançado em 6 de agosto de 2016, a partir do Centro de Lançamento de Satélites de Xichang, segundo a Administração Espacial Nacional da China. O satélite foi apresentado como o primeiro equipamento chinês voltado à comunicação móvel por satélite.

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A missão oficial era clara: ampliar a capacidade de comunicação em situações de emergência e atender áreas onde a infraestrutura terrestre não chega com regularidade. Isso inclui regiões montanhosas, ilhas, áreas marítimas, zonas rurais remotas e locais atingidos por desastres naturais.

A operação comercial ficou ligada à China Telecom, que passou a estruturar o serviço para usuários e equipamentos compatíveis. Esse ponto é decisivo, porque o Tiantong não funciona como um GPS comum. Ele é uma rede de telecomunicação por satélite, desenhada para voz e mensagens.

BeiDou e Tiantong fazem funções diferentes nos celulares chineses

A conectividade via satélite nos celulares chineses não depende de um único sistema. Há duas camadas principais envolvidas: BeiDou e Tiantong-1. Elas são complementares, mas não entregam exatamente a mesma função.

O BeiDou é mais conhecido como o sistema chinês de navegação por satélite, equivalente estratégico ao GPS americano. A diferença é que ele também possui função de mensagens curtas, permitindo comunicação básica em cenários sem rede terrestre.

O Tiantong-1, por outro lado, é voltado à comunicação móvel por satélite. Segundo a Huawei, celulares compatíveis com o serviço Tiantong podem fazer e receber chamadas de voz, além de enviar e receber SMS, desde que o usuário esteja em área aberta, sem obstruções e dentro da cobertura operacional.

Huawei levou a comunicação por satélite para smartphones de consumo em massa

A Huawei foi a fabricante que transformou essa infraestrutura em recurso de smartphone para o grande público chinês. Primeiro, a empresa avançou com mensagens via satélite em aparelhos da linha Mate, usando capacidades associadas ao BeiDou.

celular que funciona sem rede de operadora

Depois, a conectividade evoluiu para chamadas de voz por satélite com aparelhos compatíveis com o Tiantong. Segundo a página de suporte da própria Huawei, seus celulares foram os primeiros smartphones de consumo a oferecer suporte à comunicação por satélite Tiantong.

Esse avanço é relevante porque muda a natureza do produto. O celular deixa de depender exclusivamente de antenas terrestres e passa a ter uma rota alternativa de comunicação em áreas sem sinal. Para uso cotidiano em cidades, isso pode parecer secundário. Para regiões isoladas ou situações de emergência, é uma mudança profunda.

Chamadas por satélite funcionam apenas em céu aberto e não substituem aparelhos profissionais

Apesar do impacto comercial, a tecnologia possui limitações importantes. A Huawei informa que o serviço Tiantong deve ser usado em ambientes abertos e sem obstruções. Dentro de casa, dentro de veículos, sob cobertura densa, entre prédios altos ou em áreas com barreiras naturais, o sinal pode falhar ou nem ser estabelecido.

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A própria documentação da Huawei também afirma que o recurso atende ao uso cotidiano, mas não substitui terminais profissionais de comunicação por satélite. Isso significa que ele não deve ser entendido como equivalente a equipamentos especializados usados por equipes de resgate, forças marítimas, expedições ou operações remotas de alto risco.

Outro ponto importante é que a comunicação Tiantong não oferece navegação comum na internet. Segundo a Huawei, o serviço não suporta acesso à internet, concentrando-se em chamadas de voz e mensagens. Ou seja, a função é pensada para contato essencial, não para streaming, redes sociais ou uso pesado de dados.

Fabricantes chinesas passaram a incorporar a conectividade direta entre celular e satélite

A tendência não ficou restrita a um único modelo. Segundo análise da TechInsights, os recursos de comunicação via BeiDou e Tiantong-1 já aparecem no ecossistema das principais fabricantes chinesas, incluindo Huawei, Honor, OPPO, Xiaomi e ZTE.

Esse movimento indica que a conectividade direta entre smartphone e satélite deixou de ser uma aposta isolada da Huawei e começou a se tornar uma frente competitiva na indústria chinesa de celulares. A lógica é simples: se a função passa a ser valorizada pelo consumidor, outras marcas precisam responder.

A competição também ajuda a derrubar barreiras de preço. Recursos que nascem em aparelhos premium costumam migrar para linhas mais acessíveis à medida que componentes, antenas, chips, contratos de operadora e padrões de uso amadurecem.

Recurso começou no topo de linha e passou a avançar para mais categorias de aparelhos

A comunicação por satélite em smartphones ainda é uma função associada a modelos mais sofisticados, mas a direção do mercado é clara. A tecnologia está descendo gradualmente de faixa, aparecendo em mais linhas, formatos e categorias.

Foto: Reprodução/Youtube

O avanço para relógios, intermediários premium e versões especiais mostra que as fabricantes chinesas enxergam a conexão fora da rede como um diferencial comercial.

Em um mercado de smartphones cada vez mais saturado, conseguir ligar ou enviar mensagem onde não há antena de operadora cria uma narrativa forte de segurança, autonomia e inovação.

A TechInsights descreve esse movimento como parte da expansão da comunicação direta entre satélite e smartphone na China. A tendência não elimina as redes terrestres, mas acrescenta uma camada extra para situações em que a cobertura tradicional falha.

Diferença entre o modelo chinês e os serviços de emergência ocidentais

A principal diferença do modelo chinês está na origem. O Tiantong nasceu como infraestrutura nacional de telecomunicação móvel por satélite, ligada a serviço comercial e uso mais amplo de voz e SMS. Já em vários mercados ocidentais, os primeiros recursos de smartphone via satélite apareceram com foco mais restrito em mensagens de emergência.

Essa diferença muda a experiência. No modelo chinês, a ideia é permitir comunicação mais próxima de um serviço de telefonia, ainda que com limitações técnicas e geográficas. Em outros mercados, a função começou como ferramenta de socorro, com uso limitado, mensagens guiadas e forte dependência de acordos entre fabricantes, operadoras e redes de satélite.

Ambos os caminhos apontam para a mesma direção: celulares capazes de conversar diretamente com infraestrutura espacial. Mas a China chegou a esse ponto por uma rota própria, construída sobre BeiDou, Tiantong, operadoras nacionais e uma política de autonomia tecnológica.

Cobertura, planos e regulação limitam o uso fora da China

Para o consumidor brasileiro, o ponto mais importante é separar tendência global de disponibilidade real. A tecnologia específica do Tiantong está ligada à infraestrutura chinesa, à cobertura regional, às operadoras locais e às versões dos aparelhos vendidas naquele mercado.

Mesmo quando um modelo tem nome parecido no exterior, isso não significa que ele ofereça as mesmas funções por satélite fora da China.

Recursos desse tipo dependem de hardware compatível, autorização regulatória, plano de serviço, cobertura do satélite e integração com operadoras.

No Brasil, portanto, a relevância imediata está mais na tendência do que no uso prático do Tiantong. A conexão direta entre celular e satélite deve crescer globalmente, mas cada país dependerá de sua própria combinação de redes, frequência, operadoras, regulação e fabricantes.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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