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Amyr Klink atravessou sozinho o Atlântico Sul num pequeno barco a remo, encarou 100 dias no mar entre tempestades e correntes, sem bússola, guiado por um sextante, e virou a primeira pessoa do mundo a cruzar esse oceano a remo, da Namíbia à Bahia
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 23/07/2026 às 23:45
Atualizado em 23/07/2026 às 23:54
Curiosidades
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Em 10 de junho de 1984, um paulistano de 28 anos soltou as amarras no porto de Lüderitz, na Namíbia, dentro de um barco a remo projetado para desvirar sozinho. Cem dias depois pisou na Bahia. No meio do caminho enfrentou tempestades, cabine alagada, uma baleia e três capotamentos.
Amyr Klink partiu da Namíbia, no sul do continente africano, carregando 150 embalagens de comida desidratada calculadas para uma travessia estimada em cem dias. O motor era o próprio corpo, com cerca de oito horas de remada por dia, e o resto dependia da sorte dos ventos e das correntezas. A informação sobre o feito foi reunida em reportagem assinada por Gabriel Costa e publicada em 19 de fevereiro de 2026, que reconstitui a travessia que transformou o navegador na primeira pessoa a cruzar o Atlântico Sul em um barco a remo.
Nada ali foi improviso. A preparação consumiu dois anos e envolveu desde o projeto da embarcação até a escolha rigorosa de cada item que subiu a bordo, incluindo a comida. Para se orientar, Klink dispensou a bússola e usou um sextante, instrumento que mede a posição dos astros em relação à linha do horizonte, método que, como ele contaria depois ao g1, exigia por volta de oito horas de cálculos por dia. O destino era o litoral norte da Bahia, alcançado em 18 de setembro, quando ele aportou em Camaçari antes de seguir para a Praia da Espera.
Um barco a remo deixa o porto de Lüderitz
O ponto de partida não foi escolhido por acaso. Lüderitz fica na costa sudoeste da Namíbia, vizinha da chamada Costa dos Esqueletos, e é justamente ali que a corrente de Benguela se afasta do litoral e deflete para dentro do Atlântico. É também dali que começam os ventos alísios que sopram de forma constante em direção ao Nordeste brasileiro. Em outras palavras, Klink escolheu o lugar onde o oceano trabalharia a favor dele.
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Isso importa mais do que parece. Um barco a remo não vence a corrente, ele a acompanha. A escolha do porto de saída não foi detalhe logístico, foi metade da estratégia da travessia. Sair alguns graus mais ao norte ou mais ao sul significaria remar contra aquilo que ele precisava ter como aliado durante mais de três meses.
A embarcação também não era de prateleira. Klink construiu o próprio barco no ano anterior à viagem, batizado de I.A.T., e cada linha do casco respondia a uma condição específica que ele esperava enfrentar no meio do Atlântico. O resultado foi uma casca pequena, projetada para uma pessoa, sem propulsão mecânica de espécie alguma.
Dois anos de preparação antes da primeira remada
O que separa essa história de uma aventura improvisada é o tempo gasto antes da largada. Foram dois anos de preparativos, e a lista de problemas resolvidos nessa fase explica por que o navegador hoje ganha a vida falando de planejamento.
O maior deles era a comida, e o obstáculo real não era o alimento em si, era a água. Alimento desidratado precisa ser reidratado, e levar água doce suficiente para cem dias de refeições estouraria qualquer cálculo de peso em um barco daquele tamanho. Levar um dessalinizador também não fechava a conta. A solução foi desenvolver um cardápio que pudesse ser reidratado com água do mar, o que resolveu de uma vez o problema de peso e o de espaço. Para isso, a comida foi preparada sem sal e desidratada sob medida, gerando as 150 embalagens que embarcaram com ele.
A água potável entrou separada, reservada para beber, em um volume que gira em torno de 275 litros. Somando tudo, o barco carregava alimento, água, poucos remédios e equipamento, e nada mais. Cada item precisou justificar o próprio peso, porque em uma embarcação movida a braço não existe folga: o que sobe a bordo é carga que alguém vai ter que empurrar por milhares de quilômetros.
Um sextante no lugar da bússola, e oito horas de conta por dia
A parte mais impressionante da travessia talvez não seja física. Klink não levou bússola. Navegou com sextante, o mesmo princípio usado pelos navegadores dos séculos anteriores, que consiste em medir o ângulo entre um astro e a linha do horizonte para calcular a própria posição sobre a superfície do planeta.
O método funciona, mas cobra caro. A leitura do sextante é só o começo: depois vêm as tabelas, as correções de hora, de altura do observador e de refração atmosférica, e uma sequência de contas que precisa ser refeita várias vezes por dia para que o erro não se acumule. Klink contou ao g1 que essa rotina consumia cerca de oito horas diárias.
Faça a soma e o dia dele aparece inteiro. Oito horas remando e oito horas calculando somam dezesseis horas de trabalho por dia, todos os dias, durante cem dias. O que sobrava era comer, dormir e cuidar do barco, no meio de um oceano onde não havia ninguém para dividir turno, revisar cálculo nem assumir o remo enquanto ele descansava. Um erro de conta repetido por alguns dias não significava apenas atraso, significava passar longe do Brasil.
O barco virou três vezes e voltou sozinho à posição
A embarcação foi desenhada para se comportar como um brinquedo de criança, aquele boneco de base pesada que volta a ficar de pé sempre que alguém o derruba. A comparação com o joão bobo aparece na descrição do projeto e resume bem a lógica estrutural: o barco tinha centro de gravidade baixo e cabine estanque, de forma que, ao capotar, a própria distribuição de peso o trazia de volta à posição original.
Não foi precaução exagerada. Durante a travessia, o barco virou três vezes. Sem essa característica de projeto, cada capotamento teria sido o fim da viagem, e provavelmente do navegador. Um barco a remo emborcado no meio do Atlântico não tem tripulação para endireitá-lo nem embarcação de apoio para o resgate.
A decisão diz muito sobre o método de preparação. Klink não projetou a embarcação para as condições que esperava encontrar, projetou para as que temia encontrar. Foi o pior cenário, e não o mais provável, que definiu o formato do casco.
A baleia, a cabine alagada e as tempestades
O inventário de sustos da travessia é curto de listar e longo de viver. Houve tempestades ao longo do percurso, houve o alagamento da cabine, o compartimento que servia ao mesmo tempo de dormitório, abrigo e depósito de tudo o que não podia molhar.
E houve a baleia. Em algum ponto do oceano, um animal atingiu a embarcação. Não há na reportagem detalhe sobre a extensão do estrago nem sobre o tempo de reparo, apenas o registro do encontro. É o tipo de imprevisto que nenhum planejamento de dois anos elimina, só permite sobreviver.
Vale separar as duas naturezas de risco que ele enfrentou, porque elas exigem respostas diferentes. Tempestade e correnteza são variáveis previsíveis em estatística, ainda que imprevisíveis em data, e por isso entram no projeto do barco e no cálculo da rota. Colisão com um animal de grande porte não entra em cálculo nenhum. Contra isso só resta a robustez do casco e a sorte.
Sete mil quilômetros e cem dias que fecham na conta
A aritmética da viagem tem uma coincidência bonita. Klink partiu em 10 de junho e chegou em 18 de setembro de 1984. Contando dia a dia, do embarque ao desembarque, são exatamente cem dias, o mesmo número que a preparação havia estimado dois anos antes. A previsão não errou por uma semana nem por um mês. Fechou.
A distância percorrida gira em torno de 7 mil quilômetros entre a costa da Namíbia e o litoral baiano. Dividindo o percurso pelos cem dias, chega se a uma média aproximada de 70 quilômetros por dia, obtidos com braço humano e vento favorável, sem motor, sem vela e sem escala. Setenta quilômetros por dia é o que um carro faz em menos de uma hora de estrada, e o que ele fez em oito horas de remada, cem vezes seguidas.
Convém registrar uma ressalva de número. A reportagem que serviu de base a este texto informa 3.700 quilômetros de travessia, valor bem abaixo do que aparece nos registros mais amplamente divulgados do feito, inclusive no material do próprio navegador e na cobertura da Agência Brasil, que apontam cerca de 7 mil quilômetros. A explicação mais provável é uma troca de unidade, já que 3.700 milhas náuticas equivalem a aproximadamente 6.850 quilômetros. Adotei aqui a ordem de grandeza majoritária.
Camaçari, 18 de setembro, e a Praia da Espera
O objetivo era o litoral norte da Bahia, e foi lá que a viagem terminou. Klink aportou em Camaçari em 18 de setembro de 1984 e depois seguiu para a Praia da Espera, no distrito de Itacimirim, o ponto que ficaria associado ao fim da travessia.
O nome da praia é uma dessas coincidências que a realidade entrega prontas. Uma faixa de areia chamada Espera fechando uma viagem de cem dias em barco a remo é o tipo de detalhe que nenhum roteirista assinaria sem receio de exagero. Do outro lado do Atlântico, uma cidade portuária ao lado da Costa dos Esqueletos. Deste lado, a Espera.
Havia ainda uma marca pessoal esperando por ele em terra. Klink tinha 28 anos quando deixou Lüderitz e completou 29 poucos dias depois de chegar ao Brasil. A travessia inteira aconteceu, portanto, antes dos trinta.
Por que o recorde é do Atlântico Sul, e não do Atlântico
Existe uma precisão importante nesse feito, e ela costuma se perder na repetição. Klink foi a primeira pessoa a atravessar o Atlântico Sul a remo, e não a primeira a atravessar o Atlântico. A porção norte do oceano já havia sido cruzada dessa forma antes dele.
Ele mesmo tratou o assunto ao relembrar a preparação. Contou que um dos sinais mais promissores de que a ideia era viável veio de um francês que atravessou o Atlântico Norte na década de 1980, embora aquela distância seja consideravelmente menor, com uma diferença estimada por Klink em cerca de 1.200 milhas náuticas, o equivalente a algo em torno de 2 mil quilômetros a menos. O endosso serviu de estímulo, mas o problema que ele tinha pela frente era de outro tamanho.
A diferença não é só de quilometragem. O trecho sul do Atlântico impõe outro regime de ventos, outras correntes e uma solidão logística maior, com menos tráfego marítimo e menos possibilidade de socorro. Manter a formulação correta, primeira travessia do Atlântico Sul a remo, não diminui o feito. Deixa ele mais preciso, que é o que um recorde precisa ser.
Cem Dias entre o Céu e o Mar, o livro que veio depois
A experiência virou livro, e o livro virou clássico. Cem Dias entre o Céu e o Mar reconstitui a travessia em primeira pessoa, com o relato dos preparativos, dos obstáculos e da rotina a bordo, e é a obra que apresentou Klink ao grande público leitor brasileiro.
O apelo do texto não vem da parte esportiva. O que sustenta o livro é a convivência forçada com o tempo, com o próprio silêncio e com um oceano que não presta atenção em quem está passando. É por isso que ele saiu do nicho náutico e entrou em lista de leitura de escola, de vestibular e de clube de leitura, público que nunca entrou em um barco a remo e provavelmente nunca vai entrar.
Vale registrar que a data de publicação informada na reportagem é 1995, mais de dez anos depois da travessia. Esse intervalo entre o feito e a narrativa aparece com frequência nas edições em circulação, e é o dado que a fonte oferece.
Quem é Amyr Klink, e a canoa comprada aos dez anos
Klink nasceu em São Paulo, em 1955, filho de pai libanês e mãe sueca. O interesse por embarcações apareceu cedo e de forma bem concreta: aos dez anos, em Paraty, no litoral sul fluminense, ele comprou a primeira canoa. Aquela compra virou o começo de uma coleção que hoje passa de 30 unidades.
A ligação com Paraty atravessa toda a biografia dele. Foi no contato com o litoral e com a cultura caiçara daquela região que se formou a relação com o mar que depois viraria projeto de vida. Não existe na trajetória dele um momento de virada, existe uma continuidade que começa em uma canoa de criança e chega em um barco a remo no meio do Atlântico Sul.
Essa é a diferença entre o navegador e a figura do aventureiro impulsivo com a qual ele às vezes é confundido. Entre a primeira canoa e a travessia de 1984 há quase vinte anos de convivência com embarcações, e mais dois anos de preparação específica em cima disso.
Da Antártica à volta ao mundo pela faixa mais tempestuosa
A travessia a remo foi apenas a abertura. Segundo a reportagem, em 1986 Klink fez a primeira de quinze viagens à Antártica, e em uma delas chegou a ficar ancorado por quase um ano na região, o que significa passar um inverno inteiro em uma das áreas mais inóspitas do planeta.
Doze anos depois veio o feito que ele próprio costuma classificar como o mais difícil. Em 1998, completou uma volta ao mundo inédita, navegando sozinho pela faixa de oceano mais tempestuosa do planeta, o cinturão de mares que circunda a Antártica e onde nenhuma massa de terra freia o vento. É a diferença entre atravessar um oceano e dar a volta no continente que fabrica o mau tempo de todos eles.
O conjunto de relatos dessas expedições está espalhado por seis livros. E aqui vale uma observação de checagem: parte dos registros públicos data a grande expedição antártica dele, a bordo do veleiro Paratii, a partir de dezembro de 1989, com retorno a Paraty em 1991. A reportagem aponta 1986 como o início da série, e as duas informações convivem na cobertura sobre o navegador sem que uma anule a outra.
O que ele faz hoje, e por que fala justamente de planejamento
As expedições não pararam, mudaram de formato. Hoje elas acontecem ao lado da esposa, Marina, e das três filhas, o que transforma o que era uma prática solitária em programa de família. Fora do mar, Klink administra empresas e roda o país dando palestras.
O tema recorrente dessas palestras não é coragem, não é superação e não é aventura. É planejamento. Faz sentido: o que permitiu a um homem sozinho atravessar sete mil quilômetros de oceano a remo não foi bravura, foi cardápio testado, casco calculado e conta de sextante refeita todo dia. A parte heroica da história é consequência da parte chata.
É essa inversão que explica por que a travessia de 1984 continua sendo contada quatro décadas depois. O feito atrai pelo risco, mas o que ele tem a ensinar está na fase em que ninguém estava olhando, os dois anos anteriores em que a viagem foi resolvida no papel antes de ser resolvida no mar.
Cem dias, dois remos e nenhum plano B
O que aconteceu entre junho e setembro de 1984 cabe em uma frase curta e em nenhuma explicação simples. Um homem de 28 anos entrou em um barco a remo na costa da Namíbia e saiu dele na Bahia, cem dias depois, tendo capotado três vezes, levado uma pancada de baleia, remado cerca de 70 quilômetros por dia e calculado a própria posição com um instrumento que já era antigo quando ele nasceu.
E é aí que a história incomoda um pouco. Ele fez isso sem nada que hoje consideramos essencial: sem tela, sem sinal, sem alguém do outro lado para avisar que estava tudo bem. Você acha que uma travessia dessas é mais difícil hoje, com todo mundo conectado e acompanhado em tempo real, ou muito mais fácil, a ponto de não valer mais como recorde? Conta aqui embaixo se você toparia ficar cem dias sozinho sem celular e o que seria a primeira coisa a te fazer desistir.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

