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Antropologia da mudança climática ajuda a entender por que não agimos

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Antropologia da mudança climática ajuda a entender por que não agimos

(por Mariana Caminha)

Nos últimos anos, trabalhando com comunicação climática, uma pergunta passou a ocupar cada vez mais espaço nas minhas reflexões. Não é sobre modelos climáticos. Nem sobre novas tecnologias. Muito menos sobre a qualidade da ciência, que, aliás, nunca foi tão robusta.

A pergunta é outra: por que, mesmo tendo acesso ao melhor conhecimento científico já produzido sobre as mudanças do clima, ainda não conseguimos nos unir para mudar uma trajetória que sabemos ser catastrófica?

Foi essa inquietação que me levou a um lugar inesperado: a antropologia.

Nos últimos meses, tenho mergulhado na chamada Antropologia das Mudanças Climáticas, um campo fascinante que parte de uma constatação simples, mas poderosa: a crise climática não é apenas um problema ambiental ou tecnológico. Ela é, antes de tudo, um problema profundamente humano.

Estamos carecas de saber que as emissões são físicas. Mas as decisões que produzem essas emissões, essas são culturais.

Durante muito tempo, acreditamos que comunicar melhor a ciência seria suficiente para impulsionar a ação. Hoje desconfio que, entre conhecer um problema e agir sobre ele, existe um território invisível, habitado por emoções, identidades, valores, medos, pertencimento e normas sociais. É ali que decidimos em quem confiar, quais riscos ignorar, quais mudanças aceitar e quais narrativas passam a fazer parte da nossa visão de mundo. Fascinante.

É justamente esse território que a antropologia (em diálogo com a psicologia e as ciências comportamentais) vem explorando com cada vez mais profundidade. Trata-se de uma constatação desconfortável: a crise climática não está paralisada por falta de evidências. Ela está paralisada porque mudar comportamentos humanos é muito mais complexo do que transmitir conhecimento.

Se essa hipótese estiver correta, comunicar sobre o clima talvez não signifique apenas traduzir a ciência para uma linguagem mais simples. Talvez seja, cada vez mais, um exercício de compreender o ser humano.

Vamos a um exemplo. Sabemos que dormir pouco faz mal. Que o sedentarismo aumenta o risco de doenças. Que fumar mata. Ainda assim, milhões de pessoas seguem repetindo comportamentos que reconhecem como prejudiciais.

Com o clima acontece algo parecido – só que em escala planetária.

O pesquisador britânico George Marshall, autor do livro Don’t Even Think About It, argumenta que a crise climática encontra resistência não porque as pessoas sejam ignorantes ou negacionistas. Ela encontra resistência porque nosso cérebro simplesmente não foi moldado para lidar com ameaças dessa natureza.

Durante milhares de anos, nossa sobrevivência dependeu de identificar perigos imediatos: um predador escondido na mata, uma tempestade se aproximando, um inimigo à vista. Em outras palavras, nosso cérebro foi treinado para reagir ao que pode ser visto, ouvido ou sentido naquele instante.

Já a mudança do clima é o oposto disso tudo. Ela é lenta. Difusa. Estatística. Seus efeitos se distribuem pelo planeta ao longo das décadas. Não há um único culpado. Não há um rosto para enfrentar. Não existe um momento claro em que possamos dizer: “Agora começou”.

Como mobilizar emoções diante de algo que não consegue disputar atenção com as contas para pagar, o trânsito, a reunião de amanhã ou o celular vibrando sobre a mesa?

Marshall lembra que nosso cérebro também aprende observando os outros. Se ninguém fala sobre determinado assunto, concluímos, inconscientemente, que talvez ele não seja tão importante assim. E ainda se fala pouco sobre mudanças climáticas na mesa do almoço – mesmo que saibamos da existência do problema.

É exatamente por isso que cresce, em universidades ao redor do mundo, o interesse pela Antropologia das Mudanças Climáticas. Em vez de perguntar como reduzir emissões, esse campo busca compreender como crenças, emoções, estruturas de poder, relações sociais e visões de mundo moldam nossa capacidade, ou incapacidade, de agir.

Mas a antropologia vai um passo além. Ela faz uma pergunta ainda mais fundamental:

Como diferentes sociedades imaginam o que é, afinal, a natureza?

Para muitos de nós, especialmente nas sociedades ocidentais, a natureza é algo que está “lá fora” – um lugar que visitamos, protegemos, conservamos ou exploramos. Costumamos enxergá-la como algo separado de nós.

Já muitos povos indígenas compreendem o mundo de uma forma profundamente diferente. Eles não falam em “proteger a natureza” porque, em sua cosmovisão, os seres humanos não estão do lado de fora, olhando para ela. Eles fazem parte dela. Rios, florestas, animais e pessoas existem na mesma teia de relações. Não há uma separação real entre humanidade e natureza.

Essa ideia, tão simples, muda tudo.

Se nos enxergamos como separados da natureza, protegê-la pode parecer uma obrigação, uma concessão ou até um sacrifício. Mas, quando entendemos que somos parte dela, cuidar do mundo vivo passa a ser, em grande medida, uma forma de cuidar de nós mesmos.

George Marshall defende que precisamos falar menos sobre partes por milhão de dióxido de carbono e mais sobre aquilo que realmente move as pessoas: proteger suas famílias, fortalecer comunidades, gerar prosperidade com menos impacto, cuidar do lugar onde vivemos e construir um futuro desejável.

Provavelmente seja essa a razão pela qual algumas iniciativas climáticas conseguem mobilizar, enquanto outras fracassam. Não porque tenham mais dados, mas porque contam histórias melhores. Histórias nas quais as pessoas conseguem se enxergar.

Ler sobre o assunto me fez perceber que ciência e cultura não competem entre si. Elas se complementam.

A ciência nos explica o que está acontecendo com o planeta. A antropologia nos ajuda a entender por que, sabendo de tudo isso, ainda agimos tão pouco.

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