CE
7 min de leitura
Aos 27 anos, estudante cearense está prestes a se formar em Medicina na UECE e decidiu fazer um ensaio fotográfico na roça em homenagem ao pai, à mãe e ao avô; Natallos Casseano é filho de agricultor e de dona de casa, estudou por 6 anos até conseguir a vaga
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 22/07/2026 às 18:49
Curiosidades
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Natallos Casseano estudou por seis anos, conquistou vaga em Medicina na Uece e homenageou as raízes da família com um ensaio realizado na roça do pai.
Em vez de escolher um estúdio, Natallos Casseano voltou à propriedade rural onde sua família construiu a própria história. Aos 27 anos e no sétimo semestre de Medicina da Universidade Estadual do Ceará, o estudante realizou um ensaio fotográfico entre elementos que representam o trabalho do avô, do pai e da mãe.
O cenário reuniu as origens ligadas à agricultura, ao trabalho de carroceiro e à rotina de dona de casa. Para Natallos, as imagens não deveriam registrar apenas sua trajetória universitária, mas reconhecer as pessoas que sustentaram o sonho antes mesmo de ele conseguir enxergar a aprovação como uma possibilidade real.
“Quis mostrar que essa conquista não é só minha”, explicou o estudante, que nasceu na comunidade Vila Padre Cícero, localizada a aproximadamente três quilômetros da sede de Milagres, no Cariri cearense.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Ensaio na roça transformou conquista individual em homenagem familiar
Segundo matéria publicada pelo Diário do Nordeste, em 6 de março de 2026, as fotografias foram feitas na roça de José Ronaldo Manoel, pai de Natallos. A escolha surpreendeu os parentes por se distanciar das imagens convencionais produzidas para marcar a trajetória de estudantes universitários.
De acordo com o jovem, a família se emocionou ao perceber que o ambiente de trabalho também poderia ocupar um lugar de destaque na celebração. Os familiares afirmaram que ele estava seguindo o caminho correto.
O ensaio levou para as fotografias atividades que acompanharam diferentes gerações da família. O avô trabalhou como agricultor, o pai atuou como agricultor e carroceiro, enquanto a mãe dedicou-se ao trabalho doméstico.
Para Natallos, o avanço na faculdade está diretamente relacionado aos sacrifícios feitos pelos pais. “Se não fosse pelo apoio deles, sacrifícios e tudo o que fizeram por mim, eu não teria chegado até aqui”, afirmou.
Natallos Casseano será o primeiro médico da família
A graduação representa uma mudança profunda dentro da realidade familiar. Natallos afirma que será o primeiro médico entre seus parentes e também em sua comunidade. O acesso à universidade ainda é uma realidade rara entre os familiares.
Alguns parentes retomaram a trajetória escolar pela Educação de Jovens e Adultos, enquanto outros não conseguiram concluir os estudos. A necessidade de trabalhar desde cedo para ajudar em casa limitou as oportunidades educacionais de várias gerações. Para alguns familiares, deixar a escola foi uma condição ligada à própria sobrevivência.
Por isso, o estudante considera a Medicina mais do que uma realização pessoal. A formação rompe uma sequência de dificuldades e abre uma referência diferente para pessoas que cresceram em condições semelhantes.
A relação de Natallos com os estudos nem sempre foi marcada pela disciplina. Quando era criança, ele apresentou problemas de comportamento na escola, situação que levou os pais a adotarem uma medida prática.
Natallos e a irmã foram levados para trabalhar com a família no campo. Naquele dia, ajudaram a recolher milho e feijão e precisaram carregar sacos pesados. Ao final da jornada, os pais perguntaram se ele desejava continuar naquela rotina ou se passaria a se dedicar à escola para construir outra possibilidade de futuro.
O episódio provocou uma mudança. O estudante passou a melhorar o comportamento, aumentou o envolvimento com as atividades escolares e começou a desenvolver a disciplina que mais tarde seria necessária para enfrentar o vestibular.
Seis anos de preparação até a vaga em Medicina
Toda a trajetória escolar de Natallos ocorreu na rede pública. A partir de 2017, ele passou a se preparar para as provas da Uece e do Enem, iniciando uma jornada que se estenderia por seis anos até a aprovação. Nesse período, enfrentou desgaste, incertezas e diversas renúncias.
Ao longo da preparação, recebeu bolsas para cursinhos presenciais e on-line, além do incentivo de pessoas que reconheceram sua capacidade e ampliaram sua visão sobre o futuro. Ainda assim, o estudo independente foi a base de sua rotina: em casa, ele montava o próprio cronograma e aprendia com materiais recebidos por doação.
A duração da preparação fez com que Natallos criasse uma comparação com o próprio ensino médio. Para ele, os seis anos de estudos funcionaram como uma reconstrução completa da base necessária para disputar uma vaga tão concorrida.
“Não literalmente, mas porque passei seis anos em preparação, enquanto o Ensino Médio regular dura três”, explicou.
O estudante avalia que a escola pública nem sempre consegue preparar adequadamente os alunos para processos seletivos de cursos como Medicina. Diante dessa dificuldade, precisou identificar as próprias lacunas e buscar formas de corrigi-las.
A rotina independente exigiu autonomia para escolher conteúdos, revisar matérias e continuar estudando mesmo sem uma estrutura permanente de acompanhamento.
Desistência apareceu várias vezes durante o caminho
O longo período de preparação não foi marcado apenas por resultados positivos. Natallos conta que a vontade de abandonar o projeto surgiu em diferentes momentos. No começo, a rotina de estudos parecia cansativa e repetitiva. Os resultados demoravam a aparecer, enquanto o esforço precisava ser mantido diariamente.
Uma das motivações era evitar um caminho que ele observava entre jovens com poucas oportunidades. Muitos deixavam os estudos e viajavam para outros estados em busca de trabalhos pesados. Natallos reconhece a dignidade dessas atividades, mas queria construir outra alternativa para si e para a família. A educação passou a ser vista como o principal meio para alcançar essa mudança.
A escolha profissional também está ligada às experiências da infância. Ao lado de um amigo, Natallos observava os trabalhadores de um posto de saúde, mesmo sem compreender exatamente a função exercida por cada profissional.
O comportamento da equipe e as expressões dos pacientes despertaram sua atenção. Com o tempo, essas lembranças passaram a formar a ideia de que poderia trabalhar ajudando outras pessoas.
“Também queria sentir que estava contribuindo para a sociedade e que poderia aliviar a dor de alguém”, declarou. A Medicina deixou de ser apenas uma possibilidade de ascensão educacional e se transformou em um propósito relacionado ao cuidado e à atuação social.
Camisas de cursinhos despertaram insegurança antes da prova
Mesmo depois de anos de preparação, Natallos enfrentou um momento de insegurança ao chegar ao vestibular da Uece. No local da prova, observou vários candidatos vestindo camisas de cursos preparatórios, incluindo instituições consideradas de elite. Muitos daqueles estudantes também acumulavam anos de preparação.
Diante do contraste, ele passou a duvidar das próprias chances. Sua rotina havia sido construída principalmente dentro de casa, com materiais recebidos de outras pessoas e períodos de estudo solitário. “Naquele momento, pensei: ‘Meu Deus, eu não vou passar’”, recordou. Apesar do medo, realizou a prova e conquistou a vaga que mudaria sua trajetória.
Hoje, Natallos interpreta a entrada na universidade como o fim de uma etapa marcada por limitações e o início de novas possibilidades. A conquista também trouxe responsabilidade. Ele afirma que a condição de primeiro futuro médico da família e da comunidade aumenta o compromisso com os estudos.
Nos períodos de desgaste, o jovem procura lembrar das pessoas que participaram do caminho e dos esforços realizados pelos pais. A família continua sendo a principal referência para manter a rotina no curso.
“É o encerramento de um ciclo de dificuldades para que novos ciclos possam ser construídos — de oportunidade, de esperança e de transformação”, afirmou.
Educação se tornou caminho para mudar o destino
A experiência ensinou Natallos a não transformar origem social, local de nascimento ou comentários negativos em limites definitivos.
Além das dificuldades materiais, ele precisou enfrentar opiniões desestimulantes e os próprios pensamentos de desistência. A aprovação mostrou que as diferenças entre os candidatos não determinavam antecipadamente o resultado.
Para o estudante, cada pessoa possui um tempo diferente para chegar aos próprios objetivos. Os seis anos de preparação foram necessários para que ele construísse a base e a confiança exigidas pela seleção.
“Sonhos não têm data de validade. Cada pessoa tem o próprio tempo e a própria caminhada. O importante é persistir”, declarou.
Ao escolher a roça do pai como cenário de seu ensaio, Natallos Casseano registrou não apenas a chegada à Medicina, mas também o ponto de partida de uma história construída por agricultores, trabalhadores e familiares que encontraram na educação uma possibilidade de transformação.
Com informações do Diário do Nordeste
Fonte
Diário do Nordeste
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

