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Apontado para a Terra, o telescópio Hubble não enxergaria uma pessoa sequer, e o James Webb, a 1,5 milhão de quilômetros, nem pode olhar para o nosso planeta sem queimar os sensores

Apontado para a Terra, o telescópio Hubble não enxergaria uma pessoa sequer, e o James Webb, a 1,5 milhão de quilômetros, nem pode olhar para o nosso planeta sem queimar os sensores

8 min de leitura

Apontado para a Terra, o telescópio Hubble não enxergaria uma pessoa sequer, e o James Webb, a 1,5 milhão de quilômetros, nem pode olhar para o nosso planeta sem queimar os sensores

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 27/07/2026 às 16:42

Atualizado em 27/07/2026 às 16:47

Ciência e Tecnologia

O telescópio Hubble não enxergaria uma pessoa no chão, e o James Webb nem pode apontar para a Terra sem danificar os instrumentos.

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Um está a menos de 500 quilômetros daqui e passa voando a 27 mil por hora. O outro está quatro vezes mais longe que a Lua, congelado a 225 graus negativos, e foi construído justamente para nunca virar o rosto na direção de casa.

O telescópio Hubble orbita a Terra a aproximadamente 483 quilômetros de altitude, completa uma volta a cada 95 minutos e tem resolução angular capaz de distinguir, em teoria, objetos de cerca de 30 centímetros no solo, segundo dados da NASA e da Agência Espacial Europeia. Na prática, porém, ele nunca vai fotografar ninguém: a velocidade orbital de 27 mil quilômetros por hora borraria qualquer imagem, a atmosfera embaçaria o resultado e o brilho do planeta danificaria os instrumentos.

O James Webb tem um problema diferente e mais radical. Ele não orbita a Terra: orbita o Sol, a partir de um ponto chamado L2, situado a cerca de 1,5 milhão de quilômetros daqui, do lado oposto ao Sol. Dali, o telescópio simplesmente não pode se virar para olhar a Terra, Vênus ou Mercúrio, porque isso exigiria apontar na direção do Sol e destruiria o resfriamento que sustenta a missão inteira, conforme explicação publicada pela revista BBC Sky at Night em junho de 2025.

Dois telescópios, dois endereços completamente diferentes

O telescópio Hubble não enxergaria uma pessoa no chão, e o James Webb nem pode apontar para a Terra sem danificar os instrumentos.

A confusão mais comum sobre esses dois equipamentos começa na geografia. Muita gente imagina os dois flutuando no mesmo lugar, o que não poderia estar mais distante da realidade.

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O telescópio Hubble está em órbita baixa terrestre, a cerca de 483 quilômetros de altitude, altura comparável à da Estação Espacial Internacional. Ele dá uma volta completa no planeta a cada 95 minutos e já acumulou mais de 195 mil órbitas desde 1990.

O James Webb foi para outro lugar. Ele ocupa o segundo ponto de Lagrange, conhecido como L2, a aproximadamente 1,5 milhão de quilômetros da Terra. Para comparar, a Lua está a cerca de 384 mil quilômetros, ou seja, o Webb está quase quatro vezes mais longe do que ela.

A escolha do L2 não é capricho. Naquele ponto específico, as forças gravitacionais da Terra e do Sol se equilibram, o que permite ao telescópio manter posição estável gastando pouquíssimo combustível. Além disso, dali o Sol, a Terra e a Lua ficam sempre na mesma direção do céu, todos atrás do equipamento.

Por que o Webb precisa ficar a 225 graus negativos

A missão principal do Webb é observar luz infravermelha fraca vinda do Universo primitivo e de objetos distantes. E aqui está o detalhe que explica tudo o que vem depois.

Luz infravermelha é lida pelos instrumentos como calor. Isso significa que qualquer fonte quente próxima aparece como ruído e sobrepõe o sinal fraquíssimo que o telescópio está tentando captar. Um observatório infravermelho olhando na direção de algo quente é o equivalente a tentar ouvir um sussurro dentro de uma casa de shows.

Por isso, os instrumentos do Webb operam a aproximadamente 225 graus Celsius negativos. Manter essa temperatura não é detalhe de conforto, é condição de funcionamento. Se o instrumento esquenta, ele deixa de enxergar, e não por estar quebrado, mas porque o próprio calor vira a imagem.

Um escudo do tamanho de uma quadra de tênis

O telescópio Hubble não enxergaria uma pessoa no chão, e o James Webb nem pode apontar para a Terra sem danificar os instrumentos.

A solução de engenharia adotada é tão simples de entender quanto difícil de executar. O Webb carrega um protetor solar com dimensões comparáveis às de uma quadra de tênis.

Esse escudo separa o telescópio de todas as fontes de calor relevantes. Ele bloqueia o Sol, a Terra, a Lua e até o calor irradiado pela própria espaçonave, criando um lado frio e um lado quente permanentes no equipamento.

O arranjo funciona enquanto a orientação for mantida. É por isso que a posição no L2 e a geometria do escudo estão amarradas uma à outra: dali, o telescópio pode olhar para o espaço profundo com todas as fontes quentes atrás dele, sempre. Diferentemente do telescópio Hubble, que fica no meio da luz refletida pela Terra e precisa lidar com isso constantemente, o Webb foi projetado para viver com o Sol permanentemente às costas.

O que aconteceria se ele virasse para o Sol

A pergunta que sempre aparece é por que simplesmente não girar o telescópio por alguns minutos. A resposta é bastante concreta.

Se o Webb apontasse para a Terra, para Vênus ou para Mercúrio, precisaria olhar de volta na direção do Sol, e nessa posição o escudo deixaria de protegê lo. Os instrumentos infravermelhos, feitos para permanecer frios, esquentariam e ficariam efetivamente cegos.

O prejuízo poderia não ser temporário. Segundo a explicação técnica publicada sobre o assunto, é provável que os instrumentos fossem danificados, o que encerraria a missão. Não é uma restrição de calendário nem de prioridade científica: é uma manobra que pode matar o telescópio.

E existe um agravante que separa definitivamente os dois observatórios. O telescópio Hubble foi projetado para receber visitas de astronautas, que ao longo dos anos consertaram, substituíram e melhoraram seus componentes. O Webb foi projetado para não ser reparado, justamente por estar longe demais para qualquer missão de manutenção.

Marte é a fronteira do que o Webb consegue ver

O telescópio Hubble não enxergaria uma pessoa no chão, e o James Webb nem pode apontar para a Terra sem danificar os instrumentos.

A limitação não deixa o Webb cego dentro do Sistema Solar. Ela apenas traça uma linha, e essa linha passa por Marte.

O planeta vermelho é o corpo mais próximo do Sol que o telescópio consegue observar com segurança. As primeiras imagens marcianas do Webb foram captadas pelo instrumento NIRCam em 5 de setembro de 2022.

Da órbita de Marte para fora, o campo está aberto. O telescópio já estudou Júpiter, incluindo os anéis do planeta, Saturno e algumas de suas luas, em imagem feita pela NIRCam em 25 de junho de 2023, além de Urano, Netuno e diversos satélites naturais. Também observa asteroides e objetos do Cinturão de Kuiper, como Plutão.

O critério é sempre o mesmo. Tudo o que está suficientemente longe do brilho solar é observável, e tudo o que fica entre a Terra e o Sol está permanentemente fora de alcance. Não vamos ter, portanto, uma nova imagem da superfície craterada de Mercúrio feita por esse equipamento, nem um retrato da Terra vista de longe.

Por que o telescópio Hubble não fotografaria você no quintal

Agora a outra metade da história, que costuma render teoria da conspiração e não tem mistério nenhum. A pergunta é se o telescópio Hubble, apontado para baixo, veria uma pessoa.

Comecemos pelo que é favorável ao mito. A resolução angular do equipamento é da ordem de um décimo de segundo de arco, e um segundo de arco é a três mil e seiscentos avos de um grau. Da altitude em que ele opera, isso corresponderia, em teoria, a distinguir objetos de aproximadamente 30 centímetros no solo, segundo a Agência Espacial Europeia. É um número impressionante.

Só que teoria e prática se separam aqui. Uma pessoa vista de cima ocupa uma área pequena, e com resolução de 30 centímetros ela não passaria de um borrão de um ou dois pontos na imagem, sem forma reconhecível. E isso no melhor cenário possível.

A velocidade que borra tudo antes de o obturador fechar

O problema decisivo não é o tamanho do que se quer ver, é o movimento de quem está olhando. E ele é grande.

O telescópio Hubble desloca se a cerca de 27 mil quilômetros por hora, o que dá aproximadamente 7,5 quilômetros por segundo. Mesmo uma exposição curtíssima varreria centenas ou milhares de metros de superfície durante o registro, transformando qualquer alvo em um risco alongado.

A alternativa seria girar o telescópio para acompanhar o solo, e aí aparece outra barreira. A velocidade máxima de rotação do equipamento é de cerca de um grau por minuto, ritmo comparável ao do ponteiro dos minutos de um relógio, e mesmo assim os giroscópios provocam vibração que degrada a imagem. O aparelho foi construído para acompanhar objetos praticamente parados no céu, não alvos que passam voando embaixo dele.

Some se a isso a atmosfera. Olhando para baixo, o telescópio teria que atravessar toda a camada de ar, o mesmo obstáculo que ele foi lançado ao espaço para evitar, o que pioraria ainda mais a nitidez real em relação ao número teórico.

E há o argumento final, que é de preservação do equipamento. O brilho da Terra iluminada danificaria os instrumentos, exatamente como a luz do Sol danificaria os do Webb. O problema é o mesmo, apenas em escala diferente.

Duas restrições que não são defeito

Um telescópio que enxerga galáxias formadas logo depois do Big Bang e não pode olhar para o próprio planeta de origem. Outro que distingue detalhes de 30 centímetros em teoria e não conseguiria registrar um ser humano na prática. Nos dois casos, a limitação não é falha de projeto: é consequência direta das escolhas que tornam esses instrumentos capazes de fazer o que fazem.

E você, o que acha dessa troca? Vale abrir mão de olhar para casa em troca de enxergar o começo do Universo, ou faria sentido projetar um equipamento capaz das duas coisas? Você já tinha ouvido dizer que satélites e telescópios espaciais conseguem ler placa de carro ou identificar rosto, e acreditou? E mais: sabendo que o Webb não pode ser consertado por astronauta nenhum, valeu o risco de colocá lo tão longe? Comente sua opinião, principalmente se você é do ramo da astronomia, da óptica ou da fotografia e entende o que resolução e tempo de exposição fazem com uma imagem.

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Hubble


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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