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Arranha-céu perdido de Gaudí em Nova York ganha vida 118 anos depois, torre de 360 metros seria a mais alta do mundo e esconderia salão gigante com réplica da Estátua da Liberdade

Arranha-céu perdido de Gaudí em Nova York ganha vida 118 anos depois, torre de 360 metros seria a mais alta do mundo e esconderia salão gigante com réplica da Estátua da Liberdade

9 min de leitura

Arranha-céu perdido de Gaudí em Nova York ganha vida 118 anos depois, torre de 360 metros seria a mais alta do mundo e esconderia salão gigante com réplica da Estátua da Liberdade

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 28/07/2026 às 10:51

Atualizado em 28/07/2026 às 10:56

Construção

Arranha-céu perdido de Gaudí em Nova York teria 360 metros e um salão de 125 metros com réplica da Estátua da Liberdade. Veja o projeto reconstruído

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O prédio nunca saiu do papel e os desenhos só apareceram em 1956, reconstruídos de memória por um colaborador do arquiteto. Historiadores chegaram a tratar tudo como invenção, até que apareceram cálculos de arco catenário assinados pelo próprio Gaudí.

O Hotel Attraction, arranha-céu perdido que o arquiteto catalão Antoni Gaudí teria projetado em 1908 para a região sul de Manhattan, ganhou uma nova série de visualizações detalhadas, desta vez incluindo os interiores. O trabalho é do jornalista e entusiasta de arquitetura Daniel Coughlin, que reconstruiu digitalmente o edifício e divulgou o resultado no canal dele no YouTube, dedicado a projetos urbanos que nunca foram construídos.

Segundo os registros do projeto, a torre teria aproximadamente 360 metros de altura, ou 1.181 pés, o que a tornaria o edifício mais alto do mundo por décadas, até ser superada pelo Empire State Building nos anos 1930. A peça central seria um salão de cerca de 125 metros de altura ancorado por uma réplica da Estátua da Liberdade de aproximadamente 10 metros, cercada por esculturas dos pais fundadores dos Estados Unidos e por símbolos patrióticos.

O que seria o Hotel Attraction

Arranha-céu perdido de Gaudí em Nova York teria 360 metros e um salão de 125 metros com réplica da Estátua da Liberdade. Veja o projeto reconstruído

O nome engana. Aquilo não era um hotel no sentido convencional, e é justamente esse o ponto que as novas visualizações deixaram evidente.

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Segundo Coughlin, o projeto foi concebido como algo entre hotel, complexo cultural, cidade vertical e catedral secular. As torres menores do conjunto abrigariam apartamentos e residências, enquanto a estrutura central concentraria museus, teatros, galerias, salões cerimoniais e áreas de observação.

A organização espacial seguia uma lógica ascendente e simbólica. Alguns pavimentos subterrâneos foram planejados para cozinhas, garagens, depósitos e serviços essenciais, e o visitante subiria dos espaços práticos e terrenos em direção a ambientes cada vez mais cerimoniais e celestiais.

A configuração geral também é incomum. O conjunto seria formado por um corpo central de planta circular cercado por oito corpos laterais mais baixos, totalizando nove torres, e no ponto mais alto haveria um mirante panorâmico com vista de 360 graus, batizado nos registros como Torre do Espaço.

A dúvida que ronda esse projeto há setenta anos

Aqui está a informação que muda a leitura de tudo e que raramente acompanha as imagens bonitas do edifício.

Não existe certeza documental de que Gaudí tenha de fato desenvolvido esse projeto. A encomenda teria acontecido em maio de 1908, quando dois empresários americanos de identidade desconhecida procuraram o arquiteto na Catalunha. Nenhum dos dois jamais foi identificado, e nenhum discípulo de Gaudí conhecia a existência do projeto americano.

O caso só veio a público em 1956, quase meio século depois e três décadas após a morte do arquiteto, quando o escultor e colaborador Joan Matamala i Flotats publicou um relatório intitulado Quando o Novo Mundo chamou Gaudí. Matamala reconstruiu os desenhos a partir da memória e de um punhado de esboços remanescentes.

A reação inicial foi de descrença. Parte dos historiadores tratou o relato como fabricação. As dúvidas só diminuíram quando Matamala apresentou desenhos assinados pelo próprio Gaudí contendo cálculos de arco catenário, elemento estrutural característico do trabalho dele e tecnicamente sofisticado demais para ser inventado por um imitador.

Pesquisas posteriores reforçaram a plausibilidade por outro caminho, o das semelhanças estilísticas. Um estudo identificou paralelos entre a abóbada do salão dedicado à América e a do Palau Güell, entre os corpos laterais do edifício e a fachada da Casa Milà, e entre o conjunto do hotel e a cripta da Colônia Güell.

Os 360 metros e a corrida pelo topo

Arranha-céu perdido de Gaudí em Nova York teria 360 metros e um salão de 125 metros com réplica da Estátua da Liberdade. Veja o projeto reconstruído

Para entender por que o número impressiona, é preciso olhar o mundo de 1908. Naquele momento, não havia nenhum edifício no planeta acima de 300 metros.

A comparação mais imediata é com a Torre Eiffel, que tinha cerca de 324 metros e era a estrutura mais alta do mundo desde 1889. O arranha-céu perdido de Gaudí superaria a torre parisiense em aproximadamente 36 metros.

Em Manhattan, a diferença seria ainda mais gritante. Os edifícios mais altos da cidade naquela virada de década não chegavam à metade da altura proposta, e a marca de 360 metros só seria batida na cidade mais de vinte anos depois, com a chegada do Chrysler Building, em 1930, e do Empire State Building, em 1931.

Isso significa que, se tivesse saído do papel no prazo previsto, o edifício teria detido o título de mais alto do mundo por cerca de duas décadas. Era uma proposta radical não apenas pela forma, mas pela engenharia envolvida.

O salão de 125 metros com a Estátua da Liberdade

O espaço mais impressionante do projeto, segundo Coughlin, ficava perto do topo e se chamava Salão Tributo à América.

Trata-se de uma câmara vertical de cerca de 410 pés, algo em torno de 125 metros de altura, ancorada por uma réplica da Estátua da Liberdade de aproximadamente 33 pés, ou 10 metros. Ao redor dela haveria esculturas dos pais fundadores dos Estados Unidos, uma águia americana e outros símbolos nacionais.

Para efeito de comparação, esse salão sozinho teria altura equivalente à de um prédio de mais de 40 andares, tudo em um único vão vertical. Na avaliação do autor das visualizações, a escala e a teatralidade fariam o ambiente parecer menos um interior de hotel e mais a entrada de uma catedral secular dedicada à América.

É esse elemento que sugere qual era a intenção real dos encomendantes. Um edifício que coloca uma Estátua da Liberdade em miniatura no coração de sua câmara mais nobre não foi pensado como hospedagem, e sim como monumento nacional em formato de torre.

Os salões que davam a volta ao mundo

Arranha-céu perdido de Gaudí em Nova York teria 360 metros e um salão de 125 metros com réplica da Estátua da Liberdade. Veja o projeto reconstruído

A organização interna seguia uma divisão geográfica que dava nome a cada pavimento nobre, e ela também aparece nos desenhos arquivados.

O acesso se daria por uma das quatro entradas monumentais, levando a um salão de recepção ricamente decorado com aproximadamente 17 metros de altura. Acima dele ficaria o Salão América, no primeiro pavimento.

O andar seguinte abrigaria o Salão Europa, que acumularia as funções de sala de jantar, sala de concertos e teatro, com altos vitrais em arco parabólico e esculturas no teto inspiradas no mito de Europa. Os pavimentos superiores seriam dedicados à Ásia, à Austrália e à África, além de museus, galerias, salas de concerto e áreas de lazer.

A arquitetura interna acompanharia a linguagem característica do autor. Colunas, arcos e tetos se fundiriam uns nos outros em vez de aparecerem como elementos estruturais separados, produzindo um ambiente escultórico e imersivo.

A fachada que ninguém imaginava

Uma das descobertas mais surpreendentes da pesquisa recente diz respeito ao acabamento externo, e ela contraria a imagem que circula na internet há anos.

A maior parte das reconstruções modernas apresenta o edifício como uma torre lisa e clara, quase branca. Segundo o levantamento de Coughlin, porém, o projeto previa revestimento em trencadís, o mosaico cerâmico feito de fragmentos que virou assinatura de Gaudí.

Havia ainda um gradiente cromático planejado. As cores partiriam de verdes e marrons terrosos na base, passariam por vermelhos e tons minerais na parte intermediária e terminariam em prateados e dourados perto do cume.

O significado desse arranjo é explícito. O gradiente simbolizaria uma jornada da terra em direção ao domínio celestial, ideia coerente com a organização vertical do programa interno, que também subia do prático ao cerimonial.

Por que nunca saiu do papel

Arranha-céu perdido de Gaudí em Nova York teria 360 metros e um salão de 125 metros com réplica da Estátua da Liberdade. Veja o projeto reconstruído

As explicações para o abandono do projeto variam conforme a fonte, e nenhuma delas é definitiva.

Uma linha aponta razões práticas. O orçamento necessário seria enorme e o prazo estimado de construção girava em torno de oito anos, o que tornava a proposta pouco realista para a época e para os padrões de investimento em Manhattan.

Outra linha aponta razões pessoais. Há relatos de que Gaudí adoeceu com febre em 1909 e encerrou o envolvimento, e há quem atribua o abandono à dedicação integral dele à Sagrada Família, somada à distância entre os dois continentes.

Existe ainda a hipótese mais simples, que é a de que o projeto nunca passou de estudo preliminar. Sem contrato conhecido, sem cliente identificado e sem terreno definido em Manhattan, é possível que jamais tenha havido viabilidade concreta.

A tentativa de ressuscitar o projeto no Ground Zero

O desenho voltou à cena pública em um momento inesperado e bastante carregado, e essa é uma parte da história que a maioria das matérias ignora.

Depois da destruição das torres do World Trade Center, os desenhos do Hotel Attraction foram propostos como base para a reconstrução do local. Em 2003, um grupo de historiadores da arte submeteu o projeto à competição internacional para o memorial do sítio.

Uma versão modificada dos desenhos, assinada pelo artista Paul Laffoley, ganhou atenção significativa da imprensa na época. A proposta previa um memorial na base e a instalação da escultura conhecida como Esfera, recuperada dos escombros, no centro de uma plataforma de observação no topo.

A candidatura não avançou. Críticas apontaram que as reconstruções tridimensionais que circulavam então davam ao edifício uma aparência futurista excessiva, distante da atemporalidade das obras reais do arquiteto. O prédio também apareceu na ficção, integrando a paisagem de Nova York de um universo paralelo na série de televisão Fringe.

O centenário e o que se comemora agora

O interesse renovado tem data marcada e não é coincidência. O ano de 2026 marca o centenário da morte de Gaudí, que faleceu em 10 de junho de 1926.

Vale registrar que as visualizações de Coughlin não são as únicas do período. Em junho deste ano, o artista Thierry Lechanteur divulgou uma série própria de renderizações digitais do mesmo edifício, também motivada pelo centenário, o que mostra o quanto o projeto voltou a circular.

Enquanto isso, a obra mais famosa do arquiteto segue em construção. A Sagrada Família, iniciada em 1882, ultrapassou 140 anos de obras e recebeu neste ano o braço superior de uma cruz no pináculo da torre de Jesus Cristo, o que levou a estrutura a 565 pés e 11 polegadas, cerca de 172 metros. A conclusão da igreja é esperada para a próxima década.

O que fica de um prédio que nunca existiu

Nove torres, 360 metros, um salão vertical de 125 metros com uma Estátua da Liberdade dentro, uma fachada em mosaico cerâmico que ia do marrom ao dourado e um cliente que ninguém nunca identificou. O arranha-céu perdido de Gaudí é, ao mesmo tempo, um dos projetos não construídos mais fascinantes da história da arquitetura e um dos mais mal documentados.

E você, o que acha dessa história? Um prédio assim mudaria a cara de Nova York para melhor, ou aquela paisagem de torres retas de vidro e aço é justamente o que define a cidade? Você acredita que Gaudí realmente desenhou isso, sabendo que os desenhos só apareceram cinquenta anos depois e reconstruídos de memória? E mais: faz sentido gastar tempo e tecnologia reconstruindo prédios que nunca existiram, ou é nostalgia de um futuro que não aconteceu? Comente sua opinião, principalmente se você é da área de arquitetura ou engenharia e consegue avaliar se aquilo seria construível em 1908.

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Arranha-céu perdido de Gaudí


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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