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As Filipinas despejam concreto e areia para erguer 130 hectares de nova cidade sobre a Baía de Manila, dentro de uma corrida de 22 aterros que somam 6.166 hectares roubados do mar

As Filipinas despejam concreto e areia para erguer 130 hectares de nova cidade sobre a Baía de Manila, dentro de uma corrida de 22 aterros que somam 6.166 hectares roubados do mar

11 min de leitura

As Filipinas despejam concreto e areia para erguer 130 hectares de nova cidade sobre a Baía de Manila, dentro de uma corrida de 22 aterros que somam 6.166 hectares roubados do mar

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 23/07/2026 às 20:36

Atualizado em 23/07/2026 às 20:45

Construção

Nova cidade sobre a Baía de Manila: contrato de US$ 610 milhões ergue 130 hectares. Veja como o aterro é feito e o custo ambiental apontado pelo governo.

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O contrato de US$ 610 milhões foi assinado pelo grupo NMDC, de Abu Dhabi, com a Pasay Harbor City Corporation, e prevê 30 meses de dragagem e aterro. A nova cidade prometida terá sete distritos, mas o projeto integra uma disputa ambiental que já parou obras na baía inteira.

Uma nova cidade litorânea está sendo fabricada sobre a água na Baía de Manila, nas Filipinas, e o contrato que acelera essa construção foi assinado em outubro de 2025. O Grupo NMDC, sediado em Abu Dhabi, fechou com a Pasay Harbor City Corporation um acordo de US$ 610,1 milhões para executar dragagem e aterro em grande escala, cobrindo aproximadamente 130 hectares de terra fabricada em uma ilha. É o primeiro grande projeto da empresa emiradense no país asiático.

O prazo previsto é de 30 meses. O escopo do serviço inclui fornecimento de areia, dragagem e recuperação de terras, instalação de drenos verticais, vibrocompactação e posicionamento de pedras. A promessa da incorporadora é entregar um empreendimento de sete distritos interligados, com tudo acessível em 15 minutos, apresentado como ecológico e sustentável.

O que a empresa contratada vai realmente fazer

Nova cidade sobre a Baía de Manila: contrato de US$ 610 milhões ergue 130 hectares. Veja como o aterro é feito e o custo ambiental apontado pelo governo.

Vale começar pelo trabalho concreto, porque ele explica como se cria terra onde antes havia mar. A lista de serviços descrita no contrato não é aleatória: cada item resolve uma etapa específica do problema de transformar fundo de baía em chão capaz de receber prédio.

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O fornecimento de areia é o insumo básico. Aterro marítimo é, na essência, uma operação de mover milhões de metros cúbicos de sedimento de um lugar para outro. A dragagem retira material do fundo e a recuperação de terras deposita esse volume até que a superfície emerja.

Depois vem a parte que quase ninguém vê e que decide se a obra dura. Os drenos verticais aceleram a saída da água presa no solo depositado, a vibrocompactação adensa esse material para que ele pare de recalcar com o tempo, e o posicionamento das pedras forma a proteção das bordas contra a erosão das ondas. Sem essas três etapas, a nova cidade afundaria lentamente sobre si mesma.

Não é concreto: como se fabrica terra firme sobre o mar

Aqui cabe uma precisão técnica que muda a compreensão do processo. Aterro hidráulico não é despejo de concreto no mar. O material que forma o solo novo é areia e pedra, não cimento. O concreto aparece depois, nas fundações dos edifícios que serão construídos sobre esse terreno, e não na criação do terreno em si.

A diferença importa porque explica a escala do impacto ambiental. Uma obra que precisa de milhões de metros cúbicos de areia tem de tirar esse volume de algum lugar, seja do próprio fundo da baía, seja de jazidas marinhas ou fluviais em outras regiões. Cada metro cúbico movido significa sedimento em suspensão, água turva e organismos deslocados.

O tempo também é parte do método. Depois de depositado, o solo precisa de meses para consolidar antes de suportar carga. É por isso que um contrato como esse tem prazo de 30 meses apenas para a etapa de aterro, muito antes de qualquer prédio da nova cidade subir.

Os 130 hectares são só um pedaço de um projeto maior

Este é o ponto que costuma se perder na tradução das manchetes. Os 130 hectares do contrato com a empresa emiradense correspondem ao escopo daquele serviço específico, e não ao tamanho total do empreendimento.

O projeto completo, registrado nos documentos oficiais filipinos como Pasay Harbor City, prevê 265 hectares de área de praia e de mar aberto, divididos em duas ilhas: a Ilha A, com 210 hectares, e a Ilha B, com 55 hectares. É esse o número que aparece nos registros da autoridade filipina de aterros, a Philippine Reclamation Authority.

O andamento da nova cidade também tem número oficial. Segundo os relatórios da autoridade, o projeto havia recuperado 140 hectares até o fim de 2024, e o balanço referente a dezembro de 2025 indicava que 129,23 hectares da Ilha A ainda permaneciam abaixo do nível da água. É exatamente esse trecho submerso que o novo contrato pretende erguer.

Pasay: a cidade que não tem para onde crescer

A justificativa apresentada para a obra começa na geografia. Pasay é um dos menores municípios da região metropolitana de Manila, com apenas 18 quilômetros quadrados de área. Metade desse território é ocupada pelo complexo aeroportuário.

Sobra pouquíssimo chão para uma cidade que precisa lidar com congestionamento e degradação urbana. Cercada por vizinhos já ocupados, Pasay não tem como se expandir horizontalmente por terra, e a administração municipal optou por usar suas águas municipais para fabricar espaço novo.

A lógica da nova cidade é a mesma que levou Cingapura, Hong Kong, Dubai e a Holanda a avançarem sobre o mar em algum momento de suas histórias. Onde não há terra disponível e o preço do metro quadrado é alto o bastante, fabricar terreno passa a fazer sentido econômico. É uma resposta cara, demorada e ambientalmente pesada, mas é a resposta que várias metrópoles costeiras adotaram.

Quem está por trás da nova cidade

Vale saber quem assina a obra, porque isso raramente aparece na divulgação. A Pasay Harbor City Corporation é uma sociedade formada por três empresas: a Udenna Development Corporation, a Ulticon Builders e a China Harbour Engineering Company.

Do outro lado do contrato está o Grupo NMDC, com sede em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, para quem este é o primeiro grande projeto no mercado filipino. Antes dele, a fase inicial da recuperação de terras contou com a participação da empresa holandesa Royal Boskalis Westminster, uma das maiores dragadoras do mundo.

O arranjo institucional envolve ainda o poder público em duas camadas. O empreendimento é uma parceria entre a prefeitura de Pasay e a incorporadora, e a autoridade nacional de aterros participa da divisão do resultado. Pelos números registrados, o governo nacional deve receber 33,39 hectares de área vendável líquida, a prefeitura de Pasay fica com 22,26 hectares, e 79,50 hectares são destinados a vias e áreas abertas.

Os 6.166 hectares: a corrida inteira da Baía de Manila

A nova cidade de Pasay não está sozinha, e é aí que a história ganha outra dimensão. O conjunto de aterros propostos para a Baía de Manila somaria 6.166 hectares de terra nova, número que consta da avaliação de impacto cumulativo encomendada pelo próprio governo filipino.

Para dar escala: 6.166 hectares equivalem a mais de 61 quilômetros quadrados, área maior que a de muitos municípios brasileiros inteiros. Segundo a avaliação oficial, esse volume de terra fabricada geraria pressão ambiental equivalente a quase quatro novos distritos centrais de negócios ao longo de 30 anos.

O número de projetos varia conforme a fonte e o momento, e vale registrar isso com transparência. A ordem de suspensão assinada pelo presidente filipino em agosto de 2023 alcançou 22 projetos de aterro na Baía de Manila. Entidades de pescadores chegaram a falar em 46 projetos cogitados para a baía, afetando mais de 32 mil hectares de águas de pesca. A contagem depende de quais empreendimentos são considerados em andamento, propostos ou apenas cogitados.

O estudo que o próprio governo encomendou e o que ele encontrou

Este é o material mais importante desta pauta e ele não aparece na divulgação da nova cidade. Em abril de 2025, foi apresentada a avaliação de impacto cumulativo dos aterros da Baía de Manila, um estudo encomendado pelo governo filipino.

As conclusões são duras. Segundo a oceanógrafa física Charina Repollo, que representou a Marine Environment and Resources Foundation na apresentação dos resultados, os aterros bloqueiam o fluxo natural dos rios para dentro da baía, e esse bloqueio desencadeia mudanças físicas, químicas e biológicas em cascata, afetando recursos alimentares, saúde pública e meios de vida.

O estudo também aponta problemas mais imediatos. A alteração da linha de costa enfraquece a movimentação da água, o que resulta em estagnação e acúmulo de sedimentos, poluentes e detritos em determinadas áreas. Foram observadas bactérias patogênicas e metais pesados tóxicos nas proximidades de projetos de aterro, com risco à saúde das comunidades vizinhas. E os manguezais, que protegem a costa de ressacas e servem de berçário para peixes, aparecem entre os ecossistemas ameaçados.

Os pescadores e quem mora na beira

Do lado de quem vive da baía, a conta da nova cidade é direta. A dragagem e o aterro reduzem as áreas de pesca, o que obriga os pescadores a se deslocarem mais longe em busca de captura. Mais distância significa mais tempo, mais combustível e menos renda no fim do dia.

Esse é o argumento central da resistência organizada. A aliança de pescadores conhecida como Pamalakaya vem cobrando do órgão ambiental filipino a suspensão dos projetos, sustentando que a atividade destrói manguezais e aterra viveiros de peixe. Protestos fluviais de pescadores de várias cidades da região já foram realizados diante de canteiros de aterro na própria Pasay.

Há ainda a questão urbana. Grupos de moradores de áreas costeiras pobres de Manila afirmam que dezenas de milhares de pessoas correm risco de perder casa e trabalho com o avanço dos aterros, e apontam agravamento das enchentes como consequência. O raciocínio técnico por trás dessa preocupação é simples: terra nova mais alta que a cidade existente pode funcionar como uma barreira que impede a água da chuva de escoar para o mar.

A suspensão de 2023 e por que Pasay seguiu em frente

A disputa chegou ao ponto de parar tudo. Em agosto de 2023, o presidente Ferdinand Marcos Jr. determinou a suspensão de todos os 22 projetos de aterro da Baía de Manila para revisão de conformidade com a regulação ambiental, enquanto a avaliação de impacto cumulativo era elaborada.

A pausa não durou para todos, e a nova cidade de Pasay foi uma das exceções. Em novembro do mesmo ano, a autoridade filipina de aterros aprovou a retomada de dois projetos em Pasay, entre eles justamente a Pasay Harbor City, de 265 hectares, e um empreendimento vizinho de 360 hectares de outro grupo. A justificativa oficial foi que, após avaliação com o órgão ambiental, os projetos foram considerados em conformidade com as condições do certificado ambiental e da liberação de área.

A decisão foi comemorada por um lado e contestada pelo outro, e o desenho atual da baía reflete isso: alguns aterros parados, outros correndo. Entender essa separação é o que evita a confusão comum de achar que todos os projetos foram liberados ou que todos continuam travados.

O argumento econômico do outro lado da mesa

Não seria honesto apresentar apenas a crítica, porque o lado favorável ao aterro tem números próprios e eles pesam no debate filipino. A conta apresentada por defensores dos projetos é de perdas bilionárias caso as obras não avancem.

Durante audiência no parlamento filipino, um deputado que conduziu as discussões afirmou que o país deixaria de ganhar centenas de bilhões de pesos em cinco anos com a manutenção das suspensões. A prefeitura de Pasay projeta arrecadação tributária expressiva ao longo de décadas e fala em geração de empregos na casa dos milhões.

O argumento de fundo é o de sempre em obra de grande porte, e vale para qualquer nova cidade fabricada sobre a água: desenvolvimento econômico contra custo ambiental. A diferença, neste caso, é que o custo ambiental não é hipótese levantada por ativistas, e sim conclusão de um estudo encomendado pelo próprio governo que autoriza os projetos.

A promessa verde do empreendimento

A incorporadora responde às críticas com dois componentes de sustentabilidade incorporados ao projeto da nova cidade, batizados de Infraestrutura Azul e Infraestrutura Verde.

A primeira prevê o plantio de manguezais, além da construção de vias e áreas úmidas com paisagismo, com o objetivo declarado de promover a biodiversidade. A segunda concentra-se na criação de áreas verdes, com árvores e plantas circundando o empreendimento para atrair pássaros e outros animais silvestres.

Cabe ao leitor avaliar o peso dessa contrapartida. Plantar manguezal em terreno fabricado não é o mesmo que preservar o manguezal que já existia, e a avaliação de impacto oficial trata a perda desses ecossistemas como um dos danos centrais da corrida de aterros. O compromisso ambiental do projeto é real como plano, e sua eficácia só poderá ser medida depois de executado e monitorado.

Os prazos que não fecham

Encerro com uma observação que a redação precisa levar em conta antes de publicar qualquer data. A comunicação da incorporadora afirma que a nova cidade emergirá acima da água em 2025 e será concluída em 2028.

Essa promessa não fecha com o restante das informações disponíveis. O contrato de dragagem e aterro foi assinado em outubro de 2025, com prazo de 30 meses, o que aponta para meados de 2028 apenas para essa etapa. E o balanço oficial de dezembro de 2025 registrava quase 130 hectares da Ilha A ainda submersos.

A explicação mais provável é que o trecho citado seja material de divulgação escrito antes, reproduzido sem atualização. É um lembrete útil sobre como funciona a comunicação de megaprojetos: a data que aparece no folheto raramente sobrevive ao cronograma real da obra.

O retrato final é de um projeto que carrega, ao mesmo tempo, uma justificativa urbana defensável e um custo ambiental documentado pelo próprio Estado que o autoriza. Pasay tem 18 quilômetros quadrados, metade tomada por aeroporto, e escolheu fabricar chão sobre o mar para abrigar a nova cidade. O contrato de US$ 610,1 milhões com o grupo emiradense cobre 130 hectares dentro de um empreendimento de 265, que por sua vez integra uma corrida de aterros somando 6.166 hectares na Baía de Manila. Do outro lado da conta estão pescadores empurrados para mais longe, manguezais ameaçados, risco de enchente e um estudo oficial apontando bloqueio do fluxo dos rios e piora na qualidade da água. Areia, dragagem e vibrocompactação resolvem o problema de engenharia. O resto continua em disputa.

E você, acha que fabricar terra sobre o mar é solução legítima para cidades sem espaço ou é empurrar o problema para o futuro? Se fosse na costa brasileira, você apoiaria um projeto desses na sua cidade? Conta nos comentários o que pesaria mais para você: os empregos e a arrecadação prometidos ou o impacto sobre a pesca e o risco de enchente.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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