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Balsa de 80 metros com 65 profissionais a bordo mergulha 1.116 km de fibra óptica no fundo do Rio Madeira para levar internet a 700 mil pessoas na Amazônia
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 28/07/2026 às 00:36
Atualizado em 28/07/2026 às 00:43
Ciência e Tecnologia
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A embarcação tem dormitório climatizado, cozinha industrial, enfermaria com equipe médica de plantão, academia, laboratório de testes e estação própria de tratamento de esgoto. As expedições duram de 15 a 20 dias, e três geradores mantêm tudo funcionando 24 horas por dia.
O lançamento dos cabos da Infovia 05 começou em 21 de julho de 2026 no leito do Rio Madeira, em operação que vai ligar os estados do Amazonas e de Rondônia. O projeto tem 1.326 quilômetros de extensão total, sendo 1.116 quilômetros de cabos de fibra óptica instalados dentro do rio e outros 210 quilômetros de infraestrutura em terra, segundo o Ministério das Comunicações.
A iniciativa integra o programa Norte Conectado, coordenado pelo Ministério das Comunicações em parceria com a Anatel e executado pela Entidade Administradora da Faixa, a EAF. Quando concluída, a rota deve levar conectividade a cerca de 700 mil pessoas, atendendo hospitais regionais, escolas públicas, órgãos do Judiciário e unidades das Forças Armadas em uma das regiões mais isoladas do país.
A balsa que funciona como cidade flutuante
A embarcação usada na operação não é barco de apoio no sentido comum. Ela mede 80 metros de comprimento por 24,5 metros de largura, é revestida em aço e abriga 65 profissionais durante expedições que duram entre 15 e 20 dias.
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A estrutura interna explica por que essa autonomia é necessária. Há dormitórios climatizados, cozinha industrial, restaurante, enfermaria com equipe médica de plantão, área de convivência com sala de musculação e jogos, e um laboratório climatizado para testar os cabos antes do lançamento.
Três geradores mantêm a operação funcionando 24 horas por dia. A plataforma também conta com estação própria de tratamento de efluentes, o que permite o descarte adequado dos resíduos gerados a bordo, detalhe relevante em uma operação que passa semanas dentro de área de floresta.
A composição da equipe mostra que o trabalho vai além de eletrônica e cabo. A bordo há engenheiros, técnicos, mergulhadores, geofísicos, biólogos, enfermeiros, cozinheiros e equipes de logística, todos necessários para uma missão que precisa se sustentar sozinha no meio do rio.
Como o cabo desce até 18 metros de profundidade
O equipamento responsável pelo lançamento tem nome próprio e função específica. Chama-se Line Cable Engine, ou LCE, e controla a velocidade e a tensão com que a fibra óptica desce até o leito.
A profundidade de instalação pode chegar a 18 metros. Antes de qualquer lançamento, os 24 pares de fibra óptica passam por testes no laboratório instalado na própria balsa, para que uma falha não seja descoberta só depois de o cabo estar no fundo.
Depois do lançamento, entra a etapa manual. Mergulhadores fazem inspeções e a fixação dos cabos nos pontos de conexão das cidades atendidas, trabalho que exige presença humana debaixo d’água em um rio de correnteza forte e visibilidade baixa.
O rio, aliás, tem características que tornam a obra mais difícil do que parece. O Madeira é o principal afluente do Amazonas em volume, carrega enorme quantidade de sedimento e apresenta variação sazonal de nível bastante acentuada, o que impõe uma janela de trabalho e exige projeto de proteção do cabo contra assoreamento e movimentação de fundo.
Por que o rio em vez de abrir estrada
A escolha da calha do rio como rota não é apenas logística. Ela é apresentada pelo governo como decisão ambiental, e o argumento tem lógica direta.
Instalar fibra óptica por via terrestre na Amazônia exigiria abrir estradas ou corredores de servidão em meio à floresta, o que significa supressão de vegetação em faixa contínua por centenas de quilômetros. Usar o leito do rio elimina essa necessidade, e a estratégia é classificada tecnicamente como Solução Baseada na Natureza.
O número que o Ministério das Comunicações usa para dimensionar essa economia é expressivo. A abordagem evitaria um desmatamento equivalente a cerca de 68 milhões de árvores considerando todo o programa Norte Conectado.
Vale registrar que esse é um cálculo de impacto evitado, apresentado pelo próprio órgão responsável pela obra, e não uma medição independente. Também é preciso lembrar que instalação em leito de rio tem impactos próprios, ligados a revolvimento de sedimento e interferência em fauna aquática durante o lançamento, ainda que em escala muito menor que a abertura de corredores terrestres.
De Autazes a Porto Velho: o trajeto
A rota tem começo e fim bem definidos, e eles ajudam a entender o alcance real do projeto.
O ponto de partida é a comunidade de São Raimundo Nonato, no município de Autazes, no Amazonas. O término é Porto Velho, capital de Rondônia. Entre os dois extremos, o traçado acompanha o Rio Madeira por mais de mil quilômetros.
O número de localidades atendidas aparece de formas ligeiramente diferentes nos comunicados. A maior parte dos materiais oficiais fala em nove municípios conectados, enquanto um detalhamento posterior menciona nove localidades distribuídas em sete municípios do Amazonas e de Rondônia. Em qualquer das versões, trata-se de uma faixa de território onde a alternativa hoje é satélite ou nada.
Os 1.116 quilômetros molhados e os 210 em terra firme
Aqui está um detalhe técnico que costuma se perder nas manchetes e que muda a compreensão da obra.
Do total de 1.326 quilômetros da Infovia 05, apenas 1.116 quilômetros correspondem a cabos subfluviais, ou seja, instalados dentro do Rio Madeira. Os outros 210 quilômetros são infraestrutura terrestre, necessária para levar o sinal da margem até os pontos de distribuição nas cidades.
Isso significa que a operação da balsa cobre a maior parte do percurso, mas não a totalidade. Cabo no fundo do rio não conecta ninguém sozinho: ele precisa emergir, encontrar uma estação em terra e se ligar à rede que chega ao usuário final.
A logística que antecedeu o lançamento também dá a dimensão do projeto. Em fevereiro de 2026, a EAF concluiu em Manaus a movimentação de 3.179 quilômetros de fibra destinados às infovias 05, 06 e 08, etapa de transporte, transbordo e preparação que precedeu a instalação propriamente dita.
Quem vai operar e por que a internet não sai de graça
Este é o ponto que mais gera confusão entre leitores, e vale explicar com clareza. A infraestrutura é pública, mas o serviço de internet não será gratuito para o consumidor final.
A rede funcionará no modelo de operador neutro. Na prática, isso significa que a EAF entrega a capacidade de transmissão, e provedores regionais e operadoras alugam essa capacidade para oferecer banda larga a moradores e comércios. O papel do programa é remover o gargalo de infraestrutura, não vender assinatura.
A gestão, operação e manutenção da rede ficarão a cargo de um consórcio formado por chamamento público, com previsão de reunir entre três e doze empresas, sob a liderança de uma delas, conforme explicação do Ministério das Comunicações.
Há ainda uma divisão de capacidade prevista no desenho do projeto. Metade da banda é destinada à administração pública e metade à iniciativa privada, arranjo pensado para dar sustentabilidade financeira à operação sem depender apenas de orçamento público.
O que já foi entregue e o que vem depois
A Infovia 05 não é o primeiro trecho do programa a sair do papel, e o ritmo recente é relevante.
No começo de junho de 2026, o Ministério das Comunicações inaugurou a Infovia 03, que liga Pará e Amapá por cerca de 800 quilômetros de cabos subfluviais. No início de julho foi a vez da Infovia 04, com 1.182 quilômetros de fibra óptica entre a capital de Roraima e Manaus.
A próxima etapa já está definida. Além do Rio Madeira, a fase atual do Norte Conectado prevê lançamentos nos rios Purus e Juruá, mantendo a mesma lógica de usar a hidrografia amazônica como corredor.
O tamanho final do programa é ambicioso. Estão previstas nove infovias, somando aproximadamente 13 mil quilômetros de infraestrutura óptica, com meta de atender cerca de 7,5 milhões de pessoas nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima.
Quem paga a conta
O investimento tem valor conhecido e origem definida. O programa Norte Conectado como um todo trabalha com aporte da ordem de R$ 1,3 bilhão.
A EAF recebeu, após leilão, R$ 1,34 bilhão para a construção de seis infovias. A entidade é a executora das obras, enquanto o Ministério das Comunicações coordena e a Anatel acompanha.
Os responsáveis pelo projeto insistem que o objetivo não é a infraestrutura em si. A CEO da EAF, Gina Marques, afirmou que o que move o projeto é o impacto nas comunidades ribeirinhas e a possibilidade de melhorar a vida dessas populações. Já o coordenador-geral de Projetos de Infraestrutura do Ministério das Comunicações, Ângelo Lorenzo, destacou que a ação amplia a disponibilidade de infraestrutura de conectividade na região.
Existe também um argumento de redundância que raramente aparece. Com a rede pronta, a região passa a ter garantia de continuidade de serviço em caso de falha na infraestrutura terrestre, algo que hoje simplesmente não existe em boa parte daquele território.
O que ainda falta acontecer
Uma balsa de 80 metros, 65 pessoas a bordo, um laboratório flutuante, mergulhadores fixando cabo a 18 metros de profundidade e mais de mil quilômetros de fibra óptica descendo ao leito do maior afluente do Amazonas. A Infovia 05 começou em 21 de julho e ainda vai levar tempo até o primeiro sinal chegar a uma casa.
E você, o que acha desse projeto? Levar fibra óptica pelo fundo dos rios em vez de abrir estrada na floresta é a solução certa para conectar a Amazônia, ou o investimento seria melhor aplicado em satélite, que já funciona hoje? Você confia que a internet vai efetivamente baratear para quem mora nessas cidades, sabendo que a rede será alugada a provedores? E mais: conectividade muda a vida de comunidade ribeirinha ou sem escola, posto de saúde e energia estável o cabo resolve pouco? Comente sua opinião, principalmente se você mora na região Norte ou trabalha com telecomunicações e conhece o tamanho do desafio.
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Fibra óptica na Amazônia
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

