7 min de leitura
Biquíni completa 80 anos após nascer com nome de bomba nuclear, escandalizar autoridades e transformar o Brasil em referência mundial da moda de praia
Escrito por Viviane Alves
Publicado em 24/07/2026 às 00:03
Curiosidades
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Peça criada em Paris por Louis Réard enfrentou proibições, rompeu padrões morais e ganhou novas formas nas praias brasileiras.
Uma pequena peça de roupa lançada em Paris, em julho de 1946, conseguiu transformar profundamente a moda, os costumes e a relação das mulheres com o próprio corpo.
O biquíni completa 80 anos em 2026 depois de atravessar períodos de censura, condenações religiosas e tentativas de proibição em diferentes países.
Criado pelo engenheiro francês Louis Réard, o traje deixou o umbigo feminino exposto e provocou uma reação imediata em uma sociedade acostumada aos maiôs mais fechados.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Décadas depois, o Brasil adotou a peça, reduziu suas modelagens e transformou o chamado biquíni brasileiro em uma referência internacional.
Engenheiro francês cria o menor maiô do mundo
A criação moderna do biquíni foi apresentada por Louis Réard na piscina pública Molitor, em Paris, em julho de 1946.
Réard tinha 50 anos e havia deixado o setor automobilístico para assumir a empresa de lingeries de sua mãe.
O modelo era composto por duas pequenas peças e lembrava mais uma calcinha e um sutiã do que os trajes de banho usados naquele período.
Trajes femininos divididos em duas partes já existiam anteriormente.
O estilista francês Jacques Heim, por exemplo, havia lançado em 1932 um modelo chamado “átomo”, inspirado em suas pequenas dimensões.
A proposta, porém, encontrou resistência entre mulheres que evitavam mostrar a barriga e o umbigo em público.
Réard reduziu ainda mais a quantidade de tecido e apresentou sua invenção como o menor maiô do mundo.
Nome do biquíni surgiu após testes nucleares
O nome escolhido para a peça estava diretamente ligado aos acontecimentos internacionais daquele momento.
Os Estados Unidos realizavam testes com bombas nucleares no Atol de Bikini, localizado nas Ilhas Marshall, no Oceano Pacífico.
Réard acreditava que sua criação provocaria um impacto semelhante ao de uma explosão sobre a moda e os costumes.
Nenhuma modelo profissional aceitou usar o traje durante a apresentação pública.
O criador contratou então a dançarina Micheline Bernardini, que realizava apresentações eróticas no Casino de Paris.
Bernardini entrou para a história ao aparecer usando o biquíni diante do público na piscina Molitor.
Peça causa escândalo e enfrenta proibições
O lançamento provocou forte reação de autoridades, grupos religiosos e setores conservadores da imprensa.
O biquíni foi tratado como uma afronta aos códigos de moralidade e às regras sociais que controlavam a exposição do corpo feminino.
Países europeus chegaram a restringir ou proibir o uso da peça em praias públicas.
Policiais também multaram mulheres que usavam biquínis em praias italianas até o final da década de 1950.
A primeira edição do Miss Mundo, realizada em 1951, ampliou ainda mais a polêmica.
A modelo sueca Kerstin Håkansson recebeu a coroa vestindo o pequeno traje de banho.
O papa Pio XII condenou a peça e a classificou como pecaminosa e contrária aos padrões cristãos de modéstia.
Cinema e celebridades impulsionam a novidade
Apesar das críticas, o biquíni começou a conquistar espaço entre artistas e celebridades.
A atriz Brigitte Bardot apareceu usando a peça em praias da Riviera Francesa durante os anos 1950.
Sua participação no filme E Deus Criou a Mulher, lançado em 1956, ajudou a levar o traje para o cinema e para a cultura popular.
A atriz suíça Ursula Andress também marcou essa trajetória em 1962.
Ela surgiu com um biquíni branco no filme 007 Contra o Satânico Dr. No, criando uma das imagens mais conhecidas da história do cinema.
Durante os anos 1960, a revolução sexual transformou o significado da peça.
O biquíni deixou de representar somente escândalo e passou a ser relacionado à liberdade, à juventude e à mudança dos costumes.
Brasil vira o território natural do biquíni
O biquíni encontrou no Brasil um ambiente favorável para sua consolidação.
O clima tropical, as praias movimentadas e o lazer ao ar livre ajudaram a inserir a peça no cotidiano.
Atrizes, vedetes, modelos e musas das praias cariocas ampliaram sua popularidade durante as décadas de 1950 e 1960.
Carmem Verônica e Angelita Martinez chamavam atenção ao usar biquínis nas areias de Copacabana.
As fotografias das artistas contribuíram para transformar o traje em parte da cultura brasileira de praia.
Marta Rocha também usou uma roupa de duas peças durante o concurso que a elegeu Miss Brasil, em 1954.
Alemã antecipou tendência nas praias do Rio
Antes da consolidação do modelo francês no país, Erna Miriam Etz Kaufmann já utilizava uma peça semelhante no Rio de Janeiro.
A estilista e pintora alemã chegou ao Brasil durante os anos 1930 após fugir do nazismo.
Erna frequentava o Arpoador usando um maiô dividido em duas partes, produzido por ela mesma.
O traje era maior do que os modelos lançados posteriormente, mas apresentava uma estrutura semelhante.
O livro O Biquíni Made in Brazil, da jornalista Lilian Pacce, registra Erna usando a peça criada na França no Rio, em 1948.
Recomendado para você
Ciência e Tecnologia
Google leva multa bilionária da União Europeia por favorecer serviços próprios na Busca e limitar ofertas mais baratas no Google Play
Comissão Europeia aplica punição de € 890 milhões, exige mudanças em 60 dias e reconhece avanços que podem evitar novas sanções.
O Google recebeu uma multa de € 890 milhões, equivalente…
Viviane Alves
0
Leila Diniz desafia os padrões da época
A atriz Leila Diniz protagonizou um dos episódios mais marcantes da relação brasileira com o biquíni.
Leila apareceu grávida usando a peça na praia e enfrentou os padrões morais impostos às mulheres naquele período.
A ex-modelo Helô Pinheiro, eternizada como a Garota de Ipanema, também fortaleceu essa associação.
Turismo, cinema, televisão e publicidade difundiram a imagem das praias brasileiras para outros países.
O biquíni passou a representar o verão, o comportamento carioca e a moda de praia nacional.
Jânio Quadros tenta limitar o uso da peça
A popularização do traje também encontrou resistência dentro do Brasil.
O então presidente Jânio Quadros adotou medidas conservadoras em 1961 e proibiu o uso do biquíni em concursos de beleza.
A decisão revelou uma contradição daquele momento histórico.
O traje se fortalecia como símbolo de modernidade e liberdade feminina.
O Estado, porém, ainda tentava controlar a exposição do corpo e impor padrões morais à sociedade.
Modelagens brasileiras conquistam o mundo
O Brasil não apenas incorporou o biquíni à sua cultura.
Marcas, estilistas e consumidoras também modificaram seus cortes, tamanhos e amarrações.
Modelos menores ganharam espaço a partir dos anos 1970.
Laterais estreitas, peças cavadas e diferentes formas de bronzeamento passaram a definir a estética das praias brasileiras.
O modelo asa-delta se destacou durante os anos 1980.
Suas laterais altas criavam um efeito visual de alongamento da silhueta e posteriormente chegaram às passarelas internacionais.
Nos anos 2000, o chamado biquíni brasileiro passou a ser reconhecido como uma categoria própria.
Modelagens pequenas, amarrações laterais e cortes cavados tornaram-se produtos valorizados nos Estados Unidos e na Europa.
Liberdade feminina ou sexualização?
O biquíni permanece no centro de uma disputa entre liberdade e controle do corpo feminino.
Muitas mulheres enxergam a peça como uma forma de ocupar espaços públicos, expressar identidade e exercer escolhas pessoais.
A mesma imagem, entretanto, também foi utilizada para criar um estereótipo excessivamente sensualizado da mulher brasileira.
Campanhas recentes passaram a valorizar inclusão, conforto, representatividade e diferentes tipos de corpos.
A ideia de que todo corpo pode ser considerado um corpo de praia ganhou força durante os anos 2010.
O que o futuro reserva para o biquíni?
O biquíni atravessou oito décadas acompanhando transformações culturais, sociais e estéticas.
Modelos esportivos, artesanais, minimalistas, cavados e voltados ao lazer convivem atualmente no mercado.
A peça deixou de seguir apenas uma tendência predominante.
Liberdade, conforto e diversidade passaram a ocupar posições importantes dentro da moda de praia.
O traje nasceu com um nome inspirado em testes nucleares e causou uma verdadeira explosão nos costumes.
O Brasil, por sua vez, transformou a peça em um dos maiores símbolos mundiais de praia, comportamento e identidade cultural.
Você acredita que o biquíni representa principalmente liberdade e autonomia ou ainda reforça padrões e cobranças sobre o corpo feminino? Deixe sua opinião!
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Viviane Alves.

