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Cabelos atribuídos a Beethoven passam por sequenciamento genético e revelam risco de doença no fígado, hepatite B e segredo familiar, mas uma das mechas mais famosas guardadas por quase 200 anos nem era dele e pertencia a uma mulher

Cabelos atribuídos a Beethoven passam por sequenciamento genético e revelam risco de doença no fígado, hepatite B e segredo familiar, mas uma das mechas mais famosas guardadas por quase 200 anos nem era dele e pertencia a uma mulher

7 min de leitura

Cabelos atribuídos a Beethoven passam por sequenciamento genético e revelam risco de doença no fígado, hepatite B e segredo familiar, mas uma das mechas mais famosas guardadas por quase 200 anos nem era dele e pertencia a uma mulher

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 23/07/2026 às 09:21

Ciência e Tecnologia

Análise forense de amostras de cabelo

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Pesquisadores analisaram oito mechas de cabelo atribuídas a Ludwig van Beethoven e conseguiram sequenciar o genoma do compositor a partir de cinco amostras consideradas autênticas. O estudo revelou predisposição genética para doença hepática, sinais de infecção por hepatite B antes da morte e uma surpresa histórica: a famosa mecha Hiller, usada em estudos anteriores sobre chumbo, não pertencia a Beethoven, mas a uma mulher.

Ludwig van Beethoven morreu em 1827, aos 56 anos, depois de sofrer durante décadas com perda auditiva progressiva, problemas gastrointestinais e uma doença hepática grave. Quase 200 anos depois, cientistas decidiram investigar parte desse mistério usando DNA preservado em mechas de cabelo atribuídas ao compositor.

O estudo, publicado na revista científica Current Biology, analisou oito mechas independentes atribuídas a Beethoven. Cinco delas apresentaram compatibilidade genética entre si e foram consideradas quase certamente autênticas pelos pesquisadores.

A análise revelou predisposição genética para doença no fígado, evidências de infecção por hepatite B e uma descoberta inesperada sobre a árvore familiar do compositor. Segundo a Universidade de Cambridge, uma das mechas mais famosas, conhecida como Hiller Lock, não era de Beethoven, mas de uma mulher.

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O estudo analisou oito mechas atribuídas a Beethoven

A pesquisa examinou oito amostras de cabelo associadas historicamente a Beethoven. O objetivo era autenticar o material, sequenciar o genoma do compositor e buscar pistas sobre doenças que marcaram sua vida.

Segundo o artigo publicado na Current Biology, cinco mechas vinham de um mesmo homem europeu e foram consideradas compatíveis com a origem documentada de Beethoven. Essas amostras permitiram avançar para uma análise genômica mais profunda.

A amostra mais bem preservada foi a chamada Stumpff Lock. A partir dela, os cientistas sequenciaram o genoma nuclear de Beethoven com cobertura média de 24 vezes, um nível suficiente para investigar ancestralidade, riscos genéticos e sinais de patógenos antigos.

A mecha mais famosa não era de Beethoven

A maior virada do estudo envolveu a chamada Hiller Lock, uma mecha tradicionalmente associada ao compositor e supostamente cortada no dia seguinte à sua morte. Ela já havia sido usada em análises anteriores que reforçaram hipóteses sobre intoxicação por chumbo.

CRÉDITO: KEVIN BROWN / AMERICAN BEETHOVEN SOCIETY

O novo sequenciamento mostrou que essa mecha não pertencia a Beethoven. De acordo com a Universidade de Cambridge, o material veio de uma mulher, não do compositor alemão.

Essa descoberta enfraquece conclusões antigas baseadas apenas nessa amostra. Como explicou o Beethoven-Haus Bonn, análises anteriores feitas exclusivamente sobre a Hiller Lock não podem mais ser aplicadas diretamente a Beethoven.

Sequenciamento revelou risco genético para doença hepática

O estudo encontrou em Beethoven uma predisposição genética relevante para doença no fígado. A análise identificou variantes associadas a maior risco de problemas hepáticos progressivos.

De acordo com o repositório da Universidade de Cambridge, Beethoven era homozigoto para uma variante no gene PNPLA3, fortemente associada a doença hepática progressiva. Também apresentava variantes no gene HFE, relacionado ao metabolismo do ferro.

Esses dados não provam sozinhos a causa da morte. Eles indicam que Beethoven possuía fatores genéticos que poderiam aumentar a vulnerabilidade do fígado, especialmente quando combinados com outros elementos de risco.

Hepatite B apareceu no material genético

Além da predisposição hereditária, os pesquisadores encontraram evidências de infecção por hepatite B. O vírus foi detectado em análises metagenômicas feitas a partir das amostras consideradas autênticas.

Segundo o registro do Max Planck, os dados indicam que Beethoven teve infecção por hepatite B durante pelo menos os meses anteriores à morte.

Essa informação é importante porque a hepatite B pode provocar inflamação crônica no fígado e agravar quadros hepáticos. No caso de Beethoven, os pesquisadores apontam que a infecção pode ter se somado à predisposição genética e ao consumo de álcool.

Álcool pode ter agravado o quadro do compositor

Relatos históricos indicam que Beethoven consumia álcool regularmente, embora a quantidade exata continue sendo motivo de debate. O estudo genético não mede diretamente quanto ele bebia.

A Universidade de Cambridge afirmou que a combinação entre predisposição genética, possível consumo de álcool e infecção por hepatite B oferece uma explicação plausível para a doença hepática grave do compositor.

Ainda assim, os autores não afirmam que o álcool sozinho matou Beethoven. O ponto central é que o fígado do compositor reunia múltiplos fatores de risco, o que torna a causa da morte mais complexa do que uma explicação única.

DNA não explicou a surdez de Beethoven

Beethoven começou a perder a audição ainda jovem e, com o tempo, tornou-se quase completamente surdo. Esse sempre foi um dos maiores mistérios médicos associados ao compositor.

Mesmo com o sequenciamento genético, os cientistas não encontraram uma explicação definitiva para a surdez. O artigo da Current Biology afirma que o estudo não conseguiu identificar uma causa genética para os problemas auditivos.

O mesmo vale para as queixas gastrointestinais crônicas. O DNA trouxe pistas importantes sobre o fígado, mas não resolveu todos os problemas de saúde descritos em cartas e relatos históricos.

Segredo familiar apareceu no cromossomo Y

O estudo também comparou o cromossomo Y de Beethoven com o de homens modernos que carregam o sobrenome Beethoven e descendem da linhagem paterna documentada da família.

A análise revelou uma incompatibilidade entre o cromossomo Y do compositor e o dos cinco parentes modernos estudados. Segundo a Universidade de Cambridge, isso indica um evento de paternidade extraconjugal em algum ponto da linhagem paterna.

Esse evento teria ocorrido entre a concepção de Hendrik van Beethoven, no século XVI, e a de Ludwig van Beethoven, em 1770. O estudo não identifica em qual geração isso aconteceu.

Resultado mudou estudos anteriores sobre chumbo

Durante anos, uma das hipóteses mais populares sobre a saúde de Beethoven envolvia intoxicação por chumbo. Parte dessa narrativa foi construída a partir de análises feitas na Hiller Lock.

Como essa mecha agora foi identificada como pertencente a uma mulher, os resultados baseados exclusivamente nela não podem ser usados como evidência direta sobre o corpo de Beethoven. O Max Planck destacou essa consequência ao divulgar o estudo.

Isso não significa que toda investigação sobre chumbo esteja encerrada. Significa apenas que uma das amostras mais famosas, usada para sustentar essa teoria, não representava geneticamente o compositor.

Estudo usou cabelo porque ossos não estavam disponíveis

O trabalho não analisou restos ósseos diretamente associados a Beethoven. Os pesquisadores recorreram a mechas preservadas em coleções públicas e privadas, muitas delas acompanhadas por documentos históricos de procedência.

A autenticação genética foi decisiva para separar amostras compatíveis de materiais incorretamente atribuídos ao compositor. O artigo da Current Biology informa que cinco das oito mechas analisadas pertenciam ao mesmo homem europeu.

Esse procedimento mostra como a paleogenômica pode corrigir erros acumulados em coleções históricas. Um objeto guardado por décadas com uma atribuição famosa pode perder completamente seu valor biográfico quando passa por teste genético.

Pesquisa não cravou uma causa única para a morte

Beethoven morreu em Viena em 26 de março de 1827. Documentos históricos descrevem sintomas compatíveis com doença hepática avançada, mas a medicina da época não tinha os recursos necessários para um diagnóstico moderno.

O novo estudo reforça que o compositor tinha predisposição genética para problemas no fígado e também evidências de infecção por hepatite B. Esses fatores podem ter contribuído para a doença final.

Mesmo assim, a causa exata da morte não foi fechada de forma absoluta. O resultado mais seguro é que a doença hepática de Beethoven provavelmente envolveu uma combinação de risco genético, infecção viral e fatores ambientais.

Genética reabriu um caso histórico de quase 200 anos

O caso mostra como objetos preservados por gerações podem ganhar novas interpretações quando analisados com tecnologias modernas. Uma simples mecha de cabelo passou a revelar dados sobre saúde, ancestralidade e erros de atribuição histórica.

A descoberta mais forte não foi apenas encontrar DNA de Beethoven. Foi separar o que realmente vinha dele do que havia sido associado ao compositor por tradição, documentação incompleta ou erro histórico.

Quase dois séculos após sua morte, Beethoven continua cercado por perguntas. O genoma não explicou todos os mistérios, mas mostrou que a história médica do compositor era mais complexa do que as teorias antigas sugeriam.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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