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Casal levantou o assoalho da casa da família apenas para colocar isolamento térmico e acabou desenterrando o passado, no chão de terra havia pedras alinhadas, uma conta de vidro que o marido jurou ser peça de brinquedo e um machado de ferro que revelou que todos dormiam havia mais de um século em cima de uma sepultura da Era Viking

Casal levantou o assoalho da casa da família apenas para colocar isolamento térmico e acabou desenterrando o passado, no chão de terra havia pedras alinhadas, uma conta de vidro que o marido jurou ser peça de brinquedo e um machado de ferro que revelou que todos dormiam havia mais de um século em cima de uma sepultura da Era Viking

7 min de leitura

Casal levantou o assoalho da casa da família apenas para colocar isolamento térmico e acabou desenterrando o passado, no chão de terra havia pedras alinhadas, uma conta de vidro que o marido jurou ser peça de brinquedo e um machado de ferro que revelou que todos dormiam havia mais de um século em cima de uma sepultura da Era Viking

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 22/07/2026 às 20:00

Ciência e Tecnologia

Ao reformar a casa da família perto de Bodø, no norte da Noruega, um casal encontrou sob o assoalho uma conta de vidro azul-escuro e um machado datado entre os anos 950 e 1050

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Ao reformar a casa da família perto de Bodø, no norte da Noruega, um casal encontrou sob o assoalho uma conta de vidro azul-escuro e um machado datado entre os anos 950 e 1050. O caso foi divulgado em maio de 2020 e seria o primeiro registro de sepultura viking sob uma residência.

A reforma era simples e tinha objetivo prático: instalar isolamento térmico embaixo do assoalho. O que o casal norueguês não esperava era desenterrar uma sepultura da Era Viking debaixo da própria sala, perto de Bodø, no norte da Noruega, segundo reportagem publicada pela revista Forbes. A descoberta veio a público em maio de 2020.

Os primeiros sinais foram fáceis de ignorar. Depois de retirar o assoalho e um pouco de areia, eles encontraram várias pedras no chão de terra e, ao continuar cavando, viram algo brilhando à luz um objeto pequeno e redondo que parecia peça de brinquedo. Era uma conta de vidro azul-escuro com cerca de mil anos.

A casa que ninguém tinha aberto desde 1914

Quando o casal removeu o piso, começaram a encontrar pedras e pedaços de ferro. Os arqueólogos acreditam que sejam da Era Viking.
Condado de Nordland

O detalhe que transformou a curiosidade em suspeita foi a idade da construção. A casa foi erguida em 1914 pelo avô da moradora, Mariann Kristiansen, e o piso nunca havia sido levantado desde então.

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Isso eliminou a explicação mais óbvia. Se o assoalho estava fechado havia mais de um século, nenhum brinquedo poderia ter caído ali depois da construção, o que descartou a hipótese inicial.

A conta da matemática é o que dá dimensão ao caso. Entre a construção da casa e a descoberta passaram-se 106 anos, período em que gerações da mesma família viveram sobre o achado sem saber.

A peça que parecia roda de carrinho

Uma conta de vidro estava entre os primeiros objetos descobertos pelo casal no norte da Noruega.
Condado de Nordland

O primeiro objeto recolhido não tinha aparência de tesouro arqueológico. A avaliação inicial foi de que se tratava da roda de um carrinho de brinquedo, conclusão razoável para um objeto pequeno, redondo e furado no meio.

A análise mostrou outra coisa. O item era uma conta de vidro azul-escuro, tipo de adorno comum em contextos funerários e de uso pessoal no período.

Contas de vidro têm valor específico para a arqueologia. Elas ajudam a datar e a situar o contexto de um sítio, já que a técnica de fabricação e a cor variam conforme a época e a rota de comércio.

O machado que mudou tudo

O machado e a pérola de vidro, possivelmente da Era Viking, encontrados pelo casal

O segundo achado tirou qualquer dúvida sobre a natureza do local. O casal encontrou uma grande cabeça de machado de ferro, além de outros objetos do mesmo material.

É esse item que fixa a datação da sepultura. O machado foi datado entre os anos 950 e 1050, período correspondente ao final da Era Viking.

Os ossos foram quebrados. Imagem: A Universidade Ártica da Noruega

O tipo de objeto também informa sobre o enterro. Armas e ferramentas depositadas junto ao corpo são características de sepultamentos daquele período, prática que ajuda a identificar o contexto mesmo sem ossos preservados.

As pedras que não estavam ali por acaso

O elemento mais discreto do achado foi o primeiro a aparecer. As pedras encontradas no chão de terra formavam a parte superior do que os arqueólogos interpretam como um túmulo de pedras.

Esse tipo de estrutura tem nome e função. Amontoados ou arranjos de pedra marcando sepulturas são comuns no norte da Europa, servindo tanto para proteger o enterro quanto para sinalizar sua existência na paisagem.

Por isso o alinhamento chamou atenção antes mesmo dos objetos. Pedras dispostas de forma regular sob um piso não são acidente geológico, e foi essa estranheza que levou o casal a continuar cavando.

O que a lei norueguesa determina

A partir da descoberta, o caso deixou de ser assunto doméstico. O casal comunicou a autoridade do condado de Nordland, responsável pelo patrimônio cultural, em vez de seguir com a obra.

A legislação do país é bastante objetiva nesse ponto. Pela lei norueguesa, monumentos culturais com vestígios de atividade humana anteriores a 1537 são automaticamente preservados, sem necessidade de processo de tombamento.

Essa data não é arbitrária. O ano de 1537 marca a Reforma na Noruega, usado como divisor entre o período medieval e o moderno na proteção do patrimônio local. No Brasil, sítios arqueológicos também são bens protegidos, sob responsabilidade do Iphan, e achados fortuitos devem ser comunicados.

A resposta veio em um dia

A reação das autoridades foi rápida. Especialistas do museu de Tromsø visitaram a casa no dia seguinte ao comunicado.

Em seguida veio o trabalho de campo. Arqueólogos iniciaram uma escavação completa do que acreditam ser uma sepultura da Era Viking, sob o piso da residência.

Os objetos deixaram a casa para análise. A conta de vidro e as peças de ferro foram levadas para a Universidade de Tromsø, no norte do país, para estudos adicionais.

O que dizem os arqueólogos

O responsável pela avaliação inicial trabalha no órgão de patrimônio do condado. O arqueólogo Martinus Hauglid participou da análise do material encontrado.

A leitura dele situa o achado em um momento específico da história norueguesa. Segundo o arqueólogo, as contas de vidro e os objetos de ferro provavelmente datam do final da Era Viking, quando o país se converteu ao cristianismo e se unificou em um único reino.

Ele descreveu o trabalho em andamento. “Atualmente, um grupo de arqueólogos de Tromsø está realizando um levantamento e levará todos os achados para o norte”, afirmou.

Por que este caso é diferente dos outros

Sepulturas vikings não são exatamente raras no país. Locais de sepultamento desse período são encontrados com alguma frequência na Noruega, em campos, encostas e áreas de obra.

O que torna o caso incomum é o endereço. Este seria o primeiro exemplo registrado de uma sepultura viking encontrada sob uma casa, e não em terreno aberto.

A explicação mais provável é banal. Quem construiu em 1914 provavelmente escolheu um ponto elevado, seco e já aplainado por pedras, sem imaginar o que havia embaixo.

O que significa “final da Era Viking”

A janela de datação do machado corresponde a um período de transformação. Entre 950 e 1050, a Noruega passou da religião nórdica tradicional ao cristianismo e caminhou para a unificação política.

Isso torna sepulturas desse recorte especialmente informativas. Enterros com objetos são característicos da prática pré-cristã, e a presença deles ajuda a marcar o momento da transição em cada região.

A localização também importa nesse cálculo. O norte da Noruega ficava distante dos centros de poder do sul, onde as mudanças religiosas e políticas costumavam chegar primeiro.

Outras descobertas no mesmo período

O caso não foi um episódio isolado no noticiário arqueológico norueguês. Um raro exemplar de jogo de tabuleiro de estilo romano, datado da Era Viking, foi encontrado em Ytre Fosse, ao norte de Bergen.

Houve também achados ligados ao comércio antigo. Uma rara moeda romana apareceu na ilha de Dønna, no norte do país, e outras peças de jogo do mesmo período foram localizadas em Lindisfarne, na costa nordeste da Inglaterra.

O degelo revelou outro conjunto importante. O recuo de uma geleira expôs a extensão da passagem de montanha de Lendbreen, rota comercial usada da época romana ao fim da Idade Média, com fragmentos de roupas, trenós e marcos de pedra.

Uma reforma para colocar isolamento térmico, umas pedras estranhas no chão de terra e uma continha azul confundida com brinquedo revelaram que uma família norueguesa dormia havia mais de cem anos sobre uma sepultura da Era Viking, com um machado forjado entre os anos 950 e 1050.

E você, ficaria tranquilo morando em cima de uma descoberta dessas, ou preferia nem ter levantado o assoalho? Acha que no Brasil uma família comunicaria as autoridades ou guardaria as peças em casa? Conte nos comentários a sua opinião e marque aquela pessoa que adora história e arqueologia.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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