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Casca de arroz que viraria resíduo agrícola, poeira industrial e problema de descarte é queimada em caldeiras, transformada em cinza rica em sílica e usada como insumo para substituir parte do cimento em concretos, e só a safra brasileira de 10,59 milhões de toneladas em 2023/24 poderia gerar cerca de 529 mil toneladas de cinza
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 24/07/2026 às 21:42
Construção
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Casca de arroz pode virar cinza rica em sílica para substituir parte do cimento em concretos, com potencial teórico de 529 mil toneladas no Brasil.
A casca de arroz costuma aparecer como sobra agrícola, material leve, volumoso e difícil de acomodar em grandes quantidades. Mas esse resíduo, que poderia virar problema de descarte, poeira industrial ou passivo ambiental, também pode entrar em uma rota mais sofisticada: ser queimado de forma controlada, gerar energia e produzir uma cinza rica em sílica para uso na construção civil.
O dado que dá escala ao tema é brasileiro. Segundo a Conab, a produção nacional de arroz na safra 2023/24 foi estimada em 10,59 milhões de toneladas, crescimento de 5,5% em relação à temporada anterior. Quando esse volume é cruzado com a relação técnica usada em estudos sobre casca e cinza de arroz, o potencial teórico impressiona.
Uma revisão científica sobre o tema aponta que 1.000 kg de arroz em casca geram cerca de 200 kg de casca e, depois da queima para geração de energia, aproximadamente 50 kg de cinza, com cerca de 85% a 95% de sílica amorfa. Aplicando essa proporção à safra brasileira de 10,59 milhões de toneladas, chega-se a um potencial teórico de aproximadamente 529,5 mil toneladas de cinza de casca de arroz.
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De sobra agrícola a insumo para concreto
A casca de arroz é um subproduto inevitável do beneficiamento do grão. Como representa cerca de 20% da massa do arroz em casca, grandes safras geram grandes volumes de resíduo, exigindo destinação adequada para evitar acúmulo, queima inadequada ou descarte sem controle.
Quando a casca é usada como biomassa em caldeiras, ela pode gerar energia térmica para processos industriais.
Depois da queima, sobra a chamada cinza de casca de arroz, material que chama atenção pela alta concentração de sílica, especialmente quando o processo térmico preserva uma fração amorfa e reativa.
É justamente essa sílica que desperta interesse na construção civil. Estudos sobre concreto e argamassa analisam a cinza de casca de arroz como material pozolânico, capaz de participar de reações químicas na matriz cimentícia e permitir a substituição parcial do cimento Portland em determinadas formulações.
A conta brasileira mostra o tamanho do potencial
A estimativa de 529 mil toneladas de cinza não é um dado oficial de destinação industrial. Trata-se de uma projeção proporcional feita a partir da produção brasileira de arroz informada pela Conab e da relação técnica de que cada tonelada de arroz em casca pode gerar cerca de 50 kg de cinza após a queima.
A conta é simples: 10,59 milhões de toneladas de arroz × 5% de cinza = 529,5 mil toneladas. Pela mesma lógica, esse volume de arroz poderia gerar cerca de 2,118 milhões de toneladas de casca, considerando que a casca representa aproximadamente 20% da massa do arroz em casca.
O Brasil produz arroz em escala suficiente para transformar um resíduo agrícola recorrente em matéria-prima potencial para energia, materiais cimentícios e aplicações industriais.
Cinza pode substituir parte do cimento
O cimento é um dos insumos mais importantes da construção civil, mas sua produção exige calcinação em alta temperatura e está associada a emissões relevantes de CO2.
Por isso, materiais suplementares, como escórias, cinzas e pozolanas, são estudados para reduzir parte do consumo de cimento em concretos e argamassas.
A cinza de casca de arroz entra nesse grupo por causa do teor elevado de sílica. Uma revisão sobre o material informa que a cinza pode concentrar 85% a 95% de sílica amorfa, característica que explica o interesse em aplicações como cerâmica, materiais cimentícios e substituição parcial de insumos minerais.
No Brasil, estudos publicados em periódicos de engenharia analisam concretos com substituição parcial do cimento por cinza de casca de arroz.
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A Revista de Engenharia e Tecnologia registra pesquisas sobre o desempenho de concretos com esse tipo de substituição, enquanto artigo da SciELO caracteriza a cinza de casca de arroz como material pozolânico devido ao comportamento amorfo, ao elevado teor de sílica e ao índice de atividade pozolânica.
O segredo está no controle da queima
Nem toda cinza de casca de arroz tem a mesma qualidade. Para que o material tenha maior potencial como pozolana, a queima precisa ser controlada, porque temperatura, tempo de combustão e presença de carbono residual afetam a composição, a cor e a reatividade da cinza.
Quando a queima é inadequada, a cinza pode ficar com alto teor de carbono, baixa reatividade ou características irregulares para uso em materiais de construção.
Por isso, a rota industrial mais promissora não é simplesmente queimar o resíduo, mas controlar o processo para produzir uma cinza com composição mais estável.
A casca de arroz não vira automaticamente um substituto perfeito do cimento. Ela precisa passar por processamento, controle térmico, moagem, caracterização química e avaliação técnica antes de entrar em formulações de concreto ou argamassa.
Resíduo agrícola pode reduzir pressão sobre insumos minerais
A aplicação da cinza de casca de arroz também entra em uma discussão maior sobre economia circular. Em vez de tratar a casca apenas como sobra do agronegócio, a cadeia produtiva pode convertê-la em energia e, depois, reaproveitar a cinza como insumo mineral secundário.
Esse tipo de rota cria um duplo aproveitamento. Primeiro, a casca funciona como biomassa para geração de calor; depois, o resíduo mineral da combustão pode ser avaliado como componente de materiais de construção, reduzindo descarte e ampliando o valor econômico do subproduto.
Em escala, o ganho não depende apenas da tecnologia, mas também de logística, padronização, demanda regional e controle de qualidade.
A cinza precisa sair de um fluxo disperso e irregular para uma cadeia organizada, capaz de entregar material com especificações compatíveis com normas e exigências da construção civil.
O impacto vai além do arroz
Um resíduo que antes era tratado como problema passa a ser visto como matéria-prima, desde que exista tecnologia, mercado e controle técnico para transformar sobra em insumo.
No caso da casca de arroz, o interesse é ainda maior porque o Brasil tem produção relevante do grão e uma cadeia agroindustrial capaz de gerar volumes expressivos de resíduo.
A Conab estimou 10,59 milhões de toneladas de arroz no ciclo 2023/24, número suficiente para dimensionar o potencial de reaproveitamento associado ao beneficiamento.
Mesmo que apenas uma parcela desse potencial seja aproveitada industrialmente, a escala já justifica atenção.
A discussão deixa de ser apenas ambiental e passa a envolver energia, construção civil, redução de resíduos, inovação em materiais e agregação de valor ao agronegócio.
O que ainda precisa avançar
O principal desafio é transformar potencial em cadeia real. Para isso, a cinza de casca de arroz precisa ser produzida em condições controladas, caracterizada tecnicamente, beneficiada quando necessário e validada para aplicações específicas em concreto, argamassa, blocos ou outros materiais cimentícios.
Também é necessário separar o que é estimativa teórica do que é destinação efetiva. A projeção de 529,5 mil toneladas de cinza mostra o tamanho possível do fluxo caso toda a produção brasileira fosse convertida de acordo com a proporção técnica citada, mas não confirma que esse volume esteja sendo efetivamente produzido ou usado em concretos no país.
Um resíduo que pode virar ativo industrial
A casca de arroz mostra como a fronteira entre lixo e matéria-prima depende de tecnologia. Em um cenário sem aproveitamento, ela pode se acumular como resíduo agrícola; em uma cadeia bem organizada, pode gerar energia e deixar uma cinza rica em sílica, com aplicação potencial na construção civil.
O que sobra do beneficiamento de um alimento básico pode entrar em caldeiras, virar cinza mineral e participar de pesquisas para reduzir parte do cimento usado em concretos.
No fim, a casca de arroz não é apenas uma sobra da lavoura. Com escala, controle e aplicação técnica, ela pode virar uma peça importante da economia circular, conectando agronegócio, energia e construção civil em uma mesma cadeia de reaproveitamento.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

