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Cerca de 40 milhões de pessoas ainda vivem embaixo da terra na China, em casas-caverna escavadas no solo há mais de 4 mil anos que são frescas no verão, quentes no inverno e chegam a custar cerca de 46 mil dólares já com água e luz
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 30/07/2026 às 10:12
Atualizado em 30/07/2026 às 10:13
Construção
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O solo do norte da China é tão fino e estável que permite escavar cômodos inteiros sem escorar. É nele que estão os yaodong, moradias em caverna com teto abobadado, cama que também é fogão e temperatura interna estável o ano inteiro, ocupadas há mais de quatro milênios.
Os yaodong são moradias escavadas na terra no Planalto de Loess, no norte da China, e abrigam gente há mais de 4 mil anos. Cada caverna funciona como uma casa completa, com cômodos abobadados, entrada em arco e temperatura interna que se mantém fresca no verão e quente no inverno sem qualquer sistema de climatização.
O modelo foi descrito em detalhe pelo site Amusing Planet, em texto assinado por Kaushik Patowary. Uma caverna simples de três cômodos com banheiro anexo, somando pouco menos de 70 metros quadrados e já equipada com água encanada e eletricidade, chegava a custar US$ 46 mil no mercado, enquanto um cômodo único sem encanamento era alugado por US$ 30 por mês.
O que significa yaodong e onde essas casas estão
O nome tem tradução literal ligada ao formato interno. Yaodong é o termo chinês usado para essas moradias e costuma ser traduzido como caverna casa ou caverna forno, referência ao teto em arco, que lembra o interior de um forno de olaria.
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A distribuição segue a geologia, não a fronteira administrativa. As moradias se concentram no Planalto de Loess, na região do vale do Rio Wei, em províncias como Shaanxi, Shanxi, Gansu e Henan. É a mesma faixa de território apontada como um dos berços da civilização chinesa, o que explica por que a ocupação daquele solo é tão antiga.
Por que é possível cavar uma casa naquele solo
A resposta está na formação do terreno. O Planalto de Loess se formou ao longo de milhões de anos pela deposição de partículas muito finas de solo trazidas por tempestades de vento, processo que criou camadas espessas de material homogêneo.
Esse tipo de solo tem duas propriedades que importam para quem vai morar dentro dele. É fino e argiloso, portanto fácil de cavar com ferramenta simples, e ao mesmo tempo tem estabilidade de parede suficiente para sustentar um vão escavado sem estrutura de apoio. Cavar uma caverna ali não exige madeira, cimento nem escoramento, e o mesmo solo é altamente fértil, o que permitiu que a agricultura e a moradia dividissem o mesmo terreno.
Os dois tipos de caverna: encosta e pátio afundado
O modelo mais comum é o escavado na horizontal, direto na encosta. Nas bordas do planalto, onde existem morros e ravinas, os cômodos são abertos na lateral do terreno, com a fachada exposta ao sol e o resto da moradia enterrado.
O segundo tipo é bem mais raro no mundo. No interior do planalto, onde não há colina nem ravina, cava se um buraco quadrado no chão, com profundidade que costuma ficar entre 5 e 8 metros, e depois abrem se os cômodos na horizontal a partir das quatro paredes desse poço, formando um pátio central rebaixado. O acesso é feito por rampa ou por um corredor subterrâneo, e o equivalente mais próximo fora da China são as casas subterrâneas de Matmata, na Tunísia.
Como é uma caverna dessas por dentro
O interior segue um padrão reconhecível. O cômodo típico é longo e abobadado, com entrada semicircular fechada por uma porta de madeira ou, em versões mais simples, por uma colcha pendurada no vão.
As dimensões variam conforme a província. Em Shanxi, por exemplo, os cômodos escavados na vertical do barranco costumam ter de 3 a 4 metros de largura por 5 a 9 metros de profundidade, com o teto trabalhado em arco. As construções mais bem acabadas se projetam da encosta e recebem reforço de alvenaria de tijolo, o que separa a moradia rústica da versão consolidada, com fachada e estrutura aparente.
O kang, a cama que também é fogão
Existe um móvel que define a vida dentro dessas casas. Chamado de kang, é uma plataforma elevada usada como cama, com fornos instalados por baixo, aproveitados ao mesmo tempo para cozinhar e para aquecer a superfície onde as pessoas dormem.
A solução resolve dois problemas com um único gasto de lenha. O calor da cozinha não se perde no ambiente, ele é transferido para a base da cama e liberado devagar durante a noite. Em uma caverna que já mantém temperatura estável, o kang funciona como o último degrau de conforto no inverno, e é um dos elementos mais característicos do interior desse tipo de moradia.
Por que a caverna é fresca no verão e quente no inverno
O efeito não tem mistério, tem física. A camada de terra ao redor dos cômodos age como isolante, e o solo em profundidade mantém temperatura praticamente constante ao longo do ano, muito menos sensível às variações do ar externo.
O resultado é que a casa não precisa reagir ao clima de fora. No inverno, exige pouco aquecimento; no verão, mantém a sensação de ambiente climatizado sem consumir energia. A parede de terra faz de graça o que ar condicionado faz com conta de luz, e é essa característica que explica a permanência do modelo em uma região de invernos frios, verões quentes e pouca madeira disponível para construção.
Quatro mil anos de uma mesma ideia
A cronologia é longa e bem marcada. As primeiras moradias desse tipo aparecem no período da Dinastia Xia, há cerca de 4 mil anos, embora só tenham se popularizado a partir da Dinastia Han, entre 206 antes de Cristo e 220 depois de Cristo, quando as técnicas de escavação foram sendo aprimoradas.
O auge veio muito depois. A popularidade dessas moradias atingiu o pico durante as dinastias Ming, de 1368 a 1644, e Qing, de 1644 a 1912. Há registros de habitações em caverna até no Livro das Canções, a mais antiga coletânea de poemas chineses, escrita entre os séculos 10 e 7 antes de Cristo, o que mostra que o modelo já era parte do repertório cultural na Antiguidade.
As aldeias em níveis e a lógica do clã
As casas raramente aparecem isoladas. É comum que várias cavernas sejam escavadas lado a lado ou uma sobre a outra, conectadas entre si, formando uma aldeia distribuída em níveis na mesma encosta.
Essa organização não é apenas construtiva, é social. Cada conjunto costuma pertencer a um único clã ou a uma família extensa, o que transforma o agrupamento em uma espécie de condomínio familiar escavado no barranco. Vista de cima, uma aldeia de pátios afundados quase desaparece na paisagem, porque o que se enxerga do nível do chão é apenas a copa das árvores plantadas nos pátios, e não os telhados.
Quanto custa morar dentro de uma caverna
Os valores divulgados dão a dimensão do mercado. Uma caverna de três cômodos com banheiro anexo, somando pouco menos de 70 metros quadrados e equipada com água encanada e eletricidade, era negociada por cerca de US$ 46 mil.
Na outra ponta da escala está o aluguel. Um cômodo único, sem encanamento, saía por US$ 30 mensais. A diferença entre os dois números é toda a diferença entre moradia adaptada e moradia precária, e mostra que o mercado de casas em caverna tem faixas de padrão tão distintas quanto o mercado imobiliário de superfície.
De onde vem o número de 40 milhões de moradores
Aqui está o ponto que merece cuidado. A estimativa de 40 milhões de pessoas vivendo em moradias desse tipo remonta a um levantamento de 2006 e vem sendo repetida desde então em praticamente toda publicação sobre o assunto.
Isso significa que o número não é um censo atual. Algumas publicações trabalham com mais de 30 milhões, outras mantêm os 40 milhões, e há ainda a leitura de que cerca de três quartos dos habitantes do Planalto de Loess seguiriam morando em caverna. É uma ordem de grandeza confiável, não uma contagem precisa de hoje, e vale ler o dado com essa ressalva.
O risco que a lista de vantagens não menciona
Existe um lado da história que raramente acompanha as fotos bonitas. O loess é um solo altamente suscetível à erosão pela água e pelo vento, e moradia escavada nele é vulnerável a desabamento quando o terreno se movimenta.
O episódio mais grave da história está documentado. Em 23 de janeiro de 1556, o terremoto de Shaanxi provocou deslizamentos que destruíram cavernas habitadas em larga escala, e as estimativas de mortos chegam a 830 mil pessoas, o que o coloca entre os desastres naturais mais letais já registrados. Milhões de pessoas viviam em yaodong naquela época, e foi justamente o colapso das moradias que multiplicou o número de vítimas. É o contraponto necessário a qualquer entusiasmo sobre a técnica.
A nova geração de moradia em caverna
O modelo não parou no tempo. Um programa iniciado em 1996 na aldeia de Zaoyuan, no próprio Planalto de Loess, começou com 85 casas piloto e passou de mil unidades autoconstruídas, além de outras 1.200 erguidas por incorporadores privados, todas inspiradas na lógica do yaodong tradicional.
As versões novas mudam o desenho sem abandonar o princípio. São construções de dois pavimentos, com entradas em arco, espaços envidraçados voltados ao sol para captar luz e calor e telhados cobertos de terra, que melhoram isolamento e controle de umidade. Mesmo com 20 graus abaixo de zero na rua, o interior se mantém em torno de 10 graus com aquecimento mínimo, e o consumo de energia fica próximo de zero. O custo de construção informado fica entre US$ 2,1 mil e US$ 2,7 mil, valor acessível para o morador de aldeia em melhor situação, mas não para o mais pobre.
A data que muda a leitura desta história
Esse mercado é de janeiro de 2018, o que significa que os valores de US$ 46 mil na venda e US$ 30 no aluguel refletem o cenário daquele momento, e não o preço atual.
O mesmo raciocínio vale para o retrato social de quem mora em caverna hoje. Estimativa de 2006 divulgada em texto de 2018 e lida em 2026 acumula duas camadas de defasagem, e não há aqui informação sobre quantas dessas moradias foram abandonadas, reformadas ou substituídas por casas de alvenaria na última década, movimento que acompanha a urbanização acelerada da China.
Você moraria dentro de uma caverna dessas
O caso levanta uma discussão que vai além da curiosidade. De um lado, existe uma solução construtiva de quatro mil anos que resolve conforto térmico sem consumir energia, usa material do próprio terreno e custa uma fração de qualquer obra convencional. De outro, existe a vulnerabilidade a erosão e terremoto, a umidade, a iluminação natural limitada e o estigma social que costuma acompanhar quem mora fora do padrão de alvenaria.
Agora queremos ouvir você. Você moraria em uma caverna com temperatura estável o ano inteiro e conta de luz quase zero, ou o desconforto de viver dentro da terra pesaria mais que a economia? E, pensando no Brasil, você acha que existe alguma lição aproveitável dessa técnica para as nossas cidades que fervem no verão? Comenta aqui embaixo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

