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Chamado de tolo pela aldeia, um chinês liderou por 36 anos a escavação a mão de um canal de quase 10 quilômetros contornando três montanhas, e levou a água que faltava havia gerações ao vilarejo
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 26/07/2026 às 20:12
Atualizado em 26/07/2026 às 20:13
Curiosidades
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Numa aldeia isolada nas montanhas da província de Guizhou, o chinês Huang Dafa foi chamado de tolo ao propor cavar um canal na rocha com ferramentas manuais. Ele levou 36 anos, contornou três montanhas cársticas e finalmente trouxe a água que faltava havia gerações a Caowangba.
Chamado de tolo pelos próprios vizinhos, o chinês Huang Dafa liderou por 36 anos a escavação manual de um canal de cerca de 9,4 quilômetros pelas encostas de três montanhas cársticas, para levar água a uma aldeia que sofria com a seca havia gerações. Nascido em 1936, ele viveu a vida inteira em Caowangba, na cidade de Zunyi, província de Guizhou, na China, e sua história foi contada em reportagem do jornal China Daily.
O feito rendeu comparações com uma figura do folclore chinês. Huang foi apelidado de Yu Gong moderno, o velho tolo que, na lenda, se dispôs a remover montanhas diante de casa e acabou ajudado pelos deuses. Ele não teve ajuda divina, apenas persistência, e transformou o impossível em possível. Em junho de 2021, aos 85 anos, tornou-se um dos 29 agraciados com a Medalha de 1º de Julho, concedida pelo Comitê Central do Partido Comunista Chinês.
A aldeia que vivia sem água
Caowangba fica escondida no fundo das montanhas de Guizhou, uma região de relevo cárstico onde a água some com facilidade pelo solo. A seca havia secado as fontes próximas, e os moradores dependiam de um único poço para beber, que às vezes nem dava conta de todos. Sem água, o arroz não crescia, e a fome rondava a comunidade de cerca de 1.200 pessoas.
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A ironia é que a água existia ali perto. Uma aldeia vizinha tinha água em abundância, mas uma montanha se interpunha entre as duas, bloqueando qualquer caminho fácil. Diante desse cenário, muitos moradores pensavam em migrar para outros lugares, já que não se via futuro em Caowangba. Foi nesse contexto que Huang Dafa decidiu enfrentar a montanha em vez de abandonar a terra.
Chamado de tolo, ele não desistiu
A virada começou em 1959, quando Huang, então com 23 anos, se tornou líder da aldeia. Órfão desde cedo e criado pelos vizinhos, ele assumiu para si três metas em favor da comunidade, resumidas por ele mesmo: levar água à vila, construir uma estrada e fornecer eletricidade. A água era a mais urgente e a mais difícil das três.
A ideia de cavar um canal na rocha com ferramentas manuais soou como loucura para muita gente. Quando propôs abrir caminho na encosta da montanha, Huang foi ridicularizado, com moradores o chamando de tolo e achando que ele havia enlouquecido. Foi essa reação que o aproximou, na imaginação popular, do personagem Yu Gong, aquele que também foi questionado pelos vizinhos antes de insistir em remover as montanhas. Huang aceitou o desafio mesmo sem apoio e sem conhecimento técnico.
A primeira tentativa que falhou
O começo foi de fracasso. Com pouco domínio sobre conservação de água, Huang tentou construir um canal ainda nos primeiros anos, mas a obra não funcionou. Depois de mais de dez anos de esforço, agravado por chuvas torrenciais e pela falta de conhecimento, a água continuava sendo um sonho distante para Caowangba.
Ainda assim, aquele trabalho não foi totalmente em vão. A primeira tentativa frustrada acabou abrindo um túnel através da montanha, que ao menos facilitou o deslocamento das pessoas. Muitos já diziam que a aldeia jamais teria acesso à água, mas Huang nunca perdeu a esperança. Ele entendeu que faltava algo essencial, o conhecimento técnico, e decidiu ir atrás dele mesmo que fosse tarde.
Aos 53 anos, voltou a estudar
A decisão seguinte revela a teimosia do personagem. Já aos 53 anos, enquanto trabalhava temporariamente na estação local de gestão de água, Huang começou a estudar por conta própria a tecnologia de conservação hídrica. Foi um recomeço do zero, aprendendo do básico o que precisava para não repetir os erros do passado.
O esforço deu resultado depois de alguns anos. Com o conhecimento recém-adquirido e a persistência de sempre, Huang conseguiu arrecadar recursos do governo local e retomar o projeto em 1992, agora liderando os esforços de cerca de 200 pessoas. Desta vez ele permaneceu no canteiro o tempo todo, orientando cada etapa da obra, ciente de que a comunidade contava com ele para tocar o trabalho adiante.
Pendurados nas falésias para cavar
A parte mais assustadora da obra foi escavar o canal nas laterais quase verticais de três montanhas cársticas. Não se tratava de abrir uma vala no chão, e sim de talhar a passagem na face de penhascos, com quedas de dezenas de metros logo abaixo e paredões suspensos acima. Um passo em falso podia ser o último.
O método de trabalho exigia coragem extrema. Os moradores subiam até o topo do lado escalável das montanhas, amarravam-se a árvores e desciam de rapel pelas faces íngremes e às vezes côncavas dos penhascos para conseguir cavar. Foi assim, suspensos na rocha, que eles foram abrindo aos poucos o canal principal e os canais secundários, num trabalho tão perigoso quanto lento, que consumiu anos da vida de quem participou.
O preço pessoal de um sonho
A dedicação de Huang cobrou um preço altíssimo da própria família. Durante os anos em que ficou imerso na obra, longe de casa por longos períodos, sua filha e seu neto morreram. Ele não estava presente em momentos decisivos, e a ausência marcou os que ficaram.
O relato mais duro veio do próprio filho. Huang Binquan contou que o pai não estava em casa nem quando a irmã dele estava em seu leito de morte, explicando que as equipes de construção não saberiam como prosseguir se Huang não estivesse lá. Para o líder da aldeia, interromper a obra significaria arriscar o sonho de gerações, e ele seguiu no canteiro mesmo diante da perda, uma escolha que ainda pesa na história da família.
A água chegou, e a aldeia mudou
O esforço deu frutos em 1995, quando a água finalmente jorrou em Caowangba através de um canal principal de 7.200 metros somado a 2.200 metros de canais secundários. Não foi só a aldeia de Huang que ganhou com isso, pois outras três comunidades ao longo do trajeto também passaram a ter fonte de irrigação, encerrando um problema que durava gerações.
A transformação foi imediata e profunda. Com água em abundância, os moradores converteram terras secas em plantações de arroz, e Huang ajudou a aldeia a ampliar o cultivo para 48 hectares, elevando a renda e a qualidade de vida. No mesmo ano, Caowangba passou a ter eletricidade e uma nova estrada, os outros dois projetos que ele havia prometido, e ao longo da vida ele ainda ajudou a erguer duas escolas. O canal foi batizado de Canal Dafa em sua homenagem, e Huang recebeu títulos como Trabalhador Modelo Nacional, além de, anos depois, ter ajudado uma aldeia vizinha a cavar o próprio canal.
Um homem que moveu montanhas com as mãos
O que Huang Dafa fez em Caowangba não foi milagre nem obra de deuses, e sim o resultado de 36 anos de teimosia, uma tentativa fracassada, anos de estudo tardio e muita gente pendurada em penhascos com ferramentas manuais. Chamado de tolo no começo, ele terminou como herói nacional, com um canal que leva o próprio nome e que transformou a vida de uma aldeia inteira.
Assista o vídeo
E aí fica a pergunta que rende conversa de verdade. Você admira a determinação de quem dedica a vida inteira a um sonho coletivo como esse, ou acha que Huang pagou um preço alto demais ao sacrificar tanto da própria família pela obra? Comenta aqui embaixo o que você faria no lugar dele, e conta se conhece alguém que também virou o impossível pela pura persistência.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

