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Chamados durante anos de geração “nem-nem”, jovens brasileiros aparecem em novo levantamento da Fiocruz como uma geração sobrecarregada: apenas 2% não estudam, trabalham ou cuidam de alguém, enquanto 82,5% realizam tarefas domésticas e de cuidado e mulheres negras enfrentam as jornadas mais extensas

Chamados durante anos de geração “nem-nem”, jovens brasileiros aparecem em novo levantamento da Fiocruz como uma geração sobrecarregada: apenas 2% não estudam, trabalham ou cuidam de alguém, enquanto 82,5% realizam tarefas domésticas e de cuidado e mulheres negras enfrentam as jornadas mais extensas

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Chamados durante anos de geração “nem-nem”, jovens brasileiros aparecem em novo levantamento da Fiocruz como uma geração sobrecarregada: apenas 2% não estudam, trabalham ou cuidam de alguém, enquanto 82,5% realizam tarefas domésticas e de cuidado e mulheres negras enfrentam as jornadas mais extensas

Escrito por Carla Teles

Publicado em 28/07/2026 às 16:36

Economia

Fiocruz mostra que jovens brasileiros da geração nem-nem acumulam trabalho doméstico, enquanto mulheres negras enfrentam maior sobrecarga.

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Levantamento da Fiocruz com dados da Pnad Contínua de 2022 questiona o rótulo geração nem-nem ao mostrar que 82,5% dos jovens realizam trabalho doméstico ou de cuidado, proporção que chega a 90% entre mulheres, enquanto jovens negras dedicam em média 19 horas semanais a essas atividades não remuneradas nas famílias.

A expressão geração nem-nem costuma ser utilizada para identificar jovens que não estudam nem exercem trabalho remunerado. Um novo levantamento, entretanto, mostra que esse enquadramento deixa de contabilizar milhões de brasileiros ocupados com tarefas domésticas e com o cuidado de filhos, parentes ou outras pessoas da família.

As informações fazem parte do estudo “Superposição de atividades na juventude: estudar, trabalhar e cuidar”, divulgado em 30 de junho de 2026 pela Secretaria Nacional de Cuidados e Família do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, em parceria com a Fiocruz. A reportagem foi publicada pelo Viva Notícias em 1º de julho de 2026.

Levantamento amplia o conceito de ocupação entre os jovens

O estudo analisou microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Anual, a Pnad Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, referentes a 2022. A análise considerou jovens entre 15 e 29 anos e observou não apenas estudo e emprego, mas também atividades domésticas e de cuidado.

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Quando essas tarefas são incluídas, somente 2% dos jovens aparecem sem estudar, trabalhar ou cuidar de alguém. O resultado altera de maneira significativa a leitura tradicional sobre a geração nem-nem, normalmente construída apenas com base na frequência escolar e na participação no mercado de trabalho.

A pesquisa contrasta com dados apresentados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, segundo os quais 6,2 milhões de jovens estavam fora da escola e do trabalho, número equivalente a aproximadamente 18% dessa população. As duas informações não são necessariamente incompatíveis, pois utilizam critérios diferentes para classificar as atividades realizadas.

Enquanto o indicador tradicional observa escola e ocupação remunerada, o estudo da Fiocruz inclui o trabalho doméstico e de cuidados sem remuneração. Essa mudança revela que parte dos jovens considerada inativa, na realidade, mantém responsabilidades constantes dentro do próprio domicílio.

Trabalho doméstico alcança 82,5% da juventude

De acordo com o relatório, 82,5% dos brasileiros entre 15 e 29 anos realizam alguma atividade doméstica ou de cuidado. Entre as mulheres, a proporção chega a 90%, indicando que essas responsabilidades não são distribuídas de maneira equilibrada entre os diferentes grupos.

As tarefas incluem cuidar da casa, dos filhos e de outros parentes, além de atividades necessárias ao funcionamento cotidiano da família. Embora não produzam salário, elas consomem tempo e podem interferir na permanência na escola, no acesso ao emprego e na disponibilidade para outras experiências.

A ausência de remuneração não significa ausência de trabalho. Essa é uma das principais questões levantadas pelo estudo ao contestar o uso indiscriminado da expressão geração nem-nem para descrever jovens que não aparecem nas estatísticas tradicionais de ocupação.

O coordenador da Agenda Jovem Fiocruz, André Sobrinho, afirmou em nota que a juventude brasileira é marcada pela acumulação de atividades. Segundo ele, muitos jovens trabalham e estudam simultaneamente, ao mesmo tempo em que precisam cuidar de outras pessoas, situação mais frequente entre as mulheres.

Estudo, emprego e cuidado formam jornadas simultâneas

O relatório identificou uma sobreposição de jornadas durante a juventude. Em vez de permanecerem sem atividade, muitos jovens conciliam escola, trabalho remunerado, manutenção da casa e cuidado de familiares, combinação que pode ampliar a vulnerabilidade social nessa etapa da vida.

Mais de um quarto das estudantes com idade superior a 18 anos também cuidam de alguém no domicílio ou na família. Esse grupo reúne aproximadamente 1,2 milhão de mulheres, conforme os dados apresentados no levantamento.

Entre as adolescentes de 15 a 17 anos, três em cada quatro realizam trabalho doméstico ou de cuidado não remunerado enquanto frequentam a escola. A rotina de estudos, portanto, não elimina as responsabilidades assumidas dentro de casa.

Na faixa dos 18 aos 24 anos, cerca de 9% das mulheres acumulam estudo, cuidado e trabalho remunerado. A proporção sobe para 18% entre aquelas de 25 a 29 anos, mostrando que a quantidade de atividades pode aumentar conforme elas avançam para a vida adulta.

Mulheres negras enfrentam as maiores cargas de cuidado

A desigualdade identificada pelo estudo também possui dimensão racial. Jovens mulheres negras dedicam o dobro de horas ao trabalho de cuidado quando comparadas a homens brancos e negros, de acordo com as informações reunidas pela Fiocruz.

Entre 18 e 24 anos, as jovens negras destinam, em média, 19 horas por semana a essas tarefas. Esse tempo representa quase metade de uma jornada profissional semanal de 40 horas, embora as atividades sejam realizadas sem remuneração.

A secretária nacional da Política de Cuidados, Laís Abramo, afirmou em nota que mulheres jovens, especialmente mulheres negras, estão entre os grupos mais sobrecarregados pelo cuidado não remunerado. A falta de políticas públicas adequadas pode limitar direitos relacionados à educação, ao trabalho, à cultura, ao lazer e à participação pública.

Os dados mostram que o debate sobre a geração nem-nem não pode desconsiderar gênero e raça. O mesmo indicador estatístico pode reunir situações muito diferentes, desde a procura por emprego até a interrupção dos estudos para assumir responsabilidades familiares.

Percentual sem qualquer atividade permanece reduzido

Entre as mulheres de 25 a 29 anos, a parcela que não estuda, não trabalha e não realiza atividades domésticas ou de cuidado varia entre 0,7% e 2,6%, segundo o relatório. Para os responsáveis pelo estudo, esses percentuais enfraquecem a ideia de uma juventude amplamente desocupada.

A análise não nega que existam jovens afastados da escola e do mercado de trabalho. O que o levantamento questiona é a interpretação automática de que todos estão sem responsabilidades ou sem produzir alguma contribuição econômica e social.

O rótulo geração nem-nem pode ocultar formas de trabalho que acontecem dentro das casas e permanecem fora das folhas de pagamento. Ao incluir essas tarefas, a pesquisa apresenta uma juventude menos inativa e mais submetida a jornadas múltiplas.

Essa diferença também interfere na formulação de políticas públicas. Medidas voltadas exclusivamente à qualificação profissional ou ao retorno à escola podem ser insuficientes quando o jovem não possui com quem dividir o cuidado de filhos, parentes ou pessoas dependentes.

Pesquisa propõe uma nova leitura sobre a juventude

O estudo da Fiocruz não transforma todas as atividades domésticas em emprego formal nem elimina os problemas de acesso à educação e ao mercado de trabalho. A contribuição central está em mostrar que a ausência desses dois vínculos não representa necessariamente falta de ocupação.

Ao reconhecer o cuidado como parte da rotina juvenil, o levantamento amplia o contexto utilizado para compreender a chamada geração nem-nem. A questão deixa de ser apenas por que determinados jovens não estudam ou não trabalham e passa a incluir quais responsabilidades impedem ou dificultam essas escolhas.

Os dados também indicam que a sobrecarga não afeta todos da mesma maneira. Mulheres, especialmente as negras, aparecem expostas às jornadas mais extensas, combinando estudo, emprego e cuidado com pouco tempo disponível para outras dimensões da vida.

Essa leitura ajuda a explicar por que indicadores aparentemente simples podem esconder realidades complexas. Uma pessoa classificada como fora da escola e do trabalho pode dedicar várias horas diárias à manutenção da casa ou ao atendimento de familiares sem receber reconhecimento estatístico ou financeiro.

Rótulo precisa considerar o trabalho que permanece invisível

Os resultados apresentados em junho de 2026 mostram que apenas uma parcela pequena dos jovens não realiza nenhuma das atividades analisadas. Para a maioria, o cotidiano envolve estudo, emprego, cuidado ou diferentes combinações entre essas responsabilidades.

Mais do que identificar uma geração nem-nem, o relatório descreve uma juventude sobrecarregada e marcada por desigualdades. O desafio passa por reconhecer o trabalho não remunerado e criar condições para que o cuidado não afaste principalmente mulheres negras da educação, do emprego e da participação social.

Na sua opinião, a expressão geração nem-nem ainda representa corretamente a realidade dos jovens brasileiros ou ignora o trabalho realizado dentro das famílias? Deixe seu comentário e conte como as tarefas domésticas e de cuidado são divididas na sua casa.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

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