Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Cidade brasileira “engole” até 355,5 milhões de litros de esgoto por dia: uma megaplanta para 760 mil pessoas removeu 9.124 toneladas de resíduos só em 2021 e devolve o efluente tratado ao Guaíba

Cidade brasileira “engole” até 355,5 milhões de litros de esgoto por dia: uma megaplanta para 760 mil pessoas removeu 9.124 toneladas de resíduos só em 2021 e devolve o efluente tratado ao Guaíba

7 min de leitura

Cidade brasileira “engole” até 355,5 milhões de litros de esgoto por dia: uma megaplanta para 760 mil pessoas removeu 9.124 toneladas de resíduos só em 2021 e devolve o efluente tratado ao Guaíba

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 29/07/2026 às 17:19

Curiosidades

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Capaz de processar centenas de milhões de litros diariamente, a ETE Serraria revela a dimensão invisível do saneamento de Porto Alegre, onde resíduos domésticos, etapas biológicas e grandes estruturas de bombeamento se encontram antes que o efluente tratado retorne ao Lago Guaíba.

Porto Alegre abriga uma estrutura capaz de receber e tratar até 4.115 litros de esgoto por segundo, vazão que corresponde a aproximadamente 355,5 milhões de litros ao longo de 24 horas e ajuda a dimensionar a escala do saneamento na capital gaúcha.

Instalada na Zona Sul, a Estação de Tratamento de Esgoto Serraria atende uma população estimada em 760 mil pessoas e concentra uma das etapas mais importantes do sistema operado pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre, o Dmae.

Além da dimensão hidráulica, a unidade chama atenção pela quantidade de materiais sólidos que chegam misturados ao esgoto, porque somente em 2021 foram removidas e destinadas 9.124 toneladas de resíduos, conforme os dados divulgados pelo órgão municipal.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Resíduos sólidos chegam misturados ao esgoto de Porto Alegre

Esse volume não é formado apenas pela matéria orgânica normalmente presente nas águas residuais, pois plásticos, cabelos, óleos, areia, gordura e outros objetos descartados de maneira inadequada entram nas tubulações e precisam ser separados antes do tratamento biológico.

Logo na entrada, a primeira barreira da ETE Serraria funciona como uma triagem necessária para proteger equipamentos, preservar o fluxo interno e permitir que o processo avance sem a interferência de materiais que não deveriam estar circulando pela rede de esgoto.

Originado em residências, edifícios e estabelecimentos comerciais conectados ao sistema coletor, o esgoto percorre tubulações e estações de bombeamento depois de passar por banhos, pias, descargas e outras atividades cotidianas realizadas em diferentes pontos da cidade.

Enquanto parte desse trajeto ocorre por gravidade, outros trechos dependem de bombas que conduzem o fluxo até a estação, onde o esgoto bruto ainda reúne matéria orgânica, partículas minerais e resíduos sólidos de diferentes tamanhos e composições.

Segundo o Dmae, o tratamento preliminar retira graxas, cabelos, plásticos, óleos, areia e objetos que poderiam comprometer as etapas seguintes, exigindo que todo o material retido seja removido e encaminhado para uma destinação adequada fora da unidade.

A marca de 9.124 toneladas retiradas em um único ano revela a pressão provocada pelo descarte incorreto, especialmente porque esses resíduos exigem limpeza periódica de grades, poços de entrada e componentes das estações de bombeamento ligadas ao sistema municipal.

Quando o lixo alcança a rede de esgoto, ele deixa de representar apenas um problema doméstico e passa a demandar operações específicas de manutenção, com impacto direto sobre equipamentos projetados principalmente para conduzir águas residuais e matéria orgânica.

Estações de bombeamento conduzem o esgoto até a ETE Serraria

Entre as estruturas ligadas à ETE Serraria está a Estação de Bombeamento de Esgotos Baronesa do Gravataí, considerada pelo Dmae a principal unidade operacional do Sistema Ponta da Cadeia e responsável por receber contribuições de uma área extensa da cidade.

Localizada perto da Avenida Praia de Belas, essa estação encaminha o esgoto para tratamento na Zona Sul, enquanto seu sistema de gradeamento retém parte dos objetos antes que eles avancem para bombas, tubulações e tanques mais sensíveis ao material sólido.

Microrganismos reduzem a carga orgânica das águas residuais

Depois da separação inicial, começa a etapa em que microrganismos participam diretamente da redução da carga orgânica, processo que transforma a estação em uma estrutura biológica de grande escala, controlada por equipamentos e rotinas técnicas de operação contínua.

Conforme a explicação divulgada pelo Dmae, bactérias anaeróbias atuam primeiro sem a presença de oxigênio e promovem transformações na matéria orgânica, gerando ácidos orgânicos, gás metano e gás carbônico ao longo dessa fase do tratamento.

Na etapa seguinte, o sistema utiliza o processo de lodos ativados, no qual bactérias aeróbias permanecem em suspensão dentro de tanques que recebem injeção de ar para degradar a matéria orgânica ainda presente no esgoto.

Esse trabalho biológico depende do controle do fluxo, da aeração e das condições internas dos tanques, fatores que precisam permanecer equilibrados para que os microrganismos desempenhem sua função e o tratamento avance dentro da capacidade prevista para a estação.

Maior estação de tratamento de esgoto de Porto Alegre

Com capacidade de 4.115 litros por segundo, a Serraria ocupa a posição de maior estação de tratamento de esgoto de Porto Alegre e pode alcançar, em um dia completo de operação na vazão máxima, o equivalente a 355.536.000 litros.

Esse número expressa a capacidade instalada da planta e ajuda a dimensionar a infraestrutura necessária para receber continuamente o que desaparece pelos ralos e vasos sanitários de centenas de milhares de moradores distribuídos por diferentes regiões da capital.

A estação entrou em operação como parte do Programa Integrado Socioambiental de Porto Alegre, projeto que ampliou a capacidade municipal de tratamento e permitiu à cidade dispor de estrutura para processar até 80% do esgoto coletado, segundo o Dmae.

Ainda assim, o percentual efetivamente tratado também depende da expansão das redes, da regularização das ligações dos imóveis e do funcionamento das estações de bombeamento, porque a capacidade da planta não substitui a necessidade de transportar o esgoto até seus tanques.

Para que o fluxo chegue à Serraria, cada residência precisa estar ligada corretamente à rede, os coletores devem manter continuidade e as estruturas de bombeamento precisam operar sem interrupções causadas por falhas, obstruções ou materiais descartados de forma inadequada.

Efluente tratado retorna ao Lago Guaíba

Após as etapas de separação e tratamento biológico, o efluente segue para lançamento no Lago Guaíba, destino informado pelo Dmae para o esgoto tratado nas estações municipais que integram a rede de saneamento de Porto Alegre.

O processo não transforma o líquido em água potável, mas reduz a carga poluidora antes da devolução ao ambiente, função especialmente relevante porque o Guaíba participa da paisagem, da drenagem e do abastecimento da capital gaúcha.

Rede cloacal e água da chuva seguem funções diferentes

Dentro do sistema urbano, o esgoto cloacal e a água da chuva cumprem funções distintas, já que o primeiro reúne a água usada em banheiros, cozinhas e outras atividades domésticas, enquanto o segundo resulta das precipitações que escoam pelas ruas.

Em redes e ligações inadequadas, esses fluxos podem se misturar e aumentar a quantidade de líquido conduzida às estruturas de bombeamento e tratamento, pressionando componentes que precisam manter operação contínua mesmo durante variações intensas de vazão.

Na região central, dispositivos implantados pelo Dmae interceptam esgoto cloacal em períodos sem chuva e o direcionam para o Sistema Ponta da Cadeia, de onde o fluxo segue até a ETE Serraria para receber o tratamento previsto.

Durante as chuvas, por outro lado, a rede pluvial precisa continuar conduzindo o escoamento das vias urbanas, enquanto a operação busca impedir que despejos domésticos alcancem o Guaíba sem passar pelas etapas municipais de tratamento.

Descarte incorreto aumenta a pressão sobre o saneamento

A dimensão do sistema aparece tanto nos milhões de litros processados quanto no material sólido retirado antes do tratamento, porque um objeto lançado no vaso sanitário pode atravessar tubulações, alcançar uma estação de bombeamento e terminar preso em um gradeamento.

Óleo despejado na pia, plástico, areia e outros resíduos acrescentam carga a uma estrutura projetada principalmente para receber águas residuais e matéria orgânica, tornando mais frequentes as operações de limpeza e a retirada de materiais acumulados.

As 9.124 toneladas registradas pelo Dmae não representam uma estimativa abstrata, mas o resultado da remoção e da destinação de resíduos sólidos encontrados na própria ETE Serraria ao longo de 2021, dentro da rotina operacional da unidade.

Esse dado oferece uma medida concreta do que circula escondido sob a cidade e chega a uma instalação que precisa separar, bombear e tratar volumes contínuos, sem interromper o funcionamento de um sistema essencial para centenas de milhares de moradores.

Se uma única estação precisou retirar mais de 9 mil toneladas de resíduos em um ano, quanto do que chega ao esgoto de Porto Alegre poderia ter sido evitado antes mesmo de entrar pelo ralo?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

Sair da versão mobile