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Ciência investiga a origem dos cabelos grisalhos e faz descoberta surpreendente em estudo que revela uma ligação inesperada entre danos no DNA, células do folículo e um risco que poucos imaginavam
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 30/07/2026 às 15:37
Atualizado em 30/07/2026 às 15:38
Ciência e Tecnologia
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Estudo realizado em camundongos mostrou que células responsáveis pela pigmentação podem reagir de maneiras opostas a danos genéticos, favorecendo tanto o aparecimento de fios brancos quanto a permanência de alterações associadas ao início de tumores no tecido.
Os cabelos grisalhos podem representar mais do que uma mudança visual ligada ao envelhecimento, conforme indica um estudo publicado em 6 de outubro de 2025 na revista Nature Cell Biology por pesquisadores vinculados à Universidade de Tóquio.
Em experimentos com camundongos, danos no DNA fizeram células-tronco produtoras de pigmento abandonar a renovação, processo que favoreceu o surgimento de fios brancos e reduziu a permanência de células potencialmente perigosas no interior dos folículos.
Embora os resultados revelem um mecanismo celular relevante, a pesquisa não demonstrou que pessoas grisalhas estejam protegidas contra o câncer, nem que a tonalidade dos cabelos possa ser usada para calcular o risco individual de melanoma.
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O principal achado indica que o embranquecimento dos fios e a formação tumoral podem surgir de respostas opostas da mesma população celular diante de diferentes agressões genéticas e de sinais produzidos pelo ambiente ao redor.
Como a melanina determina a cor dos cabelos
Responsável pela tonalidade dos fios, a melanina é produzida pelos melanócitos e transferida para a fibra capilar durante seu crescimento, enquanto diferenças na quantidade e no tipo desse pigmento definem cabelos pretos, castanhos, ruivos ou loiros.
Quando o folículo deixa de fornecer pigmento suficiente, o novo cabelo passa a crescer com pouca coloração ou completamente branco, resultado de alterações nas células que sustentam a produção contínua de melanócitos ao longo dos ciclos capilares.
Esse sistema depende das células-tronco de melanócitos, chamadas de McSCs, que permanecem em uma região específica do folículo e originam células maduras capazes de produzir o pigmento necessário para manter a coloração dos fios.
Com o avanço da idade ou após determinados danos celulares, entretanto, parte desse reservatório pode perder sua função, reduzindo progressivamente a capacidade do folículo de renovar melanócitos e de pigmentar os cabelos formados nos ciclos seguintes.
Conhecido tecnicamente como canície, o aparecimento dos fios grisalhos ocorre em ritmos diferentes entre as pessoas e pode ser influenciado pela genética, pelo envelhecimento celular e pela capacidade de manutenção das estruturas presentes nos folículos.
No mecanismo investigado pelos cientistas japoneses, o ponto central não foi apenas a diminuição gradual das células pigmentares, mas a resposta adotada por elas quando o material genético sofreu lesões consideradas graves.
Danos no DNA mudam o destino das células do folículo
Liderada pela professora Emi Nishimura e pelo professor assistente Yasuaki Mohri, a equipe acompanhou células-tronco de melanócitos em camundongos por meio de rastreamento de linhagem e análises destinadas a observar mudanças na expressão dos genes.
Durante os experimentos, os pesquisadores avaliaram como essas células reagiam a diferentes formas de estresse genotóxico, nome dado às agressões capazes de comprometer o DNA e alterar o funcionamento normal das estruturas celulares.
Quando surgiram quebras nas duas fitas do DNA, parte das células iniciou um processo chamado diferenciação acoplada à senescência, também descrito pelos cientistas como seno-diferenciação, que interrompeu sua capacidade de permanecer no estado de célula-tronco.
A partir dessa mudança, elas amadureceram de maneira irreversível e desapareceram do reservatório encarregado de renovar os melanócitos, diminuindo a quantidade de células disponíveis para produzir pigmento durante os ciclos posteriores de crescimento dos cabelos.
Com a redução desse estoque, o folículo perdeu parte da capacidade de pigmentar os novos fios, o que favoreceu o aparecimento de cabelos grisalhos ou brancos como consequência visível de uma resposta celular a danos genéticos.
Ao mesmo tempo, a retirada das células com DNA comprometido impediu que elas permanecessem se multiplicando no tecido, comportamento interpretado pelos autores como uma possível barreira contra transformações malignas nos modelos animais analisados.
Nesse processo, a via molecular p53–p21 ajudou a interromper a renovação das células danificadas, conduzindo-as para um estado em que já não conseguiam manter as funções típicas das células-tronco presentes no folículo piloso.
Assim, a perda da cor apareceu como efeito da eliminação seletiva de uma população celular comprometida, que deixou de se reproduzir antes de acumular novas alterações capazes de ameaçar a integridade do tecido.
Carcinógenos favorecem outro caminho celular
Sob exposição a agentes carcinogênicos, porém, as células apresentaram uma resposta diferente daquela observada após as quebras no DNA, permitindo aos pesquisadores comparar dois destinos opostos dentro da mesma população responsável pela produção de melanócitos.
Entre os agentes usados nos experimentos estavam a radiação ultravioleta B e o composto 7,12-dimetilbenz[a]antraceno, substâncias que provocaram danos genéticos sem necessariamente conduzir as células ao processo de seno-diferenciação identificado anteriormente.
Mesmo carregando alterações no DNA, algumas McSCs mantiveram a capacidade de se renovar e passaram por expansão clonal, formando grupos derivados de células que continuaram sobrevivendo e se multiplicando no interior do tecido.
Nesse contexto, sinais enviados pelo nicho celular, especialmente aqueles relacionados ao ligante de KIT, contribuíram para sustentar a sobrevivência e a proliferação dessas células, em vez de direcioná-las para a eliminação observada no outro cenário.
Mantidas no sistema, as células danificadas formaram agrupamentos associados ao início do melanoma nos modelos animais, revelando como o ambiente ao redor pode interferir na resposta adotada após uma lesão no material genético.
Dessa forma, envelhecimento e câncer apareceram como possíveis resultados concorrentes de uma resposta ao estresse celular, já que o esgotamento das células-tronco favoreceu a perda de pigmentação, enquanto sua permanência ampliou o risco de expansão anormal.
O que o estudo permite afirmar sobre fios grisalhos e melanoma
Apesar de oferecer uma explicação celular para a ligação entre cabelos grisalhos, danos no DNA e melanoma, a pesquisa foi conduzida em camundongos e ainda não comprova que o mesmo mecanismo ocorra de maneira idêntica em seres humanos.
Por essa razão, o embranquecimento dos fios não pode ser interpretado como sinal clínico, método preventivo contra o câncer ou indicador confiável do risco individual de desenvolver melanoma.
A Universidade de Tóquio também esclarece que cabelos grisalhos não impedem o surgimento de tumores, pois a descoberta descreve apenas uma das respostas possíveis das células diante de lesões genéticas e sinais do microambiente.
Enquanto a seno-diferenciação retira células potencialmente nocivas do reservatório do folículo, o bloqueio desse mecanismo permite que unidades danificadas sobrevivam e se multipliquem, dependendo das condições presentes no tecido em que estão inseridas.
Essa diferença evita interpretações simplistas, uma vez que fios brancos não significam ausência de melanoma, assim como cabelos ainda pigmentados não indicam a existência da doença ou de alterações celulares capazes de iniciá-la.
Ao revelar decisões distintas tomadas pelas mesmas células, o estudo amplia a compreensão sobre envelhecimento, reparo do DNA e câncer, além de abrir espaço para novas pesquisas sobre mecanismos biológicos visíveis no corpo humano.
Se o embranquecimento pode refletir uma escolha celular entre desaparecer ou continuar se multiplicando, quantos outros sinais do envelhecimento também podem esconder mecanismos de defesa que a ciência ainda não conseguiu identificar?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

