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Cientistas brasileiros rastreiam corredores invisíveis que levam calor dos trópicos ao coração da Antártica, associam quase 80% das ondas de calor no interior do continente a esses fluxos e ajudam a explicar salto de 43 °C

Cientistas brasileiros rastreiam corredores invisíveis que levam calor dos trópicos ao coração da Antártica, associam quase 80% das ondas de calor no interior do continente a esses fluxos e ajudam a explicar salto de 43 °C

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Cientistas brasileiros rastreiam corredores invisíveis que levam calor dos trópicos ao coração da Antártica, associam quase 80% das ondas de calor no interior do continente a esses fluxos e ajudam a explicar salto de 43 °C

Escrito por Geovane Souza

Publicado em 29/07/2026 às 15:44

Ciência e Tecnologia

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Pesquisa brasileira liga quase 80% das ondas de calor no interior da Antártica a rios atmosféricos vindos dos trópicos

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Dados do laboratório Criosfera 1 indicam que correntes de calor e umidade avançam por milhares de quilômetros, alcançam áreas próximas ao Polo Sul e aumentam a preocupação com geleiras capazes de elevar o nível dos oceanos

Um sistema atmosférico invisível está levando ar quente e grandes volumes de vapor d’água das regiões tropicais até áreas antes consideradas protegidas pelo frio extremo da Antártica. Dados apresentados por pesquisadores brasileiros relacionam esses chamados rios atmosféricos a quase 80% das ondas de calor detectadas no interior do continente.

O percentual foi obtido a partir de observações do Criosfera 1, laboratório brasileiro automático instalado no planalto antártico, combinadas com informações de modelos climáticos. No início do período analisado, os rios atmosféricos estavam associados a cerca de 25% dos episódios de aquecimento registrados naquela região.

De acordo com a Agência FAPESP, os resultados foram apresentados pelo professor Heitor Evangelista da Silva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. O pesquisador coordena o monitoramento desses eventos e o trabalho científico realizado no Criosfera 1.

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Os dados não significam que um único mecanismo explique todo o aquecimento da Antártica. Eles mostram, porém, que a entrada rápida de ar quente e úmido ganhou peso nos eventos extremos observados no interior, onde pequenas alterações podem modificar a formação de nuvens, a precipitação e a temperatura da superfície.

Corredores de vapor atravessam o oceano e conseguem romper a barreira de frio do continente

Rios atmosféricos são faixas relativamente estreitas e alongadas da atmosfera que concentram vapor d’água e ventos intensos. Eles podem percorrer milhares de quilômetros, conectando áreas oceânicas quentes a regiões muito mais frias.

Na Antártica, esses corredores transportam umidade de latitudes menores, atravessam o Oceano Austral e alcançam a costa. Quando encontram condições favoráveis de circulação, conseguem avançar pelo planalto, levando calor para centenas de quilômetros dentro do continente.

Durante a apresentação, Heitor Evangelista afirmou que aproximadamente 90% da umidade transportada dos trópicos para as áreas polares estaria relacionada aos rios atmosféricos. A programação oficial da SBPC confirma que a conferência sobre as implicações desses sistemas para o degelo e suas conexões com os trópicos ocorreu em 27 de julho de 2026, no campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

A consequência depende da temperatura encontrada no caminho. Em partes muito frias, a umidade pode produzir neve e aumentar temporariamente o acúmulo de massa sobre o gelo. Em situações mais quentes, porém, a combinação de vapor, nuvens e radiação pode elevar bruscamente a temperatura e favorecer derretimento superficial.

O episódio de 2022 mostrou que o calor pode chegar a um dos pontos mais frios da Terra

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O caso que mais chamou a atenção ocorreu em março de 2022, quando uma onda de calor atingiu a Antártica Oriental. Na estação científica Concórdia, localizada no planalto antártico, a temperatura ficou cerca de 40 °C acima da média esperada, chegando a uma anomalia de 43 °C no recorte apresentado pelos pesquisadores brasileiros.

Mesmo com a forte elevação, os termômetros permaneceram abaixo de zero. A estação registrou aproximadamente -9,4 °C em 18 de março, um valor excepcional para um período em que as médias diárias costumam permanecer entre -40 °C e -50 °C.

Um estudo publicado em 2026 na revista Communications Earth & Environment concluiu que a onda de calor foi impulsionada por um rio atmosférico e amplificada pela ação das nuvens e do vapor d’água. Segundo a pesquisa, o clima atual acrescentou até 10 °C ao aquecimento próximo da superfície, em comparação com condições pré-industriais simuladas.

O mecanismo funciona porque o vapor d’água e determinadas nuvens dificultam a perda de calor da superfície para o espaço. O efeito aumenta durante eventos extremos, sobretudo quando grandes volumes de ar úmido alcançam rapidamente uma região normalmente seca e isolada.

Medições brasileiras também identificaram temperaturas de até -3 °C na latitude 84 Sul, perto do limite em que o gelo superficial pode começar a derreter nas condições locais. Caso episódios semelhantes se tornem frequentes durante o verão antártico, áreas remotas do planalto poderão registrar derretimento onde esse processo ainda é raro.

A preocupação cresce nas geleiras que seguram o gelo da Antártica Ocidental

Os rios atmosféricos não atingem todas as partes do continente com a mesma força. O setor oeste e a Península Antártica estão entre as regiões mais vulneráveis porque recebem influência de massas de ar úmidas e de correntes oceânicas relativamente quentes.

A atenção está concentrada nas geleiras Thwaites e Pine Island. Suas plataformas flutuantes atuam como barreiras que reduzem a velocidade de escoamento do gelo apoiado sobre o continente. Quando essas estruturas afinam ou se rompem, o gelo terrestre pode avançar mais depressa em direção ao oceano.

A geleira Thwaites contém volume suficiente para elevar o nível médio global do mar em cerca de 65 centímetros ao longo dos próximos séculos, caso ocorra um colapso completo. A Pine Island possui gelo equivalente a aproximadamente meio metro adicional, embora o ritmo e a extensão dessas perdas continuem cercados de incertezas.

Como informou o British Antarctic Survey, a combinação do escoamento completo das duas geleiras com a desestabilização de áreas vizinhas poderia produzir uma elevação superior a 1 metro durante os próximos séculos. A instituição também observa que águas oceânicas mais quentes já estão afinando essas plataformas por baixo.

A redução do gelo marinho deixa o oceano exposto e altera o equilíbrio de energia

Outro sinal acompanhado pelos pesquisadores é a redução da cobertura de gelo marinho ao redor da Antártica. Diferentemente do gelo apoiado em terra, seu derretimento não aumenta diretamente o nível do mar, porque ele já está flutuando.

A perda dessa superfície branca, no entanto, reduz o chamado albedo. O gelo reflete grande parte da radiação solar, enquanto a água escura absorve mais energia e aquece, o que pode retardar a formação de novo gelo e alterar a circulação próxima à costa.

Segundo o National Snow and Ice Data Center, a extensão do gelo marinho antártico apresentou forte variação ao longo do registro iniciado em 1979. Depois de máximas históricas entre 2012 e 2015, a cobertura permaneceu predominantemente abaixo da média a partir de 2016, com recordes mínimos registrados em 2023.

Os cientistas ainda investigam quanto dessa mudança representa uma transição duradoura e quanto decorre da variabilidade natural do Oceano Austral. A sequência de anos com baixa cobertura, porém, aumenta a exposição das plataformas de gelo a ondas e águas mais quentes.

Laboratório brasileiro coleta dados automáticos a cerca de 600 quilômetros do Polo Sul

O Criosfera 1 foi instalado no verão de 2011 para 2012, nas coordenadas 84 graus Sul e 79 graus Oeste, a aproximadamente 1.200 metros de altitude. O módulo funciona de forma remota, produz energia com equipamentos próprios e envia dados por satélite.

Como informa o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o laboratório está no centro-oeste da Antártica, a cerca de 600 quilômetros do Polo Sul. Sua localização permite registrar fenômenos que dificilmente seriam acompanhados por missões humanas permanentes, devido às temperaturas extremas e à distância das bases costeiras.

Os equipamentos monitoram temperatura, gases de efeito estufa, aerossóis, radiação, composição da atmosfera e acúmulo de neve. Esses registros são comparados com dados de satélite e reanálises climáticas, ajudando a identificar situações em que os modelos subestimam picos de temperatura no interior.

A equipe brasileira planeja ampliar a transmissão em tempo real e instalar o primeiro telescópio nacional no continente. O objetivo é manter observações contínuas de uma área que influencia a circulação atmosférica, os oceanos e o nível do mar muito além da região polar.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

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