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Cientistas colaram etiquetas semelhantes a QR codes nas costas de mais de 32 mil abelhas, instalaram câmeras 24 horas nas entradas de seis apiários e transformaram cada voo em registro individual, descobrindo operárias que passavam mais de duas horas longe da colmeia
Escrito por Ana Alice
Publicado em 25/07/2026 às 22:46
Atualizado em 25/07/2026 às 22:47
Ciência e Tecnologia
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Etiquetas minúsculas, câmeras contínuas e milhares de registros individuais revelaram padrões invisíveis no vai e vem das colmeias, abrindo novas formas de estudar como as abelhas buscam alimento e respondem ao ambiente.
Uma etiqueta menor que a unha do dedo mínimo permitiu que pesquisadores acompanhassem individualmente milhares de abelhas sem instalar transmissores de GPS.
Colados no tórax das operárias, os pequenos marcadores eram reconhecidos por câmeras sempre que cada inseto saía ou retornava à colmeia.
O experimento foi realizado em áreas rurais dos estados norte-americanos da Pensilvânia e de Nova York.
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Ao longo das temporadas de primavera e verão, a equipe marcou mais de 32 mil abelhas e instalou sistemas automatizados nas entradas das colmeias distribuídas por seis locais de pesquisa.
O trabalho foi publicado em dezembro de 2024 na revista científica HardwareX e apresentado pela Universidade Estadual da Pensilvânia, a Penn State, em janeiro de 2025.
Embora tenha chamado atenção pela aparência dos códigos, a pesquisa tratava de uma questão difícil de responder apenas com observação humana: quanto tempo cada abelha permanece fora da colônia e o que esse intervalo pode revelar sobre a busca por alimento.
Etiquetas nas abelhas não eram QR codes convencionais
Os símbolos usados pelos cientistas são chamados de AprilTags, uma modalidade de marcador visual fiducial.
Eles lembram QR codes pelo desenho formado por quadrados pretos e brancos, mas foram desenvolvidos para que câmeras identifiquem rapidamente a posição e o código único de um objeto.
Cada etiqueta funcionava como uma espécie de matrícula individual.
Quando a abelha atravessava a entrada adaptada da colmeia, o sistema registrava sua identificação, a data, o horário, a direção do movimento e a temperatura observada naquele momento.
Isso permitia distinguir uma operária de milhares de outras visualmente semelhantes.
Em vez de apenas contar quantas abelhas entravam e saíam, os pesquisadores conseguiam reconstruir uma sequência temporal para cada indivíduo acompanhado.
As etiquetas foram fixadas no tórax, a parte central do corpo onde ficam as asas e as pernas.
Segundo a equipe, os marcadores eram pequenos o suficiente para não impedir o movimento das operárias nem causar danos durante o monitoramento.
Câmeras registraram entradas e saídas das colmeias
O sistema recebeu o nome de BeeCam-AprilTag e foi construído com câmeras, sensores e pequenos computadores Raspberry Pi.
Uma passagem personalizada direcionava as abelhas por uma área na qual os marcadores poderiam ser capturados quando elas deixavam a colônia ou voltavam do campo.
As câmeras funcionavam 24 horas por dia, sete dias por semana.
Cada colmeia monitorada tinha um microcomputador ligado ao equipamento, enquanto os dados eram recolhidos pelos pesquisadores durante visitas semanais aos apiários.
O objetivo não era filmar continuamente todos os movimentos dentro da colônia.
A tecnologia se concentrava na fronteira entre o interior e o exterior da colmeia, transformando cada travessia reconhecida em uma linha de dados.
Quando uma abelha identificada saía às 8h e voltava às 8h12, por exemplo, o sistema podia associar os dois registros e calcular um intervalo de 12 minutos.
Multiplicado por milhares de indivíduos e por vários meses, esse método produz uma quantidade de observações impossível de ser reunida apenas por pesquisadores posicionados diante das caixas.
“Na biologia de campo, normalmente observamos as coisas com os próprios olhos, mas o número de observações que conseguimos fazer nunca alcançará a escala do que uma máquina pode realizar”, afirmou Margarita López-Uribe, professora de entomologia da Penn State e uma das autoras do estudo.
Mais de 32 mil abelhas receberam identificação individual
A equipe selecionava principalmente operárias jovens, recém-saídas das células onde haviam se desenvolvido.
A idade conhecida permitia observar quando cada uma começava a voar e por quanto tempo continuava aparecendo nos registros.
A cada duas semanas, os cientistas marcavam novos grupos de aproximadamente 600 abelhas em conjuntos de colônias.
Somadas as diferentes etapas do experimento, mais de 32 mil receberam uma identificação visual nos seis locais de campo.
As abelhas jovens também eram consideradas mais fáceis de manusear porque seu corpo ainda era mais macio e elas não costumavam ferroar nessa fase.
Depois de amadurecerem e iniciarem os voos, passavam a aparecer diante das câmeras sem que precisassem ser novamente capturadas.
A marcação não permitia acompanhar a posição da abelha depois que ela desaparecia da entrada.
O sistema não mostrava a rota, a velocidade nem o ponto exato onde a operária coletava néctar ou pólen; ele registrava apenas a saída, um eventual retorno e o intervalo entre esses eventos.
Essa diferença é importante porque passar muito tempo longe da colmeia não significa necessariamente voar para um lugar distante.
Uma abelha pode permanecer sobre uma flor, aguardar condições melhores, explorar várias fontes de alimento, descansar ou não retornar.
Maioria das abelhas fez saídas de poucos minutos
Na análise divulgada pela universidade, grande parte das viagens durou entre um e quatro minutos.
Segundo os pesquisadores, alguns desses deslocamentos curtos poderiam estar ligados à verificação das condições externas, a voos de orientação ou à saída para eliminação de resíduos.
Os percursos classificados como mais longos geralmente permaneceram abaixo de 20 minutos.
Em determinados períodos com menor oferta de flores, porém, as operárias passaram mais tempo fora, comportamento que pode estar relacionado à necessidade de procurar alimento em uma área maior.
O resultado que mais repercutiu foi a presença de intervalos superiores a duas horas em 34% das abelhas marcadas.
Esse número, no entanto, exige cautela, pois não confirma que todas permaneceram forrageando durante todo o período.
A própria equipe apresentou três explicações possíveis.
O registro poderia representar uma viagem excepcionalmente longa, uma abelha que saiu e nunca retornou ou uma falha de leitura na entrada, especialmente se o inseto atravessasse a passagem com o marcador fora do ângulo alcançado pela câmera.
Por isso, o estudo identificou ausências prolongadas, mas não determinou com segurança o que ocorreu durante todas elas.
O dado revela um padrão registrado pelo sistema, e não uma observação direta de cada abelha durante duas horas de voo.
Abelhas paradas na entrada criaram registros repetidos
O funcionamento contínuo também produziu um problema inesperado.
Algumas operárias permaneciam circulando ou paradas perto da entrada da colmeia, fazendo com que seus códigos fossem lidos centenas de vezes no mesmo dia.
Sem tratamento, essa repetição poderia ser interpretada como uma sucessão de entradas e saídas.
Os pesquisadores desenvolveram filtros no programa para remover ocorrências consideradas sem significado para a análise dos voos.
Assista o vídeo
A posição do corpo representava outra limitação.
Caso a etiqueta estivesse encoberta ou voltada para baixo durante a travessia, o sistema poderia registrar a saída e perder o retorno, criando artificialmente uma ausência muito longa.
Esses exemplos mostram por que a automação não elimina a necessidade de revisar os dados.
As máquinas aumentam a escala da coleta, mas as informações ainda precisam ser examinadas à luz do comportamento natural das abelhas e das limitações das câmeras.
Sistema usou peças disponíveis no mercado
Além do acompanhamento dos insetos, o projeto buscou criar uma tecnologia que pudesse ser reproduzida por outras equipes.
O hardware e os programas foram documentados em formato aberto, permitindo adaptações a diferentes ambientes de pesquisa.
O conjunto utilizava componentes disponíveis comercialmente e podia operar em áreas rurais com energia solar.
De acordo com a Penn State, os equipamentos necessários custaram menos de US$ 1.500 por apiário, considerando uma estrutura com seis colônias.
Essa característica diferencia o sistema de tecnologias desenvolvidas apenas para laboratórios controlados.
No campo, o equipamento precisa resistir às variações de temperatura, à umidade, à poeira e à distância de redes convencionais de energia e comunicação.
A publicação na HardwareX também teve função prática.
A revista descreve detalhadamente equipamentos e métodos para que outros cientistas possam reproduzir, testar e aperfeiçoar as soluções apresentadas.
Assista o vídeo
Tempo fora da colmeia não revela sozinho a distância
Uma das metas do grupo era investigar se a duração das viagens poderia ajudar a estimar a distância percorrida.
Até então, um dos métodos mais usados para estudar esse deslocamento era a observação da chamada dança do requebrado.
Ao retornar de uma fonte de alimento, a abelha pode realizar movimentos que comunicam às companheiras a direção e a distância aproximada do recurso.
Decodificar essas danças exige tempo e costuma limitar a quantidade de indivíduos observados.
A medição automática das saídas e retornos parecia oferecer uma alternativa para ampliar a análise.
Ainda assim, um trabalho acadêmico apresentado na Virginia Tech em 2026 mostrou que a relação entre duração e distância é mais complexa do que uma simples conversão de minutos em quilômetros.
Em testes com alimentadores artificiais colocados em posições conhecidas, o tempo de voo aumentou conforme a distância crescia.
Quando a comparação envolveu abelhas que buscavam alimento livremente e realizavam a dança, entretanto, a duração não produziu estimativas precisas da distância percorrida.
O resultado indica que o tempo fora da colmeia pode funcionar como referência em condições controladas, mas deve ser usado com cautela no ambiente natural.
Durante o forrageamento livre, fatores como tipo de alimento, permanência nas flores, rota escolhida e confiabilidade da fonte alteram a duração da viagem.
Tecnologia pode contribuir com a apicultura orgânica
O interesse pelas distâncias está relacionado, entre outros temas, ao manejo de colmeias sem pesticidas sintéticos.
Para certificar uma produção como orgânica, seria necessário saber qual área ao redor do apiário precisa estar livre ou protegida de determinadas substâncias.
Abelhas melíferas conseguem percorrer vários quilômetros quando necessário, mas isso não significa que todas façam viagens tão longas diariamente.
A distância usada por uma colônia depende da quantidade e da distribuição das flores disponíveis em cada época.
Em 2010, um conselho ligado ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos recomendou critérios específicos para a certificação de mel e outros produtos apícolas orgânicos.
As regras federais propostas, contudo, não foram aprovadas.
Ao produzir dados em grande escala, a BeeCam-AprilTag pode colaborar com estudos sobre quanto tempo as operárias passam fora, quando começam a forragear e como mudanças na oferta de flores alteram a atividade.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

