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Cientistas perfuram lago na China e descobrem mais de 50 anos de microplásticos enterrados na lama, revelando como fibras e partículas invisíveis acompanham a humanidade desde o início da era do plástico moderno

Cientistas perfuram lago na China e descobrem mais de 50 anos de microplásticos enterrados na lama, revelando como fibras e partículas invisíveis acompanham a humanidade desde o início da era do plástico moderno

6 min de leitura

Cientistas perfuram lago na China e descobrem mais de 50 anos de microplásticos enterrados na lama, revelando como fibras e partículas invisíveis acompanham a humanidade desde o início da era do plástico moderno

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 24/07/2026 às 21:12

Ciência e Tecnologia

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Cientistas perfuram lago na China e descobrem 100 anos de microplásticos enterrados na lama

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Estudo publicado na Environmental Science & Technology revela que sedimentos do lago Huguangyan Maar, na China, guardam uma espécie de arquivo invisível da poluição moderna, com sinais de microplásticos preservados desde 1955.

Cientistas analisaram camadas de lama acumuladas no fundo de um lago na China e encontraram um registro silencioso da poluição moderna: microplásticos enterrados em sedimentos ao longo de mais de seis décadas.

O estudo foi publicado em junho de 2024 na revista Environmental Science & Technology, da American Chemical Society, e investigou núcleos sedimentares do Huguangyan Maar Lake, um lago profundo e fechado no sul da China. A pesquisa mostra que as primeiras partículas detectáveis apareceram em camadas datadas de 1955, com concentração inicial de 1,1 item por grama.

O resultado transforma o fundo do lago em uma espécie de arquivo ambiental da era do plástico. Nas camadas mais antigas, aparecem os primeiros vestígios. Nas mais recentes, surgem sinais mais intensos de fibras, fragmentos e polímeros associados ao avanço da produção industrial, da urbanização e do consumo moderno.

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Lago fechado preservou a história da poluição

O Huguangyan Maar Lake foi escolhido porque tem características raras para esse tipo de investigação. Segundo o estudo, trata-se de um lago profundo, fechado, sem entradas e saídas de água, condição que ajuda a preservar um registro sedimentar estável ao longo do tempo.

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Em um lago comum, rios, correntes e fluxos externos podem misturar sedimentos e dificultar a leitura histórica.

No caso do Huguangyan Maar, a lama acumulada no fundo funciona como uma sequência de páginas, com cada camada guardando pistas de um período diferente.

Por isso, o local se tornou ideal para reconstruir a trajetória dos microplásticos. Em vez de medir apenas a contaminação atual da água, os cientistas conseguiram observar quando essas partículas começaram a se depositar e como sua presença mudou entre 1955 e 2019.

Microplásticos apareceram desde 1955

A descoberta mais chamativa está na idade dos primeiros vestígios. A pesquisa identificou os microplásticos detectáveis mais antigos em uma camada datada de 1955, com 1,1 item por grama de sedimento.

Entre 1955 e 2019, a abundância variou de valores não detectados até 615,2 itens por grama, com média de 134,9 itens por grama.

Esses números mostram que a contaminação não surgiu de forma uniforme; ela acompanhou mudanças econômicas, industriais e sociais.

Foto: acs

O estudo também registrou uma leve queda durante os anos 1970, seguida por aumento rápido após a política chinesa de Reforma e Abertura, iniciada em 1978.

A curva dos microplásticos, portanto, aparece conectada ao ritmo da transformação econômica e industrial do país.

Partículas tinham entre 10 e 500 micrômetros

Os pesquisadores analisaram microplásticos com tamanho entre 10 e 500 micrômetros. Para detectar essas partículas minúsculas, foi usado um sistema chamado Laser Direct Infrared Imaging, técnica capaz de identificar características químicas dos materiais.

Esse detalhe é importante porque grande parte da poluição plástica não aparece como garrafa, sacola ou embalagem inteira.

Ela surge como fragmentos quase invisíveis, fibras desprendidas de tecidos, partículas resultantes de desgaste e pedaços muito pequenos de materiais sintéticos.

Segundo o estudo, partículas entre 10 e 100 micrômetros representaram 80% do total encontrado. Ou seja, a maior parte da contaminação preservada na lama estava concentrada justamente nas frações menores e mais difíceis de perceber a olho nu.

Polietileno e polipropileno dominaram o registro

A pesquisa identificou 16 tipos de polímeros nos sedimentos analisados. Entre eles, os principais foram polietileno e polipropileno, que responderam por 23,5% e 23,3% da abundância total, respectivamente.

Esses dois materiais estão entre os plásticos mais comuns do cotidiano. Eles aparecem em embalagens, recipientes, filmes plásticos, tampas, sacolas, produtos descartáveis e uma grande variedade de bens de consumo.

O resultado mostra como materiais amplamente usados pela sociedade podem deixar marcas duradouras no ambiente.

Mesmo quando o objeto original desaparece, se fragmenta ou é descartado longe do lago, suas partículas podem viajar, se depositar e permanecer registradas no sedimento.

Lama revelou impacto da economia e da indústria

O estudo não se limitou a contar partículas. Os pesquisadores usaram modelos estatísticos, incluindo random forest, para investigar quais fatores estavam mais associados ao acúmulo de microplásticos no lago.

Os fatores socioeconômicos dominaram a explicação da acumulação. Segundo o artigo, entre 1955 e 2019, a produção da indústria ligada ao plástico contribuiu com 35,1%, o PIB per capita com 13,9% e a produção agrícola total com 9,3%.

Cientistas perfuram lago na China e descobrem anos de microplásticos enterrados na lama

Ele registrou a assinatura material do crescimento econômico, do aumento da produção industrial e da transformação do consumo em partículas preservadas no fundo.

Agricultura também apareceu no modelo

A produção agrícola total também entrou como fator associado ao acúmulo de microplásticos. O estudo indica contribuição de 9,3% entre 1955 e 2019, com aumento adicional de 1,7% após 1978.

Esse dado sugere que a poluição por microplásticos não está ligada apenas a cidades, fábricas e embalagens urbanas. Ela também pode se relacionar a atividades no entorno, uso do solo, erosão e transporte de partículas para dentro dos sistemas sedimentares.

O artigo aponta que o aumento de partículas sedimentares mais grossas, associado à erosão do solo, agravou a descarga de microplásticos para o sedimento. Assim, a lama do lago preservou não só plásticos, mas também sinais de mudanças no território.

Camadas do lago funcionam como arquivo ambiental

A principal força do estudo está na ideia de arquivo natural. Assim como anéis de árvores podem registrar secas e sedimentos marinhos podem preservar metais, o fundo do Huguangyan Maar Lake preservou microplásticos em sequência temporal.

O artigo afirma que registros de microplásticos em núcleos de lagos podem reconstruir a história da poluição plástica, mas ainda havia pouca compreensão sobre a relação entre atividades humanas e acumulação dessas partículas.

Ao combinar datação sedimentar, identificação química de polímeros e indicadores socioeconômicos, a pesquisa conseguiu ligar partículas microscópicas a décadas de transformação humana. O lago virou uma espécie de testemunha silenciosa da era do plástico moderno.

Estudo não fala de vida nova ou espécie inédita

O foco da pesquisa não está em descobrir organismos, espécies ou novas formas de vida. O ponto central é rastrear materiais artificiais deixados pela sociedade moderna em um ambiente natural.

As partículas encontradas contam uma história de produção, consumo, descarte e transporte ambiental. Elas mostram como plásticos criados para uso cotidiano podem se fragmentar e permanecer como resíduos microscópicos durante décadas.

Descoberta mostra a profundidade da era do plástico

O estudo no lago chinês mostra que a poluição por microplásticos não está apenas flutuando em oceanos ou presa em praias. Ela também está enterrada, compactada e organizada em camadas no fundo de lagos.

As primeiras partículas detectáveis surgiram em 1955, e a abundância aumentou de forma marcada nas décadas seguintes.

O registro acompanha a consolidação do plástico como material dominante em embalagens, indústria, agricultura e bens de consumo.

O que parecia invisível no dia a dia virou um sinal mensurável no subsolo aquático. Fibras, fragmentos e partículas microscópicas passaram a fazer parte da memória geológica recente do planeta.

Lama do lago expõe um rastro moderno

O Huguangyan Maar Lake mostra que a poluição plástica não desaparece quando sai do campo de visão. Parte dela se quebra, viaja, afunda e permanece preservada por décadas em sedimentos.

A pesquisa encontrou 16 polímeros, predominância de polietileno e polipropileno, partículas majoritariamente entre 10 e 100 micrômetros e uma curva de crescimento ligada a fatores socioeconômicos.

Desde os primórdios da era do plástico moderno, a humanidade vem deixando uma assinatura invisível no ambiente.

No fundo de um lago chinês, essa assinatura apareceu enterrada na lama, camada por camada, como um registro silencioso da transformação industrial do último século.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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