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Cientistas perfuraram o fundo do Oceano Pacífico e acordaram micróbios presos em sedimentos de 101,5 milhões de anos, dos quais até 99% ainda estavam vivos e voltaram a se multiplicar quando receberam comida em laboratório

Cientistas perfuraram o fundo do Oceano Pacífico e acordaram micróbios presos em sedimentos de 101,5 milhões de anos, dos quais até 99% ainda estavam vivos e voltaram a se multiplicar quando receberam comida em laboratório

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Cientistas perfuraram o fundo do Oceano Pacífico e acordaram micróbios presos em sedimentos de 101,5 milhões de anos, dos quais até 99% ainda estavam vivos e voltaram a se multiplicar quando receberam comida em laboratório

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 23/07/2026 às 23:57

Ciência e Tecnologia

Micróbios de 101,5 milhões de anos voltaram a se multiplicar em laboratório. Até 99,1% seguiam vivos no sedimento do Pacífico; veja como foi o experimento.

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O estudo publicado na revista Nature Communications analisou 6.986 células individuais retiradas de sedimentos entre 3.700 e 5.700 metros abaixo da superfície do Pacífico. Alimentados em laboratório, os micróbios se multiplicaram em quatro ordens de magnitude ao longo de 68 dias, mesmo nas amostras mais antigas do conjunto.

Micróbios que ficaram enterrados no fundo do Oceano Pacífico desde a época em que os dinossauros dominavam a Terra voltaram a comer e a se dividir dentro de um laboratório no Japão. O material analisado tem até 101,5 milhões de anos, e a taxa de sobrevivência encontrada pela equipe surpreendeu até quem conduziu o experimento: segundo o autor principal do estudo, até 99,1% dos organismos presentes na amostra mais antiga ainda estavam vivos e prontos para se alimentar.

A pesquisa foi publicada na revista científica Nature Communications em 28 de julho de 2020, sob a liderança de Yuki Morono, da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha-Terrestre, a JAMSTEC. O trabalho reuniu ainda pesquisadores da Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Industrial Avançada, da Universidade de Kochi e da Marine Works Japan.

Os 99,1% que surpreenderam o próprio pesquisador

Micróbios de 101,5 milhões de anos voltaram a se multiplicar em laboratório. Até 99,1% seguiam vivos no sedimento do Pacífico; veja como foi o experimento.

O número que dá manchete à história merece a devida contextualização. Ele aparece em declaração do próprio autor principal, que admitiu ter começado o trabalho cético em relação ao que encontraria.

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Segundo Morono, a expectativa era outra. A conclusão foi de que até 99,1% dos micróbios presentes em sedimento depositado há 101,5 milhões de anos continuavam vivos e prontos para comer. Não estavam ativos, não estavam se reproduzindo, não estavam consumindo energia de forma perceptível. Estavam, na descrição usada pela equipe, esperando.

A pergunta que originou a pesquisa era mais modesta que a resposta obtida. O grupo queria saber se a vida conseguiria existir em um ambiente tão pobre em nutrientes, ou se aquela região era simplesmente uma zona morta. A resposta veio no extremo oposto do esperado.

Onde exatamente estavam enterrados esses micróbios

A localização é parte essencial da história e explica por que o achado é tão improvável. As amostras vieram da planície abissal do Giro do Pacífico Sul, um sistema de correntes rotativas no Oceano Pacífico.

A profundidade impressiona por si só. O material foi coletado entre 3.700 e 5.700 metros abaixo da superfície do oceano, e os micróbios não estavam na água, e sim dentro das camadas de sedimento depositadas no fundo, abaixo desse ponto. É uma dupla camada de isolamento: quilômetros de água em cima, metros de lama compactada em volta.

Presos nessas camadas, os organismos mal conseguiam se mover ou se alimentar. É esse aprisionamento, aliás, que torna a datação confiável: sedimento se deposita em camadas sucessivas, e a idade de cada camada pode ser estimada com precisão razoável. Quem está preso na camada de 101,5 milhões de anos está ali desde então.

O ponto mais isolado do planeta

Há um detalhe geográfico que transforma o achado em algo ainda mais extremo. O centro do Giro do Pacífico Sul contém o chamado polo oceânico de inacessibilidade, que é o ponto da Terra mais distante de qualquer terra firme.

Essa condição tem consequência biológica direta. Longe de continentes, aquela região recebe pouquíssima matéria orgânica trazida por rios ou pelo vento, e é descrita como a porção de menor produtividade de todo o oceano. Na prática, é um deserto marinho: quase nada morre lá em cima para alimentar quem está lá embaixo.

Foi justamente por isso que o local foi escolhido para a expedição. Se existisse um lugar no planeta onde a vida deveria fracassar por falta de comida, seria ali. O experimento acabou provando o contrário, e é essa inversão que dá peso científico ao resultado.

Vale imaginar a cena para dimensionar o isolamento desses micróbios. Enquanto eles estavam ali parados, continentes se moveram, o Atlântico se alargou, os dinossauros foram extintos, os mamíferos ocuparam a Terra e a espécie humana surgiu e construiu civilizações inteiras. Nada disso chegou até aquela camada de lama. É provavelmente o lugar mais entediante do planeta, e é exatamente por isso que a vida se preservou lá.

O paradoxo: quase nenhuma comida, mas muito oxigênio

Micróbios de 101,5 milhões de anos voltaram a se multiplicar em laboratório. Até 99,1% seguiam vivos no sedimento do Pacífico; veja como foi o experimento.

Aqui está o mecanismo que explica a sobrevivência, e ele costuma ser mal contado nas versões resumidas. O ponto central do estudo não é que os micróbios sobreviveram sem oxigênio. É o contrário.

Aquela região tem poucos recursos alimentares, mas abriga uma grande quantidade de oxigênio nas profundezas do subsolo marinho. O sedimento ali é oxigenado, e é essa característica que aparece até no título original do artigo científico, que fala em vida microbiana aeróbica persistindo em sedimento marinho oxigenado com até 101,5 milhões de anos.

A explicação proposta pelos pesquisadores liga as duas coisas. Quando o sedimento se acumula muito lentamente, como acontece naquela região desértica do oceano, o oxigênio fica aprisionado nas camadas em vez de ser consumido rapidamente por microrganismos famintos. Sobra oxigênio porque falta comida. E é essa sobra que permite aos micróbios manterem a capacidade metabólica por tempo inimaginável.

A expedição de 2010 e o navio-sonda

As amostras não foram coletadas ontem. Elas vieram de uma expedição realizada em 2010, identificada como Expedição 329 do Programa Integrado de Perfuração Oceânica, batizada de Vida Subsuperficial no Giro do Pacífico Sul.

A perfuração foi feita a bordo do navio-sonda JOIDES Resolution, embarcação dedicada à coleta de testemunhos de sedimento em alto-mar. Ou seja, houve um intervalo de dez anos entre a coleta do material e a publicação do estudo, tempo consumido pelo desenvolvimento das técnicas necessárias para analisar as células uma a uma.

Vale registrar quem bancou o trabalho, porque isso faz parte da transparência científica. O estudo teve apoio da Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência, de um programa japonês de financiamento a pesquisadores de nova geração e da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos.

Esse intervalo de dez anos entre a coleta e a publicação diz algo sobre como funciona a pesquisa em micróbios antigos. Não bastava trazer a lama para casa: era preciso desenvolver um método capaz de provar que as células encontradas eram realmente daquele sedimento, e não contaminação trazida pelo equipamento, pela água do mar ou pelas mãos de quem manipulou a amostra. Boa parte da década foi consumida exatamente nisso.

O experimento: 68 dias e quatro ordens de magnitude

De volta ao laboratório, a equipe fez o que parece simples e não é: ofereceu comida aos micróbios e observou o que acontecia. Os substratos fornecidos foram compostos de carbono e nitrogênio, marcados com isótopos para permitir rastreamento.

O resultado foi rápido e vigoroso. Ao longo de 68 dias, a grande maioria das 6.986 células individuais analisadas respondeu às novas condições, e o número total de organismos aumentou em quatro ordens de magnitude. Quatro ordens de magnitude significa multiplicação por dez mil.

Esse crescimento aconteceu inclusive nas amostras mais antigas do conjunto, que é o dado mais impressionante de todos. Não se trata de micróbios recentes se reproduzindo enquanto os antigos permaneciam inertes. A resposta apareceu ao longo de toda a faixa de idade analisada.

A técnica que permitiu contar célula por célula

Um estudo desse tipo depende inteiramente do método de análise, e é aí que está a inovação técnica do trabalho. A equipe usou espectrometria de massa de íons secundários em escala nanométrica, conhecida pela sigla NanoSIMS.

O que essa ferramenta faz é medir a composição isotópica de uma amostra em resolução microscópica. Como os pesquisadores marcaram o carbono e o nitrogênio oferecidos com isótopos rastreáveis, foi possível verificar, célula por célula, quais organismos realmente incorporaram aquele alimento.

Essa distinção é decisiva para a credibilidade do resultado. Sem ela, restaria a dúvida clássica em estudos de sedimento antigo: os micróbios encontrados são realmente antigos ou são contaminação moderna que entrou durante a coleta ou o manuseio. Ao rastrear a incorporação de substrato em cada célula, a equipe reduziu bastante essa margem de dúvida.

Nitrogênio antes do carbono: um detalhe que passa despercebido

Entre os achados menos divulgados do artigo, há um que chama atenção de quem trabalha com microbiologia. A resposta dos micróbios não foi igual para os dois nutrientes oferecidos.

Segundo o estudo, a incorporação de nitrogênio foi em média 3,09 vezes mais rápida que a de carbono. É um número específico, medido, e não uma impressão geral, e ele sugere que o nitrogênio era o recurso mais limitante naquele ambiente.

Faz sentido do ponto de vista biológico. Nitrogênio é componente essencial de proteínas e de material genético, e um organismo que passou milhões de anos sem acesso a ele tende a absorvê-lo com prioridade quando a oportunidade aparece. É o tipo de detalhe que não vira manchete e que orienta as próximas perguntas de pesquisa.

Aeróbios sim, anaeróbios quase não

Outro resultado do experimento reforça a explicação sobre o papel do oxigênio. As comunidades revividas eram dominadas por bactérias aeróbicas, ou seja, organismos que dependem de oxigênio para produzir energia.

O contraste com o outro grupo é o que fecha o raciocínio. Segundo o artigo, os micróbios anaeróbicos foram revividos apenas minimamente a partir daquele sedimento oxigenado. A conclusão dos autores é que as comunidades amplamente distribuídas nesse tipo de sedimento abissal pobre em matéria orgânica consistem principalmente de aeróbios.

Isso ajuda a definir o que exatamente foi descoberto. Não é que qualquer forma de vida sobreviva cem milhões de anos em qualquer condição. É que um tipo específico de comunidade microbiana, adaptada a oxigênio abundante e comida escassa, consegue manter capacidade fisiológica plena por esse período.

O que o achado muda sobre os limites da vida na Terra

As implicações vão além da curiosidade. O sedimento marinho cobre cerca de 70% da superfície do planeta e abriga uma população microbiana que, segundo a literatura citada no próprio artigo, representa entre 12% e 45% de toda a biomassa microbiana da Terra.

Se comunidades como essas persistem por dezenas de milhões de anos em sedimento oxigenado, o volume de vida armazenado sob o assoalho oceânico é maior e mais duradouro do que se supunha. Nas palavras do coautor Steven D’Hondt, oceanógrafo da Universidade de Rhode Island, a vida se estende do fundo do mar até a rocha que está por baixo dele, e esses organismos não apenas estão vivos nos sedimentos mais profundos e antigos como são capazes de crescer e se dividir.

Há ainda um desdobramento que a equipe apontou. Se a vida microbiana consegue atravessar cem milhões de anos em privação quase total de energia, o critério usado para procurar vida em outros ambientes extremos, inclusive fora da Terra, precisa ser revisto. O que parecia inviável passou a ser apenas lento.

Vale a ressalva de sempre nesse tipo de extrapolação. Encontrar micróbios resistentes na Terra não significa que exista vida em Marte ou em luas geladas de Júpiter e Saturno. O que o achado faz é ampliar o envelope de condições em que a vida terrestre comprovadamente persiste, e esse envelope é o parâmetro que a ciência usa para decidir onde vale a pena procurar. É uma mudança de régua, não uma descoberta extraterrestre.

O que veio depois e o que continua sem resposta

Este é o ponto em que a matéria precisa ser honesta sobre o tempo decorrido. O estudo foi publicado em julho de 2020, ou seja, tem seis anos. O que ele estabeleceu segue valendo, mas as perguntas que ele abriu seguiam abertas quando o trabalho foi divulgado.

A principal delas é o mecanismo. Os pesquisadores afirmaram que ainda não sabiam explicar como exatamente os micróbios conseguiram persistir por milhões de anos, e que experimentos adicionais seriam necessários para descobrir isso. Também não havia certeza sobre quanto tempo esses organismos poderiam viver, o que levou a equipe a levantar a hipótese de estarem diante dos organismos vivos mais antigos conhecidos do planeta.

Uma segunda pergunta aberta é evolutiva. Como a vida microbiana no subsolo marinho é extremamente lenta em comparação com a de cima, a velocidade evolutiva desses organismos também tende a ser menor. Descobrir se eles evoluíram, e quanto, é uma das linhas que a equipe declarou querer seguir. Para qualquer leitor interessado no assunto, vale checar se houve avanço nessa frente desde então.

O retrato final é o de um experimento simples com um resultado difícil de digerir. Uma equipe perfurou o fundo do Pacífico no ponto mais isolado do planeta, retirou lama depositada quando dinossauros ainda caminhavam pela Terra, levou o material ao laboratório, ofereceu carbono e nitrogênio e observou 6.986 células individuais responderem. Em 68 dias, a população se multiplicou por dez mil, e o autor principal concluiu que até 99,1% dos micróbios da amostra mais antiga, com 101,5 milhões de anos, continuavam vivos e prontos para comer. Não estavam mortos. Estavam esperando, com oxigênio de sobra e comida nenhuma, por um tempo que o cérebro humano não consegue dimensionar direito.

E você, o que acha mais impressionante nessa história: o tempo que esses organismos passaram parados ou o fato de eles voltarem a funcionar em poucas semanas? Na sua opinião, uma descoberta assim aumenta as chances de encontrarmos vida em outros planetas ou não tem relação? Conta nos comentários o que passou pela sua cabeça ao ler que algo enterrado antes da extinção dos dinossauros ainda estava vivo.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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