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Cientistas querem afundar gigantescas plataformas para milhares de metros abaixo do mar ligadas a tubos cheios de gás comprimido para transformar as profundezas do oceano em um sistema de armazenamento de energia que parece ficção científica, usando a força que empurra as estruturas de volta à superfície como uma bateria submarina
Escrito por Ana Alice
Publicado em 26/07/2026 às 23:48
Ciência e Tecnologia
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Uma proposta de engenharia submarina explora pressão, profundidade e flutuabilidade para imaginar uma nova forma de guardar eletricidade no oceano, reunindo energia eólica, hidrogênio e estruturas gigantes em um sistema ainda experimental.
Imagine tentar manter uma bola cheia de ar no fundo de uma piscina. Para empurrá-la para baixo, é necessário gastar energia. Quando ela é solta, a água força sua subida com rapidez.
Um grupo internacional de pesquisadores propôs levar esse princípio a uma escala muito maior.
No lugar da bola, seriam usados conjuntos de tubos com gás comprimido, presos por cabos a equipamentos instalados no fundo do oceano.
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Durante períodos de sobra de eletricidade, motores puxariam as estruturas para regiões mais profundas.
Quando a rede precisasse novamente dessa energia, os tubos seriam liberados de maneira controlada e começariam a subir, movimentando cabos conectados a geradores.
A proposta recebeu o nome de Buoyancy Energy Storage Technology, ou BEST, sigla em inglês para tecnologia de armazenamento de energia por flutuabilidade.
O conceito foi apresentado em 2021 no periódico científico Journal of Energy Storage por uma equipe liderada pelo pesquisador Julian Hunt, então ligado ao Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados, o IIASA.
Apesar da aparência de instalação futurista, o sistema não produziria energia do nada.
Ele funcionaria como uma bateria mecânica: gastaria eletricidade para manter estruturas flutuantes em uma posição profunda e devolveria parte desse recurso quando a força da água as empurrasse de volta para cima.
Como o empuxo pode armazenar energia no oceano
Todo objeto colocado dentro da água sofre uma força direcionada para cima.
Esse fenômeno é conhecido como empuxo e depende, entre outros fatores, do volume de líquido deslocado.
Uma garrafa fechada e cheia de ar sobe porque sua densidade média é menor que a da água ao redor.
Quanto maior for o volume ocupado pelo objeto flutuante, maior poderá ser a força exercida sobre ele.
Na proposta do BEST, os tubos armazenariam um gás, como ar ou hidrogênio.
Cabos ligados a um motor e gerador controlariam o movimento vertical do conjunto.
Quando houvesse excesso de eletricidade vindo de uma usina eólica ou solar, o motor enrolaria os cabos e puxaria os tubos para baixo.
A energia seria armazenada na forma de potencial mecânico, porque a estrutura continuaria tentando retornar a uma região menos profunda.
No momento da descarga, o equipamento permitiria a subida controlada.
A tração sobre os cabos faria o gerador girar e produzir eletricidade para a rede.
O movimento lembraria o de um elevador invertido.
Em um sistema gravitacional convencional, a eletricidade levanta um peso e a descida posterior aciona o gerador.
No BEST, a carga é puxada para baixo, enquanto a subida provocada pelo empuxo devolve energia.
Tubos gigantes formariam a bateria submarina
Um dos modelos analisados pelos pesquisadores prevê 100 tubos de polietileno de alta densidade com aproximadamente 100 metros de comprimento cada um.
Reunidas, essas peças formariam uma grande estrutura flutuante conectada por cabos a uma plataforma de ancoragem no leito oceânico.
A plataforma inferior reuniria componentes como polias, motor, gerador e um dispositivo para guardar os cabos.
Pesos e âncoras precisariam resistir à força exercida pelos tubos, que tentariam subir continuamente.
Nos cenários estudados, os cabos poderiam alcançar até cerca de três quilômetros.
Quanto maior a distância vertical percorrida, maior seria a quantidade de energia potencialmente armazenada, embora os custos de instalação e manutenção também aumentassem.
A estrutura não precisaria necessariamente emergir a cada ciclo.
Ela poderia se deslocar entre duas profundidades previamente definidas, permanecendo submersa durante toda a operação.
Os primeiros 10 a 100 metros abaixo da superfície representam uma faixa delicada para o sistema, porque o volume do gás muda rapidamente com o aumento da pressão.
Por esse motivo, a instalação inicial exigiria o apoio de uma embarcação para conduzir o conjunto até uma profundidade mínima e ajustar o gás comprimido.
Profundidade do oceano amplia o armazenamento
A pressão da água aumenta conforme a profundidade.
A cada descida, o gás dentro dos recipientes sofre maior compressão, o que altera o volume e o comportamento da estrutura.
As simulações indicaram que, em águas mais profundas, a variação proporcional do volume do gás entre diferentes posições tende a diminuir.
Ao mesmo tempo, o maior percurso dos tubos amplia o potencial de armazenamento.
Isso ajuda a explicar por que o conceito foi pensado para locais próximos a águas profundas.
Uma costa cercada por mar raso não ofereceria a mesma diferença vertical disponível perto de ilhas oceânicas ou de determinadas regiões montanhosas submarinas.
A profundidade, porém, não resolve todos os problemas.
Cabos maiores custam mais, aumentam a complexidade da operação e precisam suportar cargas repetidas durante anos.
A instalação também dependeria da inclinação e da estabilidade do fundo, da distância até a rede elétrica, das correntes marítimas e das condições disponíveis para manutenção.
Tecnologia poderia guardar eletricidade por vários dias
Usinas solares e eólicas não controlam quando haverá sol ou vento.
Em determinados momentos, podem gerar mais eletricidade do que a rede consegue consumir.
Em outros, a produção cai justamente quando a demanda aumenta.
Baterias de íons de lítio respondem rapidamente a essas oscilações e são usadas para armazenamentos de menor duração.
Entretanto, instalações destinadas a guardar grandes quantidades de energia por vários dias exigem uma combinação diferente entre capacidade, potência, preço e localização.
Os autores apresentaram o BEST como uma possível alternativa para ciclos semanais.
A proposta seria complementar as baterias, e não necessariamente substituí-las.
Enquanto acumuladores eletroquímicos poderiam responder às variações rápidas da rede, o sistema submarino guardaria volumes maiores de energia para períodos mais longos.
O estudo estimou custos de US$ 50 a US$ 100 por quilowatt-hora de capacidade de armazenamento.
Já a potência instalada ficaria entre US$ 4 mil e US$ 8 mil por quilowatt, segundo os cálculos publicados em 2021.
Esses valores não correspondem ao orçamento de uma usina construída.
São estimativas baseadas em componentes, dimensões e condições simuladas, sujeitas a alterações quando uma instalação de grande escala for efetivamente projetada e testada.
Ilhas e parques eólicos seriam os principais candidatos
A tecnologia foi pensada especialmente para ilhas, cidades costeiras e parques eólicos offshore.
Esses locais podem ter pouco espaço em terra e não apresentar montanhas ou reservatórios adequados para usinas hidrelétricas reversíveis.
Em uma hidrelétrica desse tipo, a eletricidade excedente bombeia água para um reservatório mais alto.
Quando a rede precisa de energia, o líquido retorna por turbinas e gera eletricidade.
O BEST transportaria essa lógica para o oceano, mas substituiria os reservatórios em diferentes altitudes por recipientes flutuantes deslocados verticalmente.
Parques eólicos em alto-mar poderiam utilizar cabos elétricos mais curtos para conectar turbinas, plataformas e equipamentos de armazenamento próximos.
A energia seria guardada no próprio ambiente onde foi produzida antes de seguir para a costa.
Um estudo publicado em 2025 avaliou, por meio de modelagem, a combinação da tecnologia com uma turbina eólica flutuante de referência de 15 megawatts em uma área próxima a Hsinchu, em Taiwan.
O trabalho representou outra análise de viabilidade, e não a instalação de uma usina comercial no local.
Hidrogênio poderia ser comprimido no fundo do mar
Os tubos não precisariam armazenar apenas ar.
Os pesquisadores avaliaram o uso de hidrogênio, combustível que ocupa grande volume e precisa ser comprimido para facilitar seu armazenamento e transporte.
Ao puxar os recipientes para regiões mais profundas, a pressão do oceano ajudaria a comprimir o gás.
Segundo os autores, esse processo poderia reduzir o consumo de energia e o investimento necessário em comparação com determinados sistemas convencionais de compressão.
O IIASA informou que os cálculos do estudo apontaram um investimento cerca de 30 vezes menor para a compressão de hidrogênio.
Trata-se, novamente, de uma estimativa do modelo apresentado pela equipe, e não de um resultado obtido em uma operação industrial em alto-mar.
Depois de comprimido, o hidrogênio poderia permanecer em recipientes submersos, voltar à superfície ou seguir por grandes tubulações.
Uma das propostas considera adicionar areia a esses tubos para reduzir o empuxo e mantê-los na profundidade planejada.
Essa aplicação ampliaria a função do sistema.
Além de armazenar eletricidade por meio do movimento vertical, a infraestrutura poderia participar da compressão e do transporte de combustível.
Cabos, âncoras e corrosão desafiam o projeto
A parte mais conhecida do conceito é a subida dos tubos.
Os maiores desafios, porém, estão nos componentes que precisariam controlar essa força durante milhares de ciclos.
O artigo original identifica os cabos e o sistema de ancoragem entre os principais custos.
O estudo assumiu vida útil de 15 anos, com substituição antecipada de determinados componentes expostos à corrosão marinha.
Além da água salgada, a estrutura precisaria enfrentar correntes, variações de pressão, cargas cíclicas, vibrações e o crescimento de organismos sobre as superfícies.
Pesquisas sobre armazenamento submarino de gases também citam riscos relacionados à estabilidade das âncoras, escape do gás, desgaste das tubulações, acúmulo de água, corrosão e dificuldade de manutenção em áreas profundas.
Qualquer instalação precisaria ainda passar por estudos ambientais.
Cabos móveis, estruturas no leito e ruídos de operação podem interagir com organismos e habitats marinhos, exigindo avaliação específica do local escolhido.
Bateria submarina ainda não opera comercialmente
O BEST ganhou novos estudos depois da publicação de 2021.
Pesquisadores analisaram materiais, formatos, custos e formas de otimizar o movimento das estruturas.
Um trabalho publicado em 2024 descreveu o desenvolvimento da tecnologia como ainda inicial.
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Ana Alice
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Em 2025, novas pesquisas avaliaram sistemas de flutuabilidade em diferentes configurações e sua possível integração com energia eólica offshore.
Até julho de 2026, não foi encontrada confirmação de uma instalação BEST operando comercialmente a milhares de metros de profundidade.
A enorme bateria submarina permanece, portanto, como um conceito estudado por simulações, avaliações econômicas e pesquisas experimentais relacionadas à flutuabilidade.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

