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Com 2.300 toneladas apoiadas sobre 16 pilares hidráulicos, garagem enterrada no gelo e capacidade para erguer toda a estrutura acima da neve, a gigantesca estação alemã na Antártica é levantada regularmente para não desaparecer sob o continente congelado
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 31/07/2026 às 20:32
Curiosidades
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Engenharia extrema permite que uma base científica inteira acompanhe o avanço da neve antártica, preservando laboratórios, alojamentos e sistemas essenciais sobre uma plataforma de gelo em movimento constante, onde fundações ajustáveis, controle hidráulico e operações técnicas evitam que milhares de toneladas sejam soterradas.
No interior da Antártica, uma estação científica alemã com cerca de 2.300 toneladas precisa ser erguida por um sistema hidráulico para continuar acima da neve, acompanhando uma superfície que se eleva continuamente e ameaça engolir construções incapazes de se adaptar.
Apoiada sobre 16 fundações ajustáveis, a Neumayer III distribui seu peso sobre a plataforma de gelo Ekström e evita o destino de antigas instalações polares, que acabaram pressionadas, deformadas ou soterradas pelo acúmulo persistente de neve.
Durante a elevação, engenheiros movimentam os suportes, reposicionam as placas de fundação e preenchem os espaços abertos com neve compactada, enquanto laboratórios, alojamentos e sistemas técnicos permanecem em funcionamento dentro de uma estrutura que opera durante todo o ano.
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Responsável pela base, o Instituto Alfred Wegener de Pesquisa Polar e Marinha, conhecido pela sigla AWI, mantém a estação na região antártica da Terra da Rainha Maud, onde ela também funciona como apoio logístico para expedições, aeronaves e campanhas científicas.
Neumayer III enfrenta o avanço constante da neve
Projetada para superar um dos principais problemas da engenharia antártica, a Neumayer III não trata a neve ao redor como uma simples camada passageira, porque esse material se acumula, ganha densidade e modifica continuamente o nível da superfície.
Sob pressão, a neve recente se transforma em uma massa cada vez mais compacta, capaz de elevar o terreno e exercer forças intensas contra paredes, túneis e estruturas enterradas, reduzindo progressivamente a vida útil de instalações construídas sem mecanismos de ajuste.
Em vez de posicionar os principais ambientes diretamente sob o gelo, os projetistas instalaram a estação sobre uma plataforma elevada, permitindo que laboratórios, alojamentos e setores operacionais permaneçam afastados da camada que cresce ao redor das fundações.
Segundo o AWI, o edifício permanece aproximadamente seis metros acima da superfície graças aos suportes hidráulicos, que podem ser reajustados sempre que novas camadas de neve alteram a altura do terreno e exigem uma nova elevação da estrutura.
Distribuído entre 16 placas apoiadas sobre a neve, o peso aproximado de 2.300 toneladas exige equilíbrio constante, porque qualquer diferença excessiva entre os apoios poderia provocar afundamento irregular, desalinhamento da construção ou sobrecarga em pontos específicos da fundação.
Cada conjunto hidráulico permite movimentar verticalmente tanto a estrutura principal quanto suas placas de apoio, criando um sistema capaz de elevar milhares de toneladas sem depender de uma fundação rígida presa a um terreno que permanece em transformação contínua.
Sistema hidráulico ergue milhares de toneladas
Antes de iniciar o levantamento, a equipe técnica verifica conexões entre o edifício e as instalações inferiores, ajustando cabos, tubulações e elementos que poderiam limitar o movimento ou sofrer danos durante a elevação controlada da plataforma principal.
Na sequência, os suportes hidráulicos estendem-se gradualmente e criam um novo espaço entre as placas de fundação e a superfície acumulada, permitindo que o corpo principal da estação alcance uma posição mais alta sem interromper suas atividades essenciais.
Suspender as placas, porém, representa apenas uma etapa da operação, porque o espaço recém-aberto precisa receber material suficiente para formar uma nova base estável e capaz de suportar novamente todo o peso da construção.
Máquinas sobre esteiras empurram neve para baixo das fundações, enquanto trabalhadores completam manualmente os pontos de difícil acesso, garantindo uma distribuição uniforme do material e reduzindo o risco de diferenças que possam comprometer o nivelamento da estação.
Depois do preenchimento, a neve permanece em processo de estabilização, já que sua estrutura precisa ganhar resistência antes de receber toda a carga exercida pelas placas e pelos milhares de toneladas concentrados sobre o sistema.
Conforme explica o AWI, as fundações são baixadas de maneira lenta e controlada, enquanto os técnicos observam quanto o material cede sob pressão e avaliam se o assentamento alcançou um nível compatível com a sustentação exigida.
A carga completa só é aplicada quando a deformação diminui e a estrutura cristalina da neve oferece resistência suficiente, evitando que uma das placas afunde mais do que as outras e comprometa o alinhamento do edifício.
Como a estação não pode permanecer inclinada, qualquer diferença significativa entre os apoios poderia afetar portas, tubulações, cabos, equipamentos científicos e outros componentes instalados em uma construção planejada para funcionar como um conjunto integrado.
Por meio de um sistema de controle, os elementos hidráulicos são coordenados para que a elevação ocorra de forma uniforme, reduzindo tensões estruturais e impedindo deformações capazes de comprometer ambientes internos ou instalações técnicas sensíveis.
Ventos e gelo tornam a operação mais complexa
Além do peso da própria base, as condições meteorológicas interferem diretamente no processo, porque ventos intensos exercem pressão lateral sobre o prédio elevado e aumentam a complexidade de qualquer movimentação realizada sobre uma superfície congelada.
Por essa razão, a equipe escolhe períodos em que a velocidade do vento permite executar o levantamento com estabilidade, evitando que rajadas fortes imponham esforços adicionais durante a movimentação de uma estrutura com milhares de toneladas.
A base elevada representa apenas uma parte do complexo, já que sob a plataforma principal existe uma grande garagem integrada à neve, destinada a veículos sobre esteiras, motos de neve, depósitos e diferentes instalações de apoio.
Sempre que as fundações sobem, o nível interno dessa área inferior também precisa ser reajustado, exigindo novo preenchimento e redistribuição de neve para manter acessos, pisos e espaços operacionais compatíveis com a posição atualizada da estação.
Nos ambientes superiores ficam os setores de trabalho, descanso e convivência, reunidos sob uma estrutura central que reduz deslocamentos externos em condições marcadas por frio intenso, vento forte e períodos de visibilidade extremamente limitada.
Ao concentrar laboratórios, alojamentos, depósitos e áreas técnicas em um único edifício, a Neumayer III diminui a exposição da equipe ao ambiente antártico e simplifica o funcionamento diário de uma base isolada durante longos períodos.
Estrutura mantém ciência e sobrevivência no gelo
Durante o verão antártico, a estação pode receber cerca de 50 pesquisadores e profissionais de apoio, segundo o AWI, enquanto um grupo menor permanece no inverno, quando o isolamento aumenta e as possibilidades de transporte ou assistência externa diminuem.
A produção de água potável ocorre dentro da própria instalação, a partir do derretimento de neve, enquanto sistemas integrados administram eletricidade, aquecimento, comunicações e os equipamentos necessários para manter laboratórios e áreas habitáveis em operação contínua.
Geradores fornecem energia aos diferentes setores e parte do calor produzido durante esse processo é reaproveitada no aquecimento e em atividades internas, ampliando a eficiência de uma infraestrutura que precisa funcionar longe de redes convencionais.
No teto da estação existe uma área destinada ao lançamento de balões meteorológicos equipados com radiossondas, instrumentos que atravessam a atmosfera e registram dados sobre temperatura, pressão, umidade, ventos e outras condições observadas sobre a Antártica.
Essas medições integram séries científicas mantidas durante décadas, permitindo acompanhar mudanças e processos atmosféricos que dificilmente seriam identificados apenas por campanhas temporárias ou visitas realizadas em determinados períodos do ano.
De acordo com o AWI, a Neumayer III sustenta pesquisas nas áreas de meteorologia, química da atmosfera, geofísica e outros campos ligados à ciência polar, além de servir como plataforma logística para trabalhos realizados longe da costa.
A continuidade dessas observações permite comparar dados obtidos em diferentes períodos, preservando informações essenciais para pesquisadores que dependem de registros regulares e de instrumentos mantidos em funcionamento durante todas as estações.
Bases anteriores foram pressionadas pelo gelo
O modelo hidráulico adotado na Neumayer III surgiu também das limitações observadas em instalações alemãs anteriores, construídas sob a superfície e progressivamente aprofundadas à medida que novas camadas de neve se acumulavam sobre o terreno.
Com o passar do tempo, o peso e o deslocamento do gelo aumentaram a pressão sobre túneis, paredes e tubos de aço, acelerando deformações e reduzindo a durabilidade de estruturas incapazes de acompanhar o crescimento da superfície.
Uma dessas bases chegou a permanecer cerca de 15 metros abaixo do nível externo, conforme informações apresentadas pelo instituto, enquanto seus componentes estruturais sofriam os efeitos do movimento contínuo e da compressão exercida pelo gelo.
Diante dessa experiência, os engenheiros desenvolveram uma construção capaz de subir junto com a superfície, substituindo a resistência passiva por um sistema que se ajusta periodicamente às transformações do ambiente antártico.
Os 16 suportes hidráulicos tornaram-se, assim, componentes essenciais para a sobrevivência operacional da base, porque não servem apenas à montagem inicial, mas sustentam todo o processo de adaptação ao longo de sua vida útil.
Plataforma de gelo carrega a estação em direção à costa
Outro desafio está sob as fundações, já que a Neumayer III não repousa sobre rocha continental, mas sobre uma plataforma de gelo que se desloca lentamente e transporta consigo toda a instalação científica.
Segundo o AWI, a região onde a estação está instalada avança aproximadamente 40 centímetros por dia em direção à costa, movimento que exige monitoramento constante da posição, do terreno e das condições ao redor do complexo.
Esse deslocamento impõe um limite natural à permanência da base no mesmo ponto, porque a área de gelo que hoje sustenta o edifício continuará avançando até alcançar uma região onde poderá se desprender e formar um iceberg.
Por esse motivo, técnicos acompanham regularmente o comportamento da plataforma, enquanto pesquisadores observam mudanças no gelo e engenheiros avaliam como o movimento pode afetar acessos, fundações e operações realizadas no entorno da estação.
A estrutura foi concebida para ser desmontável ao final de sua vida operacional, permitindo a retirada de componentes, revestimentos e equipamentos e reduzindo os vestígios deixados em uma região submetida a regras ambientais específicas.
Internamente, a Neumayer III reúne dormitórios, cozinha, enfermaria, áreas de convivência, laboratórios e salas técnicas, funcionando como um edifício compacto em que diferentes atividades precisam permanecer integradas durante meses de isolamento.
Do lado de fora, entretanto, toda essa infraestrutura depende de fundações instaladas sobre neve, de uma plataforma em movimento e de um sistema hidráulico capaz de acompanhar uma paisagem que nunca permanece completamente estática.
Enquanto pesquisadores monitoram a atmosfera, o clima e o gelo antártico, técnicos verificam níveis, pressões hidráulicas, conexões e condições das fundações, mantendo em equilíbrio uma construção que precisa reagir continuamente ao ambiente.
O trabalho científico só permanece possível porque a própria estação é tratada como uma máquina adaptável, capaz de subir, deslocar-se com o gelo e preservar seus sistemas essenciais em um dos lugares mais extremos do planeta.
Quantos edifícios de 2.300 toneladas conseguiriam ser levantados repetidamente para escapar da neve enquanto continuam funcionando em um dos ambientes mais hostis da Terra?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

