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Com a ajuda de um exoesqueleto robótico, um jovem paralisado do peito para baixo realizou o sonho de cruzar em pé o palco da formatura de mestrado, algo que ele nem tinha feito no ensino médio por causa da pandemia
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 29/07/2026 às 11:45
Atualizado em 29/07/2026 às 11:46
Ciência e Tecnologia
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Ele ia para o trabalho de scooter elétrica quando um caminhão o atingiu. A lesão na altura da quarta vértebra cervical tirou o movimento do peito para baixo. Menos de dois anos depois, com um exoesqueleto e duas profissionais ao lado, ele recebeu o diploma de mestrado em pé.
Jaiden Picot, de 23 anos, atravessou o palco da própria formatura usando um exoesqueleto robótico, equipamento vestível que o ajudou a permanecer ereto e a executar movimentos semelhantes a passos. Ele recebeu o diploma de mestrado em administração da Virginia Union University, nos Estados Unidos, com o apoio de duas profissionais de reabilitação durante o trajeto.
O caso foi divulgado pelo portal NSC Total e ganhou repercussão porque a cerimônia aconteceu menos de dois anos depois do acidente que o deixou paralisado do peito para baixo. No modelo usado por ele, o exoesqueleto respondia principalmente à inclinação do corpo, ou seja, o movimento era comandado pelo próprio deslocamento de peso do usuário.
O acidente de agosto de 2024
O ponto de virada aconteceu em um deslocamento comum. Em agosto de 2024, Picot seguia para o trabalho em uma scooter elétrica quando foi atingido por um caminhão. O impacto causou uma lesão na região da quarta vértebra cervical, identificada pela sigla C4, além de danos nos nervos.
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A altura da lesão explica a gravidade do quadro. Quanto mais alta a lesão na coluna, maior a área do corpo afetada, e no caso dele o resultado foi a paralisia do peito para baixo. Ainda durante a internação, ele começou o processo de reabilitação, etapa que definiria os meses seguintes e que acabaria levando ao uso do exoesqueleto.
A reabilitação em um hospital da Virgínia
O tratamento aconteceu no Sheltering Arms Institute, hospital especializado em recuperação física localizado em Richmond, no estado da Virgínia. A rotina incluiu fisioterapia, terapia e, principalmente, treinamento para conduzir uma cadeira de rodas motorizada, além de exercícios de autocuidado.
Outra parte do trabalho foi o contato com tecnologias voltadas à independência no dia a dia, linha que mais tarde incluiria o exoesqueleto. Ele aprendeu, por exemplo, a controlar aparelhos do quarto por comandos de voz. Em comunicado divulgado pelo próprio hospital em dezembro de 2024, Picot afirmou considerar importante dar às pessoas a sensação de que conseguem fazer algo por conta própria. A autonomia, e não a caminhada em si, é o eixo que organiza esse tipo de reabilitação.
Como funciona um exoesqueleto robótico
O equipamento é uma estrutura vestível, instalada ao redor das pernas e da região pélvica. Motores posicionados nas articulações ajudam o usuário a levantar, manter o corpo ereto e realizar movimentos semelhantes aos passos, funcionando como um esqueleto externo que sustenta e move o que o corpo não move sozinho.
O comando varia conforme o modelo. Alguns sistemas reagem à mudança de peso, outros à contração muscular e outros a ordens enviadas por um controle externo. No aparelho usado por Picot, o gatilho era a inclinação do corpo, o que significa que ele precisava aprender a conduzir o próprio tronco para que a máquina entendesse a intenção de dar o passo seguinte.
Por que o exoesqueleto exige gente treinada por perto
Não se trata de vestir e sair andando. O uso do equipamento exige acompanhamento de profissionais treinados, e é por isso que duas especialistas em reabilitação estavam ao lado dele durante a travessia do palco.
Os riscos são concretos e conhecidos por quem trabalha na área. Uma queda, um encaixe inadequado da estrutura ou uma reação do organismo ao permanecer em pé podem causar lesões, tontura ou a interrupção imediata da sessão. Ficar de pé, para quem passou meses sentado, é um evento fisiológico e não apenas uma questão de equilíbrio, já que a pressão arterial e a circulação também precisam se adaptar à nova posição.
Esse cuidado explica a presença das duas profissionais no palco. Elas não estavam ali como figuração emotiva: acompanhavam o funcionamento do equipamento, a postura e a resposta do corpo dele durante o percurso. Em uso terapêutico, o exoesqueleto é sempre operado em dupla, o usuário e a equipe.
O treino diário e a meta de melhorar 1% por dia
Os primeiros exercícios foram difíceis. Segundo o próprio Picot, o organismo apresentava problemas médicos quando ele ficava em pé ou tentava se movimentar, o que obrigou a equipe a aumentar de forma gradual o tempo e a intensidade das sessões.
Em entrevista à ABC News, ele resumiu o processo dizendo que precisou treinar muito, praticamente todos os dias, para ganhar força. O ganho de resistência é pré requisito para o uso do exoesqueleto, porque a estrutura sustenta o corpo, mas não elimina o esforço de quem está dentro dela. Brittany McCormick, fisiologista do exercício que acompanhou a formatura, contou que ele mantinha postura positiva mesmo nos dias mais duros e havia adotado uma meta simples: ficar 1% melhor todos os dias. Foi essa régua diária, e não um salto repentino, que o levou ao palco em pé.
A faculdade que continuou correndo entre internações
Enquanto o corpo se recuperava, os estudos não pararam. Picot acessava as aulas de dentro do hospital, entre internações e sessões de terapia, e concluiu a graduação em 2025, dentro do prazo que já estava previsto antes mesmo do acidente acontecer.
Logo depois, iniciou um mestrado executivo em administração. A cerimônia de 2026 foi, portanto, a segunda vez que ele subiu ao palco da mesma universidade. A diferença é que, dessa vez, veio depois de um ciclo intenso de treinamento com o exoesqueleto, e a travessia foi feita de pé.
O palco que ele não teve no ensino médio
Existe uma camada pessoal por trás da decisão de atravessar em pé. Picot não participou de uma cerimônia tradicional ao concluir o ensino médio, por causa das restrições adotadas durante a pandemia de Covid 19. Ficou, portanto, com uma formatura pendente na própria memória.
Ao comentar o momento, ele foi direto sobre a diferença entre o que imaginava e o que aconteceu, dizendo que não foi da maneira como imaginava caminhar pelo palco, mas que significou muito para ele. É uma frase que evita o tom de superação fácil, porque reconhece a perda e o valor da conquista ao mesmo tempo, sem transformar a cena em milagre.
Vale registrar o que a cena não mostra. Uma travessia de palco de poucos metros, feita com equipamento ajustado por uma equipe e com duas profissionais ao lado, é diferente de usar o exoesqueleto na rotina, em calçada irregular, sem supervisão e sem tempo de preparo. A imagem emociona, mas descreve uma situação controlada.
O que a ciência já mostrou sobre esses equipamentos
A parte técnica pede cuidado. Exoesqueletos podem permitir que algumas pessoas com lesão medular fiquem em pé ou caminhem durante sessões terapêuticas, mas os resultados variam conforme a altura da lesão, a mobilidade preservada e o estado clínico de cada paciente. Não existe resposta única.
Um estudo publicado na revista científica Spinal Cord acompanhou pessoas com lesões medulares incompletas que ainda tinham alguma capacidade de dar passos sem o robô. Os participantes fizeram 36 sessões ao longo de 12 semanas. Mais da metade do grupo que usou o exoesqueleto avançou de uma categoria de locomoção doméstica para uma velocidade compatível com deslocamento comunitário, patamar que o estudo situa em torno de 0,44 metro por segundo, ritmo suficiente para caminhar na rua sem atrapalhar o fluxo.
O dado que impede conclusões apressadas
O mesmo estudo traz um resultado que costuma sumir das manchetes. O ganho médio de velocidade não foi estatisticamente significativo, o que significa que a diferença observada pode não representar um efeito real quando se olha o grupo inteiro, e não apenas os casos individuais que melhoraram.
A leitura correta sobre o exoesqueleto, portanto, é intermediária. A tecnologia pode beneficiar pacientes selecionados, mas os dados disponíveis ainda não permitem afirmar que ela seja superior à fisioterapia convencional em todos os casos. Um resultado emocionante em um palco não é o mesmo que evidência científica consolidada, e tratar os dois como sinônimos prejudica justamente quem busca tratamento com expectativa realista.
De projeto militar a equipamento de reabilitação
A tecnologia não nasceu na saúde. Um dos primeiros projetos conhecidos foi o Hardiman I, desenvolvido com o objetivo de ampliar a força e a resistência humana, e projetos militares seguiram a mesma linha, buscando aumentar a capacidade física e facilitar o transporte de cargas pesadas.
O caminho até o uso clínico passou por outras etapas. Em 1972, um protótipo de exoesqueleto ativo foi desenvolvido pelo Instituto Mihajlo Pupin, em Belgrado. Na indústria, versões passivas passaram a redistribuir parte do esforço em tarefas que sobrecarregam as costas, sem motores. Já o Hybrid Assistive Limb foi criado para auxiliar movimentos por meio de uma estrutura robótica usada sobre as pernas. A mesma ideia que serviria para carregar peso em campo de batalha virou ferramenta de reabilitação neurológica.
Claire Lomas e a maratona que abriu caminho
O caso de Picot tem antecedentes que ajudaram a popularizar o equipamento fora dos hospitais. Em 2012, Claire Lomas, também paralisada do peito para baixo, cruzou a linha de chegada da Maratona de Londres usando um exoesqueleto, percurso que ganhou repercussão mundial.
Casos como esse cumprem um papel duplo. De um lado, mostram ao público o que o equipamento consegue fazer em situações específicas, com acompanhamento profissional. De outro, criam o risco de generalização, porque a imagem de alguém em pé circula muito mais do que a informação sobre limites, custos e critérios de indicação. Entre 2013 e 2020, a área acumulou avanços registrados em literatura científica, e o campo segue em desenvolvimento.
O que essa história faz você pensar
O caso reúne dois assuntos que costumam aparecer separados. Um é a rotina de reabilitação, feita de treino diário, ajustes pequenos e acompanhamento profissional constante. O outro é a tecnologia assistiva, que avança rápido, gera imagens impactantes e ainda enfrenta perguntas abertas sobre eficácia, acesso e custo.
Agora queremos ouvir você. Na sua opinião, equipamentos como o exoesqueleto deveriam ser prioridade de investimento público em reabilitação, ou o dinheiro renderia mais em fisioterapia convencional e em acessibilidade nas cidades? E se você convive com alguém que usa cadeira de rodas, o que faria mais diferença no dia a dia dessa pessoa? Comenta aqui embaixo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

