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Combustível de avião feito de esgoto humano, sem petróleo bruto e sem plantar soja, milho ou cana: empresa britânica transforma lodo de estação de tratamento em biocrude, refina o material em SAF e fecha acordo de 15 anos para abastecer voos comerciais
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 23/07/2026 às 19:42
Biocombustíveis Renováveis
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Empresa britânica Firefly Green Fuels criou rota para transformar lodo de esgoto em combustível sustentável de aviação, usando biossólidos de estações de tratamento como matéria-prima para produzir biocrude, biochar e SAF. O projeto já tem acordo com a Wizz Air para até 525 mil toneladas ao longo de 15 anos, mas ainda depende de escala industrial, certificação e produção comercial.
Uma empresa britânica colocou o esgoto humano no centro de uma das rotas mais inusitadas da corrida por combustíveis sem petróleo. O material usado não vem de poços, plataformas marítimas ou lavouras energéticas. Ele vem do lodo gerado em estações de tratamento de esgoto.
A tecnologia é desenvolvida pela Firefly Green Fuels, companhia do Reino Unido que trabalha para transformar biossólidos de esgoto em SAF, sigla em inglês para combustível sustentável de aviação. A própria empresa afirma que seu processo Sewage Biosolid To Jet transforma esgoto em combustível “drop-in”, ou seja, compatível com a cadeia aeronáutica atual.
O projeto ganhou força comercial após a Wizz Air anunciar investimento de 5 milhões de libras na Firefly e acordo para comprar até 525 mil toneladas de SAF ao longo de 15 anos. Segundo comunicado regulatório da companhia aérea, o combustível deve abastecer operações britânicas da empresa a partir de 2028.
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Esgoto humano vira matéria-prima energética
O ponto mais surpreendente da tecnologia está na matéria-prima. A Firefly usa sewage sludge, o lodo que sobra depois do tratamento de esgoto realizado por empresas de saneamento.
Esse resíduo costuma ser um problema para cidades, companhias de água e estações de tratamento. Ele precisa ser coletado, tratado, transportado e destinado de forma adequada.
A proposta da Firefly muda essa lógica: em vez de encarar o lodo apenas como passivo sanitário, a empresa tenta transformá-lo em insumo para combustível líquido de alto valor.
Lodo entra em reator de alta pressão
Segundo a Firefly, o lodo de esgoto é colocado em um reator de alta pressão para ser separado em dois materiais principais: biochar e biocrude.
O biochar é um material carbonizado que pode ser usado na agricultura. Já o biocrude funciona como uma espécie de óleo bruto renovável, capaz de passar por etapas posteriores de refino.
A etapa é essencial porque o avião não é abastecido com esgoto cru. O resíduo passa por conversão química, gera um óleo intermediário e só depois esse material segue para ser transformado em combustível de aviação.
Processo usa liquefação hidrotérmica
A conversão do lodo em biocrude ocorre por meio de uma tecnologia conhecida como liquefação hidrotérmica, também chamada de HTL. A Firefly informou em 2026 parceria com a turca Altaca Energy para usar tecnologia especializada nessa etapa upstream do processo.
A liquefação hidrotérmica usa calor, pressão e água para converter biomassa úmida em óleo. Isso torna o lodo de esgoto uma matéria-prima tecnicamente relevante, porque ele já é naturalmente úmido.
Em outros processos energéticos, a umidade pode ser um problema porque exige secagem. Na rota HTL, a água participa do processo, reduzindo uma barreira comum ao aproveitamento energético de resíduos úmidos.
Biocrude é refinado até virar SAF
Depois da produção do biocrude, o material precisa ser atualizado quimicamente. A Firefly afirma que o óleo bruto renovável é convertido em SAF por meio de processos de hidrotratamento derivados da produção convencional de combustível de aviação.
Essa etapa remove impurezas, ajusta a composição dos hidrocarbonetos e aproxima o produto das especificações exigidas pela aviação. A empresa cita a Chevron Lummus Global como fornecedora de tecnologia para a etapa downstream de refino.
A inovação não está em dispensar completamente processos industriais. Está em substituir o petróleo bruto por um resíduo urbano inevitável, transformando biossólidos em óleo renovável e depois em combustível compatível com aviões.
Acordo com Wizz Air prevê 525 mil toneladas
O acordo com a Wizz Air é o principal marco comercial do projeto. A companhia aérea informou que a parceria permitirá o fornecimento de SAF para suas operações no Reino Unido a partir de 2028, com até 525 mil toneladas ao longo de 15 anos.
O comunicado também afirma que o acordo tem potencial para economizar 1,5 milhão de toneladas de CO₂ equivalente. A estimativa considera a substituição parcial do combustível fóssil por SAF produzido a partir de lodo de esgoto.
A própria Firefly também registrou que o pacote com a Wizz Air inclui investimento de 5 milhões de libras e acordo de offtake para até 525 mil toneladas de SAF.
Reino Unido gera milhões de toneladas de lodo por ano
A escala da matéria-prima ajuda a explicar o interesse na tecnologia. Segundo a Wizz Air, mais de 57 milhões de toneladas de lodo de esgoto são produzidas no Reino Unido todos os anos.
A mesma comunicação afirma que esse volume teria potencial para gerar 250 mil toneladas de SAF. O número mostra por que resíduos de saneamento passaram a ser vistos como alternativa para combustíveis avançados.
Diferentemente de matérias-primas agrícolas, o esgoto não exige plantio dedicado. Ele surge diariamente como subproduto da vida urbana e do funcionamento das redes de saneamento.
Harwich deve receber planta pioneira
A Firefly anunciou planos para uma planta pioneira de produção de SAF a partir de esgoto em Harwich, no Reino Unido. O projeto envolve acordos com Haltermann Carless, Petrofac, Chevron Lummus Global e Anglian Water.
A Haltermann Carless é dona de um local especializado em refino em Harwich, onde a Firefly pretende construir uma unidade piloto e, depois, uma primeira planta comercial.
A Anglian Water aparece como parceira estratégica porque deve fornecer o resíduo usado como matéria-prima. A presença de uma companhia de saneamento conecta a rota energética diretamente à infraestrutura de tratamento de esgoto.
Boeing e Clear Sky entraram na estratégia
Em 2024, a Firefly também anunciou uma parceria estratégica com Boeing e Clear Sky. Segundo a empresa, a colaboração apoia o desenvolvimento da primeira unidade comercial em Harwich e a expansão para mercados globais.
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A Firefly afirmou nessa comunicação que transforma resíduos de esgoto em SAF por meio de liquefação hidrotérmica. A empresa também declarou que o combustível produzido por essa rota pode reduzir emissões de ciclo de vida em mais de 90% em comparação com combustível de aviação derivado de petróleo.
A presença de empresas aeronáuticas e industriais amplia o peso da tecnologia. A rota deixou de ser apenas uma experiência laboratorial e passou a integrar uma cadeia de desenvolvimento voltada à produção comercial.
Redução de emissões passa de 90% no ciclo de vida
A Firefly informa que seu SAF pode oferecer redução superior a 90% nas emissões de ciclo de vida em comparação com o combustível fóssil de aviação. Em outro anúncio, a empresa citou análise independente da Universidade de Cranfield com economia de 92% de CO₂e frente ao combustível fóssil.
A Wizz Air também informou que o SAF da Firefly é projetado para entregar 90% de redução de gases de efeito estufa em base de ciclo de vida.
Essa conta considera toda a cadeia de produção e uso do combustível. O diferencial está na origem do carbono, no aproveitamento de resíduo biogênico e na substituição parcial do querosene fóssil.
Combustível pode ser misturado ao querosene atual
O SAF é tratado como combustível de aviação compatível com a infraestrutura existente. A Wizz Air informou que aeronaves Airbus A321neo podem voar atualmente com mistura de até 50% de SAF.
O comunicado regulatório também registra que o SAF precisa ser misturado ao combustível convencional para cumprir exigências regulatórias de uso em aeronaves.
Esse detalhe explica por que a tecnologia é estratégica para a aviação. Ela permite reduzir parte da dependência de petróleo sem exigir uma troca imediata de aviões, motores, tanques e aeroportos.
Tecnologia evita disputa direta com alimentos
Grande parte dos biocombustíveis enfrenta uma discussão sensível: o uso de terras, lavouras e matérias-primas que também podem ter destino alimentar. No caso da rota da Firefly, o insumo principal é um resíduo urbano.
A empresa afirma que o esgoto é uma matéria-prima biogênica, abundante e problemática. O uso desse material cria uma alternativa a cadeias baseadas em óleo vegetal, gordura animal ou culturas agrícolas.
Esse ponto é importante porque a disponibilidade de matéria-prima é um dos maiores gargalos do SAF. A própria Wizz Air declarou que a oferta de insumos segue como desafio central para o setor.
Brasil entrou no radar da Firefly
A rota também chegou ao Brasil por meio de parceria com a Sanepar. Em novembro de 2024, a Firefly anunciou memorando de entendimento com a companhia de saneamento do Paraná para explorar a conversão de biossólidos locais em biocombustíveis avançados, incluindo SAF.
A parceria amplia o acesso da empresa a matérias-primas fora do Reino Unido. O Brasil tem grandes centros urbanos, estações de tratamento e volume expressivo de resíduos de saneamento.
A presença da Sanepar mostra que o interesse pela rota do esgoto não se limita à Europa. A tecnologia pode ser avaliada em mercados onde saneamento, energia e combustíveis renováveis se cruzam.
Lodo de esgoto entra na corrida dos combustíveis avançados
A Firefly trabalha em uma das rotas mais chamativas da nova indústria de combustíveis. O lodo de esgoto, antes visto apenas como resíduo sanitário, passa a ser tratado como fonte de carbono biogênico.
A cadeia proposta começa na estação de tratamento, passa pela liquefação hidrotérmica, gera biocrude, segue para hidrotratamento e termina em SAF. Cada etapa transforma um material de baixo valor em produto energético de alta especificação.
O acordo com a Wizz Air, os planos em Harwich e as parcerias com empresas de saneamento, engenharia e refino colocam o projeto entre os casos mais incomuns de combustível sem petróleo em desenvolvimento comercial.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

