Uma sindicância em andamento na Corregedoria-Geral do Município apura a denúncia de servidores que apontaram a contratação de “funcionários fantasmas” no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) IV Redenção, localizado no último endereço que concentrou milhares de dependentes químicos na Cracolândia.
Funcionários públicos e um gerente da Associação Filantrópica Nova Esperança (Afne), organização terceirizada pela Prefeitura de São Paulo para atendimentos de saúde no centro da capital paulista, acharam médicos aposentados e pessoas que já não trabalhavam para a entidade na Tabela de Lotação de Pessoal (TLP).
Com o avanço da investigação na corregedoria, foi constatado que médicos mortos também constavam nas folhas de pagamento. Uma funcionária, que já havia sido demitida da Afne, foi escutada pelos investigadores sobre o assunto.
“Em relação a possíveis inconsistências na TLP, referentes à presença de médicos que já não mais atuavam na AFNE (CAPS IV REDENÇÃO), inclusive aposentados e falecidos, a depoente informa que comunicou ao gerente que precisava excluir esses profissionais do CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde) para corrigir estas inconsistências, o que não foi feito até o momento em que a depoente foi desligada, fato este que levou alguns destes médicos que já haviam sido afastados do CAPS a entrarem em contato com a AFNE para solicitar a exclusão do sistema”, diz o relatório da corregedoria.
Questionada pelo Metrópoles, a Afne disse que abriu inquérito por calúnia contra os servidores que fizeram a denúncia. A entidade disse que respondeu sobre as inconsistências aos órgãos competentes e não deu detalhes à reportagem.
Antes do início da investigação interna, os servidores mostraram as suspeitas ao vice-prefeito Coronel Mello Araújo (PL), que deu andamento ao processo na corregedoria. O órgão recomendou a suspensão do contrato, o que foi feito pela gestão Ricardo Nunes (MDB), em março. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SES) disse que “segue colaborando com as investigações”.
A Afne, porém, continuou o serviço por conta de uma decisão liminar, que foi referendada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), em junho.
Como mostrou o Metrópoles, o fluxo da Cracolândia, onde se concentravam centenas ou milhares de dependentes químicos, foi dispersado em maio de 2025. Os usuários de droga têm se deslocado pelo centro em pequenos grupos. A dissipação da cena aberta de uso de drogas ocorreu em meio à intensificação de internações voluntárias e compulsórias, além de relatos de violência policial. A reportagem mapeou 11 mortes cometidas por policiais militares entre 2023 e 2025.
Coordenadoria extinta
Paulete chefiou a Coordenadoria Regional de Saúde Centro, mas deixou o cargo no fim de 2025 em meio às investigações internas. Mesmo depois do afastamento da mãe, a médica seguiu contratada pela Afne.
Em março deste ano, a Coordenadoria foi extinta por decreto do prefeito Ricardo Nunes. Quem acompanhou o processo de perto, tem certeza que se trata de “queima de arquivo” para encobrir o esquema.
Hoje, a ex-coordenadora, que já estava fora do cargo na época do fechamento do órgão, está lotada como diretora no Hospital Maternidade Escola Vila Nova Cachoeirinha.
Questionada sobre o motivo do fim da Coordenadoria de Saúde do Centro, a prefeitura disse que “a reorganização administrativa da pasta busca o aprimoramento da gestão dos serviços de saúde no território” e que ” os atendimentos de saúde na região central estão ocorrendo normalmente com a mesma quantidade de serviços e equipamentos”.




























