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8 min de leitura

Sem peças novas, um homem construiu com tábuas e madeira de sucata uma motocicleta que realmente anda, e ainda fez à mão um capacete de madeira para combinar, rodando na própria criação de duas rodas

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 23/07/2026 às 14:36

Atualizado em 23/07/2026 às 14:42

Curiosidades

Motocicleta feita de tábuas e sucata roda em vídeo viral, e o piloto ainda usa capacete de madeira. Veja o que se sabe e por que o capacete preocupa.

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O vídeo mostra o homem abastecendo em um posto e acelerando a motocicleta feita de tábuas, com motor, tanque e pneus reaproveitados. Publicações especializadas elogiaram a engenhosidade e criticaram o capacete de madeira, que não oferece proteção real. A identidade e o país do construtor nunca foram confirmados.

Um vídeo que circula desde junho de 2025 mostra um homem pilotando uma motocicleta construída basicamente com tábuas e restos de madeira, e a cena é tão improvável quanto parece: ele chega a um posto, abastece o tanque e sai rodando na própria invenção. O caso foi divulgado a partir de uma publicação no Reddit e ganhou repercussão em veículos especializados em motociclismo, entre eles o americano RideApart e o britânico Visordown.

O que impressiona não é só a estrutura de madeira. É o fato de o conjunto funcionar, com motor em atividade, aceleração respondendo e uso em via pública. O mesmo vídeo, porém, mostra o item que virou alvo de crítica unânime entre os especialistas: um capacete também feito de madeira, que o piloto usa na cabeça e que não oferece nada parecido com proteção.

O que aparece no vídeo

Motocicleta feita de tábuas e sucata roda em vídeo viral, e o piloto ainda usa capacete de madeira.

As imagens mostram o piloto parando em um posto de combustível para abastecer. Segundo a descrição do Visordown, é um funcionário do posto quem coloca o combustível, e a publicação levanta uma hipótese razoável para isso: o piloto pode estar evitando desligar o motor, com receio de não conseguir dar partida novamente.

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Fora esse detalhe, tudo parece operar normalmente. O piloto aparece acelerando o motor, e o som produzido pelo conjunto foi descrito pela publicação britânica como surpreendentemente afinado. Não é uma maquete empurrada, não é montagem, não é peça de exposição. É um veículo que anda.

Vale registrar que essa é a extensão do que se sabe. Os dois veículos que noticiaram o caso deixam claro que não há informação sobre quem é o homem, onde exatamente a cena foi gravada nem por que ele decidiu construir a própria motocicleta.

Do que essa motocicleta é feita, na prática

Chamar a criação de motocicleta de madeira é correto, mas incompleto. Pela descrição do material, o que existe ali é um chassi montado com peças de madeira do tipo usado em construção civil, mais sobras e recortes, combinados com componentes que não são de madeira nenhuma.

O motor e o tanque de combustível aparentam ser peças reaproveitadas, possivelmente descartadas em outro veículo, e os pneus parecem vir de uma scooter ou de algo ainda menor. Ou seja, a inteligência do projeto não está em fabricar do zero, e sim em enxergar uma moto inteira em um monte de material que a maioria das pessoas jogaria fora.

É por isso que a repercussão foi tão positiva no meio motociclista. Montar um chassi funcional exige entender geometria, distribuição de peso, ponto de fixação do motor e alinhamento das rodas. Fazer isso improvisando material e sem projeto formal é demonstração de conhecimento mecânico real, não de sorte.

O pneu enrolado no chassi e outras soluções de improviso

Um detalhe que passa despercebido em uma primeira olhada foi apontado pela publicação britânica. Ao assistir o vídeo inteiro, é possível notar que o piloto parece ter enrolado um pneu em volta da estrutura de madeira, aparentemente para ajudar a manter a parte dianteira da motocicleta no lugar.

Esse tipo de solução resume bem o espírito da construção: cada problema resolvido com o que estava à mão. Amarração no lugar de solda, madeira no lugar de tubo de aço, borracha no lugar de suporte. Funciona enquanto funciona, e é justamente aí que mora o risco.

Vale entender o que uma motocicleta pede do chassi para dimensionar o desafio. A estrutura precisa segurar o motor em vibração constante, resistir à torção quando a moto inclina em curva, absorver o impacto de cada buraco e manter o alinhamento entre roda dianteira e traseira. Aço tubular faz isso porque entorta antes de romper, avisando o piloto. Madeira não avisa: ela aguenta, aguenta e então quebra de uma vez.

O capacete de madeira é o ponto que ninguém deveria aplaudir

Aqui a cobertura especializada foi unânime, e por bons motivos. O item de proteção que o piloto usa é feito do mesmo material da moto, e a avaliação publicada é direta: aquilo tem mais cara de equipamento de canteiro de obra do que de capacete de motociclista. O vestuário do resto do corpo também não passaria em qualquer checagem básica de segurança.

O texto do RideApart termina com um apelo que vale repetir. O autor elogia a construção da moto e o conhecimento mecânico demonstrado, mas diz preferir que a mesma engenhosidade não seja a responsável por proteger a cabeça do sujeito, e pede que ele compre um capacete de verdade. Um capacete de madeira não é um capacete, é um adereço.

A explicação é física, não estética. Capacete certificado funciona porque tem uma casca externa que distribui o impacto e uma camada interna de material que se deforma para absorver energia, reduzindo a desaceleração brusca do cérebro. Madeira maciça faz o oposto: transmite o impacto em vez de amortecê-lo, e ainda pode estilhaçar.

Há também o que o equipamento improvisado não tem. Falta viseira ou proteção ocular, falta a cinta jugular capaz de manter a peça na cabeça durante uma queda, e falta o formato arredondado que evita que o capacete enganche no asfalto e torça o pescoço. Cada um desses elementos existe por um motivo específico em um capacete de motocicleta, e nenhum deles aparece em uma peça de madeira feita à mão.

Madeira em chassi de moto: o que costuma acontecer

Não é preciso especular sobre o comportamento do material, porque existe teste registrado. Em 2025, o grupo de criadores de conteúdo Cboys trocou o chassi de uma moto de trilha por uma estrutura de madeira, usando como base uma GasGas MC 85 de 85 cilindradas, e o resultado apareceu em vídeo.

A estrutura da motocicleta quebrou ao meio. O caso foi noticiado pelo próprio RideApart, que lembrou que madeira é um material quebradiço e que ainda pega fogo, características ruins para um componente que precisa aguentar vibração, torção e impacto de forma contínua.

A comparação não desmerece o construtor do vídeo original. Andar em linha reta na cidade, em velocidade baixa, é uma coisa. Submeter madeira a salto, buraco, frenagem forte e carga de dois ocupantes é outra completamente diferente, e é nesse segundo cenário que o material entrega a conta.

Existe ainda o fator tempo, que nenhum vídeo mostra. Madeira exposta a chuva, sol, umidade e vibração perde resistência de forma progressiva e silenciosa, com fibras se soltando e furos de fixação se alargando aos poucos. Um chassi metálico dá sinais visíveis de fadiga; um chassi de madeira pode parecer inteiro por fora e estar comprometido por dentro.

O que a lei brasileira exige de quem anda de moto

Como a pauta atravessa a linha do encantamento para a do risco, vale a informação de serviço para o leitor brasileiro. No Brasil, capacete não é acessório opcional nem item decorativo, e a exigência está no Código de Trânsito Brasileiro.

Conduzir motocicleta sem capacete de segurança, ou com equipamento fora das normas estabelecidas pelo Contran, é infração gravíssima, com multa, suspensão do direito de dirigir e retenção do veículo. A regra vale igualmente para o passageiro.

Há ainda a questão da certificação. Capacete vendido no país precisa ter certificação compulsória do Inmetro, com selo de identificação, e é esse processo que atesta que o produto passou por ensaios de absorção de impacto, penetração e resistência da cinta jugular. Capacete artesanal, improvisado ou sem selo não cumpre esse papel, por mais bonito que seja o acabamento.

Não é o primeiro, e provavelmente não será o último

Motocicleta de madeira não é invenção isolada nem exclusividade de um continente. O caso mais documentado da categoria é o do húngaro Istvan Puskas, tratorista que aos 52 anos construiu um chopper de madeira em Tiszaörs, cerca de 160 quilômetros a leste de Budapeste, usando lenha como matéria-prima ao longo de dois anos de trabalho.

O padrão se repete em todos os casos conhecidos: chassi e carenagem de madeira, mecânica convencional embaixo. Ninguém construiu ainda um motor de madeira que funcione, e nem há como. O que a madeira permite é substituir a estrutura, o que muda a estética radicalmente e a segurança também, na direção errada.

O que a apuração não confirma, e por que isso importa

Este é o ponto em que a matéria precisa ser honesta com o leitor. As duas publicações que trataram do caso descrevem a cena como ocorrida aparentemente em algum lugar da África, mas nenhuma delas confirma o país, a cidade, o nome do construtor ou a data da gravação. A origem é um vídeo compartilhado em rede social.

Sem identificação e sem localização confirmada, qualquer afirmação sobre a vida, a renda ou a motivação desse homem é chute. Ele pode ser mecânico experiente, marceneiro, artista, criador de conteúdo ou tudo isso junto. O que o vídeo mostra é o resultado, e é sobre o resultado que dá para escrever com segurança.

Essa transparência não enfraquece a história, pelo contrário. O que impressiona na motocicleta continua impressionando independentemente de quem a construiu, e o alerta sobre o capacete continua valendo para qualquer pessoa em qualquer país.

No fim, o vídeo entrega duas coisas ao mesmo tempo, e elas puxam para lados opostos. De um lado, uma demonstração legítima de engenhosidade mecânica: alguém olhou para tábuas, um motor descartado e pneus de scooter e enxergou ali uma motocicleta que de fato anda. De outro, um capacete de madeira que não protege ninguém e um conjunto que jamais passaria por qualquer teste de segurança. Dá para admirar a primeira parte sem fingir que a segunda não existe.

E você, o que acha desse tipo de construção? É engenhosidade que merece aplauso ou irresponsabilidade que merece alerta? Se você já viu alguma motocicleta improvisada rodando na sua cidade, conta nos comentários como era e se parecia segura.

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motocicleta


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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